reportagem

"The Family", a mais notória seita religiosa da Austrália

Ao longo de três décadas, o culto criado por Anne Hamilton-Bryne, raptou crianças e submeteu-as ao consumo de altas doses de LSD.

Por Maddison Connaughton
21 Julho 2017, 9:15am

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Austrália.

Em 1961, uma professora de yoga chamada Anne Hamilton-Bryne apareceu sem aviso em casa de Raynor Johnson, professor do Queens College da Universidade de Melbourne. Os dois nunca antes se tinham encontrado, mas, durante o chá, Anne conseguiu convencer Raynor - um psicólogo ilustre - de que ela era um ser espiritual que podia ver o futuro.

Nas três décadas que se seguiram, convenceu muitos outros do mesmo e acabou por construir uma seita religiosa, na qual a sua figura equivale à reencarnação de Jesus Cristo. Na Austrália, o culto tornou-se conhecido como "The Family".

A seita é tema do novo livro de Rosie Jones e Chris Johnston, The Family. Há anos que ambos investigavam o grupo, mas de forma autónoma - Rosie para o documentário, também intitulado The Family, e Chris para uma série de artigos para o The Age. O objectivo comum passava por tentar seguir o rasto à vasta fortuna que Anne juntou graças à devoção dos seus seguidores, que chegaram a ser mais de 500 pessoas congregadas numa propriedade denominada Uptop.

Hoje, Anne é uma mulher de 96 anos que vive num asilo de Melbourne e que nunca foi acusada formalmente pelos seus crimes. Por sofrer de demência, nunca vai poder responder à pergunta crucial: porque é que era tão cruel para com as pessoas que a reverenciavam? Uma questão que ficará sem resposta para as (pelo menos) 28 crianças que sequestrou, drogou com LSD e criou como seus filhos no isolamento de Uptop.

No documentário de Rosie, muitas dessas crianças falam serenamente sobre o abuso que sofreram. Muitas foram adoptadas pela seita com a ajuda de documentos falsos, depois de serem roubadas de hospitais logo após o nascimento. Estima-se que um quarto da Família era formada por enfermeiras e outros profissionais de saúde.

Na verdade, antes de conhecerem Anne, muitos membros do culto eram pessoas com profissões normais - advogados, médicos e figuras políticas poderosas, levadas para o grupo por Raynor Johnson. Outros foram recrutados em Newhaven, um hospital psiquiátrico particular em Kew, propriedade da integrante do culto, Marion Villimek. Sob o seu encanto, muitos dos seguidores de Anne deram-lhe dinheiro, as suas casas, os seus casamentos e até os seus filhos - crianças que Anne criou como se fossem suas.

As crianças da "Família". Imagem cortesia Big Storie Co.


Isoladas do mundo exterior, as crianças da "Família" cresceram sob a supervisão severa de membros do culto, conhecidas como "as Tias", que muitas vezes as deixavam sem comer e as espancavam. Mesmo quando estava fora em viagem, Anne ligava para Uptop para, ao telefone, ouvir as crianças a serem "disciplinadas".

A manipulação psicológica era intensa. A foto mais icónica da "Família" é uma que mostra as crianças vestidas com roupas iguais, cabelos com o mesmo corte e pintados de loiro platinado. Tudo era pensado para as convencer de que eram irmãos e irmãs. Agora adultos, os sobreviventes relembram a doutrinação dentro da "Família" enquanto crianças e adolescentes, trancados numa sala escura dias a fio e receberem altas doses de LSD.

A história da seita tem muitos elementos: o consumo liberal de LSD por parte do grupo, as raízes na filosofia new age, os laços com figuras poderosas de Melbourne, rumores de que Julian Assange era membro (não era), o facto de ser um dos poucos cultos liderados por uma mulher. Mas, lendo o livro e vendo o documentário, a imagem que fica é a de um sofrimento desnecessário. Mesmo sendo agora pessoas de meia idade, os "filhos" de Anne Hamilton-Bryce ainda vivem sob a égide do sofrimento a que foram submetidos. Ainda tentam montar o puzzle, encontrar os seus pais biológicos, lidar com o que lhes aconteceu na infância e criar as suas próprias famílias.

Vê mais informações sobre o documentário de Rosie Jones aqui.

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