relações

Perguntei aos meus ex o que há de errado comigo

“Não és tu, sou eu”. E será que sou mesmo?
rompe corações
Foto pela autora.

É Dia dos Namorados e eu estou solteira. Não tenho nenhum problema com isso, porque não me lembro de alguma vez ter comemorado este dia quando tinha namorado, mas, rodeada de tantas descrições românticas no Instagram, de tantos balões, corações, chocolates e uma overdose de cor-de-rosa, dediquei-me a pensar sobre o porquê de estar solteira.

E conto-vos: até há poucos meses estava numa relação, numa bastante séria e duradoura. Até que ele me partiu o coração, até que ele estragou tudo, até que ele nos levou ao nosso fim. Ele, ele, ele. Nada eu - nunca eu. Eu estou isenta de culpa, sou a vítima da história, a pobre coitada. Mas, será isso sequer possível, haver um só culpado?

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Vê: "O que é que se passa com o amor?"


Uma relação é feita a dois, num constante jogo de Tetris, em que nos tentamos encaixar o melhor que podemos. O amor é a parte fácil, o difícil é o dia-a-dia. É fazê-lo durar. Fazer o outro feliz neste mundo de merda. O difícil não é gostar, é construir a relação. É o fluxo de cedências, de tentar compreender o incompreensível, um jogo de feitios e humores. Estar numa relação é ter que levar com as manias de outra pessoa e tentar amá-las por mais que nos irritem. E foi aí que pensei – se são sempre precisas duas pessoas para dançar o tango, poderei mesmo estar isenta de culpa?

É muito fácil apontar o dedo ao que há de errado com os outros, o que custa mesmo é analisar-nos a nós próprios. Assumir os nossos erros. Diz-se que parte de ser adulto é acatar as consequências, é saber quem somos e encarar os problemas de frente. Por isso, aqui vou eu. Vou tentar saber qual é, então, o meu lado negro, tentar ver o outro lado da história e aprender qualquer coisa sobre mim própria.

Namorado 1

“Foste a minha primeira namorada e tiveste um papel importante em todo o meu percurso de vida. Foi uma história longa e, consequentemente, complexa, durante a qual tanto tu como eu fizemos coisas mais felizes e outras… menos. Acho-te optimista, dedicada e carinhosa como namorada, acho até que desde cedo chegaste a um nível superior nesse papel, sabias ser melhor namorada do que eu sabia ser namorado. Eu pensava como um puto de 16 anos, enquanto já tu pensavas e agias como uma mulher – eu sentia-me sempre um passo atrás. Até porque sempre tiveste o dom da escrita e te expressaste bem por cartas ou por mensagens.

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Diria que o nosso problema foi a mania de sermos rebeldes, que tanto tu como eu tínhamos e isso mostrava-se, muitas vezes, mais importante do que salvaguardar a relação. E, com o tempo, como acontece com as relações duradouras que não são bem cuidadas, começámos a dar-nos como garantidos. E aí entram infidelidades, desconfianças e discussões, até que se torna inviável acreditar um no outro. No nosso caso, diria que foi bastante mútuo, errámos em igual medida. Mas, já que me dás a oportunidade, digo-te que o teu maior defeito sempre foi o de quereres ter sempre razão. Quando não tinhas, em vez de admitires, evitavas falar ou discutir o assunto”.

Namorado 2

“Já se passaram muitos anos desde que andámos e ficámos sempre bons amigos, o que torna mais difícil lembrar-me do que é que me incomodava em ti na altura. Como é óbvio que me lembro que, sempre que discutíamos, tu davas asas à tua capacidade de argumentação e usavas esse teu paleio para me dar a volta. Conseguias convencer-me de que tinhas razão mesmo quando não tinhas.

Bem, mas esse teu artigo centra-se em coisas más não é, por isso é inevitável falar da única coisa que sempre me incomodou e da qual, mesmo passado todos estes anos, não me esqueci. Houve uma situação, sobre a qual já falámos várias vezes… Um certo Verão em que tu estiveste com outro (apesar de que ainda hoje digas que não). Mesmo que seja mentira, que não tenha chegado nunca a vias de facto, diria que é esse mesmo o teu maior defeito como namorada. Sempre foste uma pessoa muito horny, de certa maneira carente, que gostava de atenção e se deixava levar por ela. Nunca duvidei de que gostavas de mim na altura, mas como és uma pessoa horny acabas por te meter nestas situações, ter esses “acidentes” e encornar sem querer.

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Muito sinceramente, Madalena, agora olhando para trás, esta é a única coisa negativa que te tenho a apontar. Talvez se me tivesses perguntado na altura, logo a seguir, eu teria aqui um leque de merdas em que me irritavas. Mas, já se passou tanto tempo e tornamo-nos tão amigos no entretanto, que não te guardo nenhuma má memória. O que é bom sinal".

Namorado 3

“Vou directo ao assunto, já que me dizes para ser corajoso e dizer o que penso. Durante a nossa relação, várias coisas me irritavam, mas que me irrite não significa que sejam culpa tua. Do que sim tens culpa, é dessa tua eterna mania de ter razão. Achas que tens sempre razão e, quando não a tens, manipulas o jogo para a ter.

Tenho que dizer também que tens mau humor. Uns ataques de raiva que te apanham desprevenida e podem acontecer a qualquer momento – seja pelo trânsito, porque estás atrasada ou desorganizada, porque há fila… Aparecem de surpresa, o mau humor entra-te de rompante e depois toca-nos a todos, a qualquer pessoa que esteja contigo nesse momento, aturar-te, dure o tempo que durar. O lado positivo, é que são só estes dois. Não tens muitos defeitos”.

Duro. Gostava de poder dizer que estou a melhorar com a idade - talvez até esteja, já que dar o passo de escrever este artigo requer alguma maturidade -, gostava também de vos dizer que tudo isto não é bem assim. Mas, a verdade é que, quer seja ou não (provavelmente é), isso não interessa. No fim do dia, o que interessa não são os factos, mas sim como nos fizeram sentir. Como dizia o Louis C.K., "When someone tells you that you hurt them, you don't get to decide that you didn't".

O que conta é o que levamos connosco de cada situação. E, quanto a isso, resta-me esperar que, no derradeiro balanço, o bom ganhe ao mau. Quanto a mim, que não nasci romântica e não ando à procura de um príncipe encantado, confesso que acredito que não há melhor na vida do que o amor e, agora que sei quais os meus maiores defeitos, prometo esforçar-me para que o meu próximo ex-namorado não tenha as mesmas queixas.


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