Identidade

O que aprendi sobre racismo enquanto único chinês num festival "chinês" na Alemanha

Todos os anos, 20 mil pessoas reúnem-se para esticar os olhos com eyeliner e gritar “Ni hao” num festival temático na cidade de Dietfurt, na Baviera.

Por Marvin Xin Ku; Traduzido por Marina Schnoor
02 Abril 2019, 5:12pm

Todas as fotos por Alexander Freundorfer.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Alemanha.

A loucura está por toda a parte. O talho local é rebaptizado de “Talho da China”, enquanto a padaria passa a “Padaria Chinesa” e vende “bolinhos e pretzels chineses”. Há cerveja, móveis de madeira escura e lanternas chinesas vermelhas. Ouves a frase “Ni hao!” por todo o lado.

No meio de tudo isto, eu, o único verdadeiro chinês à vista.

A fonte da minha confusão fica na pequena cidade alemã de Dietfurt, situada ao longo do rio Altmühl, no sudeste do país. Todas as quintas antes da Quarta-feira de Cinzas, a cidade transforma-se na “China da Baviera” e os seus habitantes passam a ser “chineses”, vestidos com trajes “tradicionais” e maquilhagem amarela na cara. E esre festival anual não é um evento de nicho – cerca de 20 mil pessoas deslocam-se todos os anos a Dietfurt para participarem.

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Habitantes de Dietfurt vestidos com "trajes chineses tradicionais" a beberem cerveja.

Cresci no norte da Alemanha como filho de imigrantes chineses e desde o jardim de infância que experimentei racismo – mesmo antes de saber o que era. Fui a Dietfurt para tentar entender não só esta tradição bizarra, como também as pessoas por detrás dela. O que motiva os moradores de Dietfurt a levarem a cabo esta celebração aparentemente racista todos os anos? E “tradição” é mesmo uma boa desculpa para isto?

O Despertar

É uma da manhã. Trinta pessoas com coletes de pele, perucas vermelhas e maquilhagem colorida estão reunidas no restaurante chinês nos arredores da cidade. Música festiva alta pode ser ouvida lá de dentro. Esta é a tradicional chamada de despertar. Daqui, o grupo de palhaços vai caminhar até à cidade para acordar a gente e inaugurar oficialmente o carnaval.

Um dos palhaços é Franz, um natural de Dietfurt com um pesado sotaque local, braços tatuados e um grande colar de metal brilhante. Está vestido com um roupão de banho amarelo bordado com flores e uma peruca que parece um algodão-doce gigante. A barba está ajeitada em duas trancinhas com berloques coloridos. Franz tem 56 anos e nos últimos 38 sempre participou no despertar do evento.

“No passado, fazíamos 24 quilómetros num dia”, conta, acrescentando que ele e os seus colegas palhaços levam o papel a sério – Franz jura que nada os vai impedir de cumprirem as suas obrigações. “Não importa se está a chover granizo ou se há 15 centímetros de neve lá fora”, garante.

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Franz.

Em vez das piadas racistas que esperava, sou recebido com sopa ácida com pão de centeio. Franz chama o chef chinês, Yuen, e pede outra tigela de sopa para mim. “Queres mais pão, pá?”, pergunta. Estou à mesa com Franz há menos de 30 minutos, mas já me sinto em casa.

Às 2h00, partimos para acordar as celebridades locais – o presidente da câmara, o dentista e o comité organizador do carnaval. Alguns tocam trompetes e trombones e dois homens empurram um canhão antigo. “Quando disparamos, até as cidades vizinhas ouvem”, assegura Franz. Juntos, marchamos em direção ao centro da cidade.

Dietfurt tem seis mil habitantes, mas parece muito mais pequena Tem mais talhos que supermercados, mais pousadas que restaurantes de kebab. A rua principal chama-se “Rua Principal”, há uma rua baptizada com o nome da estação de comboios local – mesmo que a estação já não exista. Um autocarro sai da cidade cinco vezes por dia e os moradores brincam que é mais fácil sair que chegar a Dietfurt.

Mas, como é que este festival aqui chegou?

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Reza a lenda que há muito tempo, o Bispo da cidade próxima de Eichstätt enviou o seu tesoureiro a Dietfurt para cobrar impostos. As pessoas de Dietfurt não gostaram da ideia, portanto fizeram uma barricada nos portões da cidade e deixaram o tesoureiro de fora. Ele ficou danado e reclamou que os dietfurtianos estavam a esconder-se atrás dos seus muros “como os chineses”. Quando e se isso realmente aconteceu não é claro.

De qualquer maneira, Dietfurt escolheu identificar-se com a cultura chinesa desde então. Em 1928, a Orquestra Municipal de Dietfurt foi a primeira a tocar mascarada – 16 homens e mulheres a usarem chapéus de arroz, tranças e trajes chineses. Em 1954, Dietfurt escolheu o seu primeiro imperador.

O Imperador

Sessenta e cinco anos depois, Manfred Koller olha-se ao espelho da casa-de-banho e cuidadosamente pinta os olhos. O pedreiro de 51 anos apoia-se no lavatório com um pote de glitter dourado na mão, um delineador e um eyeliner ao lado. Daqui a algumas horas vai ser o “Imperador Fu-Gao-Di”.

O imperador tem o dia todo planeado: visita ao jardim-de-infância, almoço de salsicha branca tradicional, uma recepção com a imprensa e um evento de gala. Pega o delineador e aplica um pouco de cor no canto do olho.

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Koller se maquiando.

Pergunto-lhe o que está a fazer. “Estou a tentar fazer com que os meus olhos pareçam esticados”, explica. Entendi. Se ele acha constrangedor maquilhar olhos de forma a parecerem esticados enquanto eu estou mesmo ao seu lado, não parece. “Já pensaste que podes estar a ofender algumas pessoas com isso?”, pergunto. “Não, nem um bocadinho, porque é só uma forma de enfatizar contornos faciais, portanto não é assim tão ruim mau”, responde.

O imperador lambe uma bola de algodão e cobre os seus pelos faciais – que já estão no formato de uma barba Fu Manchu – com maquilhagem preta. Ele acha esta questão “um pouco difícil” de comentar. Não tem más intenções, garante – pelo contrário, na verdade: “Achamos a cultura chinesa muito interessante. Nunca tivemos um verdadeiro chinês que visse isto como um problema”.

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O imperador está pronto.

O imperador acredita que está a fazer um esforço para prestar homenagem à cultura chinesa ao importar as suas máscaras da China. Quando não pode, por qualquer razão, usa réplicas feitas sob medida. No seu “cantinho do carnaval”, tipo um altar à China, tem uma estátua de pedra de Guan Yu protegida por três espadas de samurai. Guan Yu era um general da antiguidade que é visto hoje como um símbolo de força. Primeiro, o imperador diz que a estátua e as espadas foram “um presente da China”, mas depois admite que “não são realmente chinesas, mas parecem”.

Para o seu nome de imperador, queria alguma coisa “autêntica”, salienta. Um amigo chinês ajudou Manfred a fazer uma pesquisa e escolher o nome Fu-Gao-Di. “'É isto mesmo', pensei na altura. 'É um nome que consigo pronunciar!'”, recorda o imperador entre risos.

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Crianças da escola de Dietfurt apresentam-se num ginásio.

Duas horas depois, esse é o nome gritado no ginásio de uma escola. “Fu-Gao-Di! Fu-Gao-Di!” Nas paredes do ginásio há desenhos do Hulk, palhaços e da Princesa Elsa.

“Saudações, meus rebentos!”, berra o imperador ao microfone. As crianças gritam “Fu-Gao-Di! Fu-Gao-Di!” com animação e batem os pés no chão. Na porta da frente, duas equipas chinesas de filmagem captam cada momento do evento.

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São 11h00 e um jornalista da estação de TV bávara local está a encurralar toda a gente que parece asiática para perguntar o que a pessoa está a achar da festa.

A seguir, é hora de uma cerveja matinal. A Taverna Sheippl está cheia, o cheiro é de cerveja e pretzels frescos. Espremo-me na mesa do imperador e recebo-o com um sincero “Ni hao!”. Ele tem vestido um roupão dourado e um chapéu oblongo com pérolas, o que o faz parecer mais uma versão bávara do imperador de Mulan. Pede quatro salsichas brancas com mostarda, que divide com um homem vestido de monge budista.

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A saborear uma bratwurst com o imperador.

Tudo isto não parece certo, mas também não parece totalmente errado. Sim, as ruas estão cheias de visitantes com a cara pintada de amarelo e pessoas vestidas como caricaturas chinesas. E sim, é tudo muito sem noção, justificado por afirmações de que as pessoas não querem ofender. Mas, ao mesmo tempo, há pessoas em Dietfurt a fazerem um esforço honesto. Tipo Pia, que trabalha no gabinete de turismo e traz palestrantes chineses para participarem no festival. Há também Horst, que está a usar um changshan, uma túnica masculina tradicional que comprou em Pequim em 1996. E o Max, que passou 110 horas a esculpir a coroa de dragão do imperador.

Dietfurt tem uma parceria cultural com a cidade de Nanquim, que realiza o Festival de Amizade Bávara-Chinesa todos os verões. O cônsul chinês é convidado para o Carnaval de Dietfurt todos os anos. Claro que não há desculpa para pintar a cara de amarelo, mas, no fundo, Dietfurt, parece ter um apreço genuíno pela cultura chinesa.

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O Desfile

Às 13h00, toda a gente de Dietfurt está nas ruas. Perto de mim, um grupo de chineses de Munique tira fotos, chocados. “Como é que uma cidade inteira gosta assim tanto de chineses?”, pergunta-me um deles.

Quando o desfile começa, a multidão é tão grande que se torna difícil andar. É então que começam a chover doces que são lançados dos carros alegóricos direitinhos à minha cabeça. Mas, estou muito na boa para ficar irritado e grito “FU-GAO-DI!” O imperador está a chegar. Ele desce do seu carro alegórico de dragão, caminha até ao trono e começa a ler um livro dourado, contando à multidão coisas sobre a amizade eterna que existe entre a China e a Alemanha. Dietfurt vai à loucura.

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20 mil pessoas reúnem-se para receber o imperador.

No dia seguinte, a cidade recupera de uma ressaca colectiva. As ruas estão cobertas de caixas de comida e garrafas partidas. Entro num talho e deparo-me com seis homens bêbados que ainda estão a celebrar.

“Konnichiwaaa!”, grita um deles.

“Meu deus! Um chinês verdadeiro, o que é que ele está aqui a fazer?”, acrescenta outro.

“Sabes que ser chinês não é uma máscara muito boa”, diz outro.

Comentários destes já não me irritam, infelizmente. Conheço-os todos muito bem, que é exactamente o problema. Se és diferente, o racismo torna-se uma parte constante da tua vida. A pergunta é: como é que escolhes viver com ele.

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O autor no seu habitat natural.

Para mim, racismo significa reduzir as pessoas com base na sua origem ou cor da pele. Ou quando as pessoas acham que “máscara de chinês” é quimono e uns hashis, “porque ao fim e ao cabo é tudo asiático”. Mas, é assim tão desvalorizante quando uma cidade inteira celebra a sua percepção da cultura chinesa, apelidando-se de chineses, tendo um marco chinês na cidade e regularmente recebendo convidados da China?

Em Dietfurt, descobri que intenção e apreciação têm um papel em tudo isto. Para mim, há uma grande diferença entre pessoas que pintam a cara de amarelo e usam uma máscara tosca e aquelas que mostram um interesse sincero pela cultura chinesa. O qipao e o changshan são trajes chineses tradicionais que não são assim tão usados na China moderna. Apropriação cultural? Talvez. Mas, fiquei meio emocionado ao ver pessoas em Dietfurt mais preocupadas com a “minha cultura” que eu.

Sim, uma parte considerável do Carnaval Chinês de Dietfurt é racista, mas isso não reflecte toda a gente que nele participa. Fui muito bem recebido durante a festa – como chinês e como ser humano. O racismo que experimentei não veio necessariamente de pessoas vestidas em clichés culturais constrangedores. Veio de pessoas – geralmente de fora da cidade – que não podiam ou não queriam distinguir entre o que é chinês falso e o que é chinês verdadeiro.


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