Comida

Pablo Escoburger: o sanduíche que vem com uma carreira de cocaína falsa

Nem todo mundo vê problema em usar o nome de um assassino narcoterrorista como piadinha para sua hamburgueria.
14.2.19
Uma pintura de Pablo Escobar e um hambúrguer

Em abril do ano passado, um restaurante de Queenstown, Nova Zelândia, discretamente acrescentou um novo hambúrguer ao seu cardápio, recheado com uma combinação inevitavelmente zoada de chili, tortilhas, guacamole, queijo e salsa. “Apresentando o Pablo Escoburger”, o The World Bar escreveu no Facebook: “Só pode haver um rei”.

Meses depois, o Ze Pickle, da Austrália apresentou seu próprio Pablo Escoburger, que também envolvia guacamole, tortilhas de milho, queso e jalapenhos. Nenhum deles parece ter gerado uma histeria mundial; o The World Bar não serve mais seu Escoburger e o Ze Pickle rebatizou o seu como simplesmente “The Pablo”.

Mas logo depois que um restaurante pop-up de Melbourne chamado Pablo's Escoburgers abriu, eles começaram a servir um cheeseburguer dublo chamado The Patron, que vem com uma cuidadosa carreira de pó branco em cima (é farinha de alho, calma) e com uma nota de $100 enrolada (é falsa, calma). E diferente dos Escoburgers anteriores, parece que esse chamou a atenção de todo mundo.

Colocar o nome de Escobar em várias gramas de carne moída parece complicar desnecessariamente seu cardápio, porque para cada fã de Narcos que só queria ter um estilo de vida bilionário, tem alguém que não vê problema em usar o nome de um assassino narcoterrorista como piadinha para sua hamburgueria. (Mas também acontece que é 2019, um ano em que a Netflix teve que lembrar as pessoas de não terminar de assistir Conversando com um Serial Killer concluindo que Ted Bundy era gato.)

Na página do Facebook do Pablo's Escoburgers, as respostas são surpreendentemente mistas. Teve um comentarista que postou “#changethename” (ou #mudeonome) em todos os posts, e outro que respondeu com um GIF do “Butthurt-O-Meter”. Alguns australianos se marcaram, sugerindo ir comer o hambúrguer imediatamente, e uma mulher colombiana escreveu que a mãe dela quase morreu num atentado com carro-bomba ligado a Escobar.

Gabriel García Márquez tentou reconciliar as percepções de Escobar em seu livro Notícias de um Sequestro – que detalha vários sequestros famosos cometidos pelo Cartel de Medellín de Escobar. “No auge de seu esplendor, as pessoas faziam altares com a foto dele e acendiam velas nas favelas de Medellín. Acreditava-se que ele podia realizar milagres”, escreveu Gabo sobre Escobar. “Nenhum colombiano na história possuiu ou exerceu um talento como o dele para moldar a opinião pública. E nenhum tinha um poder maior de corromper. O aspecto mais perturbador e poderoso da personalidade dele era sua total incapacidade de distinguir entre o bem e o mal.”

Corrupção e mal podem ou não ser adjetivos que você ia querer associar com seu cheeseburguer, mas Vaughan Marks, dono do Pablo's Escoburgers, não vai recuar. “Temos muito orgulho dos nossos hambúrgueres, mas também entendemos que Pablo Escobar foi um homem horrível que destruiu a vida de milhares de colombianos”, ele publicou no Facebook. “Não toleramos, idolatramos ou promovemos Pablo Emilio Escobar ou nenhuma de suas ações. Mas somos australianos, e sabemos rir de um bom jogo de palavras.”

Em sua página pessoal no Facebook, Marks sugeriu que quem quiser continuar fingindo cheirar uma carreira de farinha de alho deveria responder dando uma boa avaliação para o restaurante online. “Estamos recebendo muito ódio da comunidade colombiana, Deus os abençoe”, postou. “Se você puder tirar dois minutos para deixar uma boa avaliação para reverter nossa nota de 2 estrelas seria ótimo! […] Dá pra ver a diferença entre quem experimentou nossos deliciosos hambúrgueres e os colombianos que só não gostaram do nome.”

Colocando o hambúrguer Patron de lado, a parte mais estranha dessa polêmica é o restaurante estar disposto a reconhecer que Escobar “destruiu a vida de milhares de colombianos”, e ao mesmo tempo se recusar a levar em conta os sentimentos de colombianos de verdade – incluindo, talvez, aqueles que tiveram a vida afetada por Escobar. A VICE pediu comentários a Marks, mas não recebeu resposta ainda.

Ou talvez nem seja tão complicado assim. “Só outro exemplo de hipster tentando chamar atenção porque sua comida é esquecível”, um comentarista escreveu.

Talvez seja só isso. E pelo menos eles não colocaram tortilhas no lanche. Aí seria indesculpável.

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