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Pablo's Escoburgers, o restaurante que serve um cheeseburger com uma linha de coca falsa

Parece que há quem não veja problemas em usar o nome de um assassino narcoterrorista como piada para promover o seu negócio.

Por Jelisa Castrodale
10 Abril 2019, 10:29am

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Munchies.

Em Abril do ano passado, um restaurante de Queenstown, Nova Zelândia, discretamente acrescentou um novo hambúrguer ao seu cardápio, recheado com uma combinação inevitavelmente marada de chili, tortilhas, guacamole, queijo e salsa. “Apresentamos o Pablo Escoburger”, escreveu o The World Bar no Facebook. E acrescentou: “Só pode haver um rei”.

Meses depois, o Ze Pickle, da Austrália apresentou seu próprio Pablo Escoburger, que também envolvia guacamole, tortilhas de milho, queijo e pimentos. Nenhum deles parece ter gerado uma histeria mundial; o The World Bar já não serve o seu Escoburger e o Ze Pickle rebaptizou o seu como simplesmente “The Pablo”.


Vê: "O legado de violência que Escobar deixou aos actuais cartéis criminosos (Parte 1)"


No entanto, logo depois da inauguração, um novo restaurante pop-up em Melbourne, Austrália, chamado Pablo's Escoburgers, começou a vender o The Patron, um cheeseburguer duplo servido com uma linha de pó branco em cima (é farinha de alho, calma) e uma nota de 100 dólares enrolada (é falsa, calma). E, ao contrário dos Escoburgers anteriores, parece que este chamou a atenção de toda a gente.

Colocar o nome de Escobar em várias gramas de carne moída parece ser algo que apenas vai complicar desnecessariamente o menu do teu restaurante. É que para cada fã de Narcos que apenas gostaria de ter um estilo de vida multimilionário, parece que há alguém que não vê problemas em usar o nome de um assassino narcoterrorista como piada para promover o seu negócio (mas, também acontece que estamos em 2019, um ano em que a Netflix teve que lembrar às pessoas que não chegassem ao fim de Conversas Com um Assassino: as Gravações de Ted Bundy e concluíssem apenas que Bundy era um tipo bem parecido).

Na página do Facebook do Pablo's Escoburgers, as respostas são surpreendentemente mistas. Há alguém que escreveu “#changethename” em todos os posts e outra pessoa que respondeu com um GIF do “Butthurt-O-Meter”. Alguns australianos marcaram-se, sugerindo ir comer o hambúrguer imediatamente e uma mulher colombiana escreveu que a mãe dela quase morreu num atentado com um carro-bomba, num acto ligado a Escobar.

Gabriel García Márquez tentou reconciliar as percepções de Escobar no seu livro Notícias de um Sequestro – que detalha vários sequestros famosos cometidos pelo Cartel de Medellín de Escobar. “No auge do seu esplendor, as pessoas faziam altares com a foto dele e acendiam velas nas favelas de Medellín. Acreditava-se que ele podia realizar milagres”, escreveu Gabo sobre Escobar. E acrescentou: “Nenhum colombiano na história possuiu ou exerceu um talento como o dele para moldar a opinião pública. E nenhum tinha um poder maior de corromper. O aspecto mais perturbador e poderoso da sua personalidade era a sua total incapacidade de distinguir entre o bem e o mal”.

Corrupção e mal podem ou não ser adjectivos que irias querer associar ao teu cheeseburguer, mas Vaughan Marks, dono do Pablo's Escoburgers, não vai recuar. “Temos muito orgulho nos nossos hambúrgueres, mas também entendemos que Pablo Escobar foi um homem horrível que destruiu a vida de milhares de colombianos”, publicou no Facebook. E acrescentou: “Não toleramos, idolatramos ou promovemos Pablo Emilio Escobar ou nenhuma das suas acções. Mas, somos australianos e sabemos rir de um bom jogo de palavras”.

Na sua página pessoal no Facebook, Marks sugeriu que quem quiser continuar a fingir que está a cheirar uma linha de farinha de alho deveria responder dando uma boa avaliação online ao restaurante. “Estamos a receber muito ódio da comunidade colombiana, Deus os abençoe”, publicou. E realçou: “Se puderes tirar dois minutos para deixar uma boa avaliação e reverter a nossa nota de 2 estrelas seria óptimo! […] Dá para ver a diferença entre quem experimentou os nossos deliciosos hambúrgueres e os colombianos que só não gostaram do nome”.

Colocando o hambúrguer Patron de lado, a parte mais estranha desta polémica é o restaurante estar disposto a reconhecer que Escobar “destruiu a vida de milhares de colombianos” e, ao mesmo tempo, recusar-se a ter em conta os sentimentos de colombianos – incluindo, talvez, aqueles que tiveram a vida afectada por Escobar. A VICE pediu comentários a Marks, mas não recebeu resposta até ao momento desta publicação.

Ou talvez nem seja assim tão complicado. “Só mais um exemplo de um hipster a tentar chamar a atenção, porque a sua comida é tudo menos memorável”, escreveu alguém num comentário. Sim, talvez seja só mesmo isso. E, pelo menos, estes não meteram tortilhas no hamburguer. Aí seria indesculpável.


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