Relato

Coisas que aprendi sobre cerveja artesanal com gente que sabe mesmo de cerveja artesanal

Estive na Bélgica (onde mais?) num fórum europeu do sector cervejeiro e descobri que Michael Jackson é um herói das fresquinhas artesanais.
2.7.18
Foto por Daniela de Lorenzo.

Numa consulta rápida aos meus amigos, foi-me traçado um perfil negro sobre Bruxelas, uma cidade onde supostamente não se passa nada. Quer dizer, nada para além de ser o sítio perfeito para, finalmente, poder experimentar iguarias locais que não existem cá, como a batata frita (que finalmente consegui provar) ou para ir ver uma estátua de um garoto a mudar a águas às azeitonas em público.

Nunca tinha ido à Bélgica e, na verdade, não podia ter tido melhor primeira vez que a visita ao Brewers of Europe Forum, um encontro internacional de pessoas que, carinhosamente, tratam de fazer aquilo que todos vocês, curiosos leitores deste artigo, me deviam pagar: cerveja.

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O negócio da cerveja artesanal é, hoje, uma certeza no nosso País, onde até as grandes produtoras já estão a capitalizar nessa tendência. Antigamente, é bom recordar que, era algo praticamente restrito e ligado àquele tipo de pessoas que muitos (ainda) chamam de hipsters - não só porque usam óculos de massa ou ouvem bandas muito desconhecidas como os Arcade Fire, mas porque, lá está, bebem cerveja que é cozinhada algures por uns tipos, num processo que nos traz à memória aquela senhora da terra da avó, que faz ou fazia os seus próprios queijos.

Portanto, o Fórum, pareceu-me um excelente ponto de partida para abraçar a cultura da capital belga, para lá de um específico tipo de couve. E, não, felizmente não vi nenhuma dessas couves. Muito menos meti uma à boca por engano. Porra, nem tive tempo de meter os pés num supermercado. Nem sequer me lembrei de levar a porcaria de uns auscultadores para a viagem. Fui no avião, sempre a olhar para o vazio, no meio de dois desconhecidos e a pensar em coisas tão aleatórias como::

  • Como seria se este avião caísse?
  • Será que algum dia me cruzei na vida com esta mulher que vai descalça, ou com este homem que vai a ler um livro sobre carros?
  • Conseguiria eu mudar-me para o campo e ser agricultor?
  • Se agora me descuidasse e sujasse as cuecas sem querer, como iria conseguir resolver a situação?
  • Porque é que as pessoas deixaram de bater palmas nas aterragens?
  • Quanto tempo faltará até eu morrer?
  • Será que o Mundo mudou desde que este avião levantou voo?

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Em retrospectiva, o Mundo não mudou. O avião não caiu, continuo a ter de pagar a porcaria das minhas contas e não sujei as cuecas. Estejam descansados.

Foi a primeira vez em adulto que pisei chão num país em que não falo a língua. E parece que a malta do Aeroporto de Bruxelas passou por isso antes de mim e resolveram meter toda a publicidade em inglês. Ainda bem, diga-se. Não sei como iria sobreviver se me tentassem vender coisas numa língua que não percebo.

A recepção dos participantes no Fórum, que decorreu nos dias 3 e 4 de Junho, foi feita num edifício deslumbrante no centro da cidade, a Câmara Municipal, onde a comitiva portuguesa, liderada pelos Cervejeiros de Portugal, iria preparar-se para o grande evento da melhor maneira: um bar aberto. Só que não. Se fosse em Portugal e a festa fosse bar aberto, durava até acabarem todas as bebidas, mais ninguém estar na festa ou alguém chamar a polícia. No entanto, companheiros lusitanos que já lá estavam avisaram-nos que a festa estava a morrer. Eu também percebo, são cervejeiros. Deve acontecer o mesmo com os seguranças de casas de striptease, que estão sempre a ver mulheres despidas.

Só para provar que estive mesmo lá. Foto pelo autor

Portanto, em vez disso, comemos moules (mexilhões, em estrangeiro) e fomos ao Delirium Tremens, que é o bar que detém o recorde do Mundo da maior variedade de cervejas. O catálogo é tão grande que na capa pede para ninguém o roubar, porque há à venda. Duas considerações práticas: primeiro, não me parece que terem a coisa para venda seja a razão para não a roubar. Segundo, um sítio que tem como password “BEWAREOFPICKPOCKETS” (em português é CUIDADOCOMOSCARTEIRISTAS) está à espera de quê?

No dia seguinte, o galo cantou cedo… sobretudo, porque na Bélgica é uma hora a mais. Para uma pessoa que, como eu, não costuma acordar mal o sol raia, é ainda mais inédito. Fui tão madrugador que, em Portugal, muitos dos meus amigos ainda nem tinham ido tomar o pequeno-almoço depois de saírem à noite. Fomos para o SQUARE, no Mont-des-Arts, coração de Bruxelas. Se para os belgas aquilo é um monte, deviam experimentar visitar as subidas de algumas cidades portuguesas. Para nós aquilo é a direito. Ah, e claro, o edifício é todo quadradão… como o nome indica imediatamente a quem sabe inglês básico.

Quando entrámos já tinha sido a presumível seca da apresentação de "abertura dos trabalhos" e estava a falar o fundador e criador da cerveja Mikkeler, um bacano todo tatuado e de calções, chamado Mikkel Borg Bjergsø. Dá logo uma imagem do momento da cerveja artesanal, um sector em crescente profissionalização, mas com uma constante preocupação em manter a autenticidade que o distingue. No caso do Mikkel - vou tratá-lo assim tu-cá-tu-lá que ele de certeza que não vai ler isto -, tem uma das maiores marcas europeias de cerveja artesanal e é um inovador da coisa. É ainda, promotor de várias iniciativas, como por exemplo - riam-se - a maior (ou uma das maiores, não fixei bem, desculpem) corrida do mundo a beber copos. Eu percebo, também só corro se for para beber uma cerveja.

Na sua palestra, Mikkel - não conheço o gajo, mas vou continuar a tratá-lo por tu -, deu o mote para aquela que é uma das ideias-chave do momento nesta indústria: “A cerveja perfeita é a cerveja sem álcool”. Não torçam o nariz, como eu fiz logo. Nós é que estamos habituados a cerveja sem álcool que é uma bosta. Se soubesse mesmo bem, provavelmente podíamos beber como se fosse um refresco. A questão é: bebemos para ficar todos bêbados, ou porque sabe bem? Dá que pensar. A verdade é que, mais tarde, bebi uma cerveja sem álcool de um dos patrocinadores e aquilo sabia igual. Continuei a beber das outras. Não sei se isto prova alguma coisa.

A vida não é só beber copos. Foto por Daniela de Lorenzo

O orador que falou depois foi Steve Hindy, da Brooklyn Breweries e, no decorrer de uma abordagem à história do sector, disse uma frase bastante definidora: “Ninguém vai querer saber de ti se fores pequeno”. Enfim, é certamente uma frase importante para esta coisa dos negócios, mas, para mim, se querem saber, a parte mais memorável da sua intervenção foi uma enorme descoberta. A dada altura, o gajo brindou ao trabalho importantíssimo que Michael Jackson desenvolveu pela cerveja artesanal. Sim, ouviram bem. É mesmo inacreditável. Eu nem imagino o Michael Jackson a beber uma cerveja…. Um chocolate quente talvez… Ou um tango, no máximo. Nem sequer uma água com gás como fazem os belgas, porque tem borbulhas.

Quem diria que o homem-garoto teria feito tanto pela cerveja, ao ponto de merecer um brinde de um homem-crescido tão importante. Quando acabou a conferência falei sobre o assunto com várias pessoas e estava tudo maravilhado. Claro que eu, como ainda sou mais-ou-menos um jornalista - um burro, autenticamente -, aproveitei que o roaming está ao preço da chuva para procurar coisas sobre tal facto extraordinário. Claro que não era o mesmo Michael Jackson! Este foi um homem-velho de barba, que já morreu e escreveu o “World Guide to Beer”. Antigamente, o Mundo não era ao calhas, só agora é que é assim.

Ainda houve tempo para mais um painel, numa altura em que mais de metade da sala (as contas são da minha inteira responsabilidade) já só pensava na grande questão que fluía no ar: a que horas é que é razoável começar a beber cerveja? Começou-se às 10 e meia, hora de Portugal. Não fiquem a achar que eram todos uns bêbados, pensem antes nos outros, aqueles oriundos de países com fusos horários exóticos, que tiveram de estar a aguentar até à hora do lanche para não parecer mal. Eu até vi por lá japoneses. Um povo que é conhecido por duas coisas: a boa educação e o elevado consumo de bebidas alcóolicas. Por fora pareciam conformados, mas aposto que por dentro até tremiam, nem que fosse só com as contas que tiveram de fazer para perceber como podiam fazer boa figura.

Só para verem que o trabalho nem sempre é o mar de rosas que vocês pensam que é. Foto por Daniela de Lorenzo

Voltando àquilo do painel. Há cervejeiras em crescimento e a ganharem uma grande dimensão, outras com essa meta no horizonte e outras ainda que, pronto, são umas sonhadoras e que, no fundo, sabem que é algo que nunca vai acontecer, mas continuam a querer acreditar que sim. Ao fim e ao cabo, toda a gente ali estava a tentar perceber como lidar com o futuro e como podem manter a genuinidade das respectivas marcas, ao mesmo tempo que dão o salto da viabilidade. A melhor analogia para isto seria: ficaste rico, mas queres mostrar aos amigos que ainda és a mesma coisa. Só que, provavelmente, nem ficaste rico - pelo menos ainda - e essas pessoas também não são tuas amigas, apenas acham que a tua cerveja é fixe. Nisto, embrenhado nestas reflexões profundas, pensei para com os meus botões: “Porra, são 11h30. Mas, eu bato bem. Que se foda, vou mas é beber uma cerveja”.

Havia muitas marcas para provar, desde a Duvel (que há cá nos supermercados), à Camden Town, que há para aí muito burro que acha que ainda é uma zona cool londrina. E, só para verem como me controlei, só bebi umas três ou quatro. Mas comi, caraças! Não foi de estômago vazio à campeão. Tinham lá umas sandes tradicionais, mas não me lembro do nome… pode ter sido da cerveja.

A parte da tarde foi mais diversificada no que respeita a apresentações: desde a nutrição, até à filtragem ideal para a produção de cerveja, tudo muito interessante (para cervejeiros e nerds da cerveja artesanal). Ainda assim, mais uma vez, aprendi alguma coisa. Aprendi que, muito do trabalho e da paixão destes cervejeiros, começou com a degustação da dita cuja e com aquele pensamento muito semelhante ao de quem cria uma banda: “Eu, se calhar, também conseguia fazer uma coisa que a malta bebesse”.

A narrativa de muitas destas palestras a que assisti - para além de apresentarem dados relativos ao crescimento óbvio do mercado e da produção de cerveja artesanal, traçaram uma perspectiva que parece essencial para o que este tipo de bebida tem de dizer quando se vê ao espelho: “Tu és especial, pá. Não é só o vinho. Tu também. Tu és capaz. Tens de conseguir que te vejam de forma tão mais profunda. Tu também tens sentimentos”. E, apesar de já estar em todo o tipo de restaurantes, bares e supermercados e de, aparentemente, chegar a todo o lado, faltam empregados de mesa que conheçam a cerveja como conhecem o vinho. Faz falta tradição (e não só em Portugal, não pensem), para que o vendedor seja capaz de reconhecer e conhecer o que nos sugere à mesa ou ao balcão. Não só daquele vinho muito bom, também daquela cerveja maravilhosa. E, sobretudo, que há mais que um tipo de cerveja.

Depois, acabou-se. E cedo. Foram várias horas, a saltar de cadeira em cadeira, de sala em sala, na esperança de vislumbrar o futuro da cerveja. Muitas vezes sem perceber nada do que se estava a falar… do lúpulo e não sei mais o quê. Mas, percebi que o futuro está próximo. Deve estar, não é?

Numa investigação no terreno, levada a cabo por mim - na verdade estava só a beber e ouvir - e por Daniela de Lorenzo, uma colega da VICE belga (e autora das fotos que ilustram este artigo) com quem me cruzei no Brewers of Europe Forum, em conversa com pessoas ao calhas que andavam lá a tentar fazer contactos ou a fingir que faziam contactos para, basicamente, aviarem jola avulsa, percebemos que o futuro está em três pontos: reconhecimento, cerveja sem álcool do caraças e um misto de trabalho e sorte.

A aventura haveria de terminar no A La Morte Subite, com o que restava da comitiva portuguesa. Celebrava-se um aniversário e facto de o universo ter juntado aquele grupo de pessoas ao calhas - na verdade foram os Cervejeiros de Portugal que nos juntaram, mas enfim. O que interessa é que bebi uma Lambic, um tipo de cerveja que acabou por servir de metáfora perfeita para toda esta saga no mundo dos cervejeiros. Explicou-me Nicolas, da Cerveja Vadia - e vou tentar replicar da melhor maneira possível - que, ao contrário das outras cervejas, esta é uma cerveja contaminada, porque a sua fermentação é aberta, ao contrário das outras que é feita em barril fechado. O ar traz bactérias e outras coisas que parecem impensáveis, mas que formam esta cerveja incrível. É assim que o mundo dos cervejeiros está: aberto a novas ideias, que o contagiem e que desenvolvam algo novo e refrescante.

Todos procuramos isso na nossa vida não é? Eu falo por mim, que vim na viagem de regresso a tentar encaixar na minha vida esta metáfora fermentada no A La Morte Subite, num voo de reflexão onde tentava chegar à minha Lambic, enquanto via o Happy Film e procurava paralelismos entre a busca da felicidade do designer austríaco Stefan Sagmeister e a minha existência. O avião não caiu. Não me voltei a cruzar com aquelas duas pessoas, pelo menos que eu saiba. Ainda não sou agricultor, nem faço intenção de ser. Até ver, tenho conseguido não me descuidar. O avião aterrou e as pessoas não bateram palmas. Ainda não faço ideia quando vou morrer, obrigado por isso. Mas, quando o avião chegou a Lisboa e liguei os dados o Mundo tinha mudado. Tomei conhecimento da morte súbita do nosso querido Antony Bourdain.


A VICE Portugal viajou a convite dos Cervejeiros de Portugal.

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