Saúde

O quão nojento é não poder limpar a bunda depois de cagar

Vai dizer que você nunca se perguntou isso quando acabou o papel higiênico?
Image Source/Getty Images

E então você está naquele festival típico de verão da sua cidade. O sol brilha e uma banda de reggae toca aquele som suave pra multidão enquanto você sai pra comprar mais uma rodada de cerveja em copos de plástico para os seus amigos. Nada poderia estragar esse momento maravilhoso… Mas seu intestino começa a rugir intensamente.

Parece que a combinação de cerveja, hot dog e uns salgadinhos suspeitos que você comprou na barraca de comida quer sair. Você fica quatro minutos esperando na fila dos banheiros químicos e, quando consegue entrar em um deles, fecha a porta, senta e caga. Você desfruta de um brevíssimo momento de alívio até se dar conta, horrorizado, de que não tem papel higiênico. Puta merda! É real.

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Não te resta outra saída a não ser vestir as calças de novo e voltar aos seus amigos, com a vergonha de saber que não completou um dos passos básicos do protocolo que te ensinaram quando tinha quatro anos.

Que mal faz não se limpar?

Um grama de fezes pode conter uns 10 milhões de vírus, um milhão de bactérias distintas, mil bolsas membranosas de parasitas e cem ovos de vermes, segundo o Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas. E agora você vai andando por aí, com todas essas possíveis ameaças grudadas na bunda e separadas do resto do mundo por apenas uma fina camada de fibra sintética e outra de algodão.

“Em questão de higiene, é absolutamente inaceitável não se limpar", diz Aaron Glatt, professor de Medicina do South Nassau Communities Hospital e porta-voz da Sociedade Estadunidense de Doenças Infecciosas. “Procure algo para se limpar”, implora. “Usa água ou folhas de plantas, o que seja”.

O risco é maior para as mulheres. Nesse caso, o ânus sujo fica perigosamente perto da vagina, o que pode fazer com que as bactérias entrem pela uretra e causem uma infecção

A situação pode piorar dependendo do tipo da sujeira, adiciona Philip M. Tierno, professor de Microbiologia e Patologia da Faculdade de Medicina de NYU. “Se forem soltas, as partículas podem se dispersar ainda mais”, diz Tierno. E assim as fezes líquidas ficariam impregnadas na roupa e ultrapassariam a barreira das calças e da roupa íntima com muito mais facilidade.

O risco é maior para as mulheres. Nesse caso, o ânus sujo fica perigosamente perto da vagina, o que pode fazer com que as bactérias entrem pela uretra e causem uma infecção no trato urinário.

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Essa é uma das razões pelas quais Tierno recomenda que, quando existe a possibilidade de termos que usar um banheiro em condições precárias, levemos pelo menos um pacote de lenços de papel e um desinfetante à base de álcool. Temos que estar prevenidos se vamos a um festival, ou a lugar no meio da natureza ou fazer uma parada em uma estrada no meio do nada.

O que contém nas fezes?

As fezes são dejetos expelidos pelo corpo porque todas as enfermidades infecciosas e as bactérias que estejam habitando nosso organismo se “empacotam” nas fezes antes de serem expulsas. Bacterias como E. coli, ou Escherichia, os parasitas que causam diarreia, e outros germes cujos efeitos podem ser desde incômodos a mortais se propagam por meio dos excrementos. O norovírus, que em países como os EUA é uma das principais causas de enfermidades causadas pela ingestão de alimentos estragados, também se aloja em nosso intestino.

Talvez sirva de consolo saber que você pode se considerar sortudo se em um futuro próximo tiver acesso a um buraco para se agachar e um chuveiro.

“Quatro em cada dez pessoas do mundo não tem acesso a uma latrina, um banheiro, um balde ou uma caixa . Nada”

Em seu livro de 2008, The Big Necessity: The Unmentionable World of Human Waste and Why It Matters, a jornalista Rose George menciona dados estatísticos da ONU que dizem que 2,6 milhões de pessoas do mundo não têm acesso a um sistema de saneamento. “E não estou dizendo que eles não têm um lavabo em casa e tem que usar um público ou separado da casa ou sequer uma cabaninha precária com um deságue primitivo”, aponta.

O que George quer dizer é que “quatro em cada dez pessoas não tem acesso a uma latrina, um banheiro, um balde ou uma caixa. Nada. Em vez disso, são obrigados a defecar em trilhos de trem ou em algum bosque ou em sacos plásticos que depois são descartados em algum beco”.

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Os problemas de saúde pública derivados da falta de um sistema de saneamento básico e da eliminação incorreta de resíduos podem ser verdadeiramente alarmantes. A falta de higiene e a contaminação da água por muitas vezes são as causadoras de uma em cada dez enfermidades do mundo, segundo investigadores da OMS.

Apesar de essa sujeira apresentar riscos muito graves, nossos sistemas imunológicos travam batalhas constantes contra uma enorme quantidade de germes de níveis menores disseminados por partículas fecais e, no geral, saem vitoriosos.

Sendo assim, ainda que seja bom se preocupar quando não tem papel higiênico para se limpar, felizmente e graças à forma que nosso corpo combate os germes fecais, isso acaba sendo mais um incômodo do que um verdadeiro fator de risco, segundo Tierno.

O quão disseminadas estão as partículas fecais?

“Como sociedade, nadamos em fezes”, diz Tierno. “A pessoas não lavam bem as mãos, inclusive quando têm acesso a um lavabo, e assim acabam disseminando as partículas fecias pelo resto do corpo.”

Uma simples pesquisa no Google revela que é bastante frequente encontrar restos fecais em objetos como tapetes de yoga, xícaras de café ou garfos de cozinha. Como foi dito uma vez em um velho livro, todo mundo defeca, criando um certo grau de desconforto bacteriano que sociedades e indivíduos são capazes de combater com maior ou menor êxito.

Isso significa que andar por aí sem ter limpado a bunda está a apenas um nível de desconforto acima de ter que aguentar a carga fecal que se esconde em suas mãos e nas superfícies que encosta diariamente.

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Uma pequena porção de fezes presa ao corpo simplesmente intensifica essa luta, mas as garantias de sucesso estão presentes de qualquer maneira

“Obviamente, vai causar uma irritação a essa pessoa”, aponta Tierno. Sem muitos problemas, se trata de um desconforto “leve” em termos de saúde pública. No mundo desenvolvido, nosso corpo está constantemente combatendo germes e microoganismos com sucesso. Uma pequena porção de fezes presa ao corpo simplesmente intensifica essa luta, mas as garantias de sucesso estão presentes de qualquer maneira.

Por outro lado, as probabilidades de contrair E. coli ou o norovírus por contato com material fecal em um evento público são inclusive menores, pois “as pessoas doentes ficam em casa”, diz Tierno.

Portanto, ainda que não seja precisamente bom passar algumas horas com as partes baixas sujas, o mais seguro é que não passe tempo algum. Quando tiver a oportunidade, limpe bem e pronto.

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