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As miúdas que invadiram a cena punk de LA dos anos 70

As Backstage Pass ensinaram-nos que a coisa mais punk de ser mulher é nunca procurar aprovação dos homens.

Por Miss Rosen
29 Maio 2018, 9:47am

(Da esq. para a dir.) Spock, Marina, Holly e Genny, as Backstage Pass em 1977. Todas as fotos: © Jenny Lens, Punk Pioneer.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Numa noite em 1975, Marina Muhlfriedel foi ao Whisky a Go Go, na Sunset Strip de Los Angeles, nos EUA, para ver um concerto das Runaways, uma banda de raparigas liderada por Joan Jett. Mas, a sua excitação passou rapidamente, quando percebeu que o conhecido empresário Kim Fowley estava a fazer com que a banda se encaixasse num estereótipo de miúdas sensuais.

Depois daquele concerto, Muhlfriedel reuniu as suas amigas no Rainbow Bar & Grill e decidiram fazer melhor. Como por destino, Rodney Bingenheimer – DJ e personalidade da rádio, famoso por descobrir os Blondie e os Ramones – passou pela mesa onde elas estavam. “Ei, Rodney”, gritou Muhlfriedel, “acabei de começar uma nova banda de raparigas!”. Ele perguntou o nome e ela disparou a primeira coisa que lhe veio à cabeça: Backstage Pass.

A banda começou a gerar hype mesmo antes de sequer ensaiar. Em 1976 já estavam a seguir o seu caminho, e tornaram-se uma das primeiras bandas da cena punk de LA e a primeira banda punk da cidade formada por mulheres (com excepção do baterista, as quatro principais membros da banda eram mulheres).

(À esq.) Genny e Marina na Screamers Party, em Hollywood Hills, com Billy Zoom (da banda punk X) e Top Jimmy, 1977. (À dir.) Holly Vincent no camarim do Mabuhay Gardens, em São Francisco, num concerto das Backstage Pass com os Mumps, Junho de 1977.

No seu auge, as Backstage Pass fizeram digressões pela Califórnia, com bandas como Devo, Elvis Costello, The Screamers, The Weirdos e The Nuns. Também ajudaram a construir o The Masque, um lendário clube punk de Hollywood, antes de acabarem em 1979.

Recentemente, a VICE falou com duas das principais membros da banda, Muhlfriedel (Marina del Rey) e Genny Schorr (Genny Body), sobre como foi serem pioneiras punk numa cena dominada por homens.

(À esq.) Tommy Gear (The Screamers) e Genny, na Bomp Records (The Damned Instore), 16 de Abril de 1977. (À dir.) Joey Ramone, Genny e Arturo Vega no Whisky, Fevereiro de 1977.

VICE: Como é que as Backstage Pass começaram?

Marina Muhlfriedel: Mudei de Londres para LA alguns anos antes de a cena punk começar. No final de 1975, Kim Fowley convidou-me para ver a sua nova banda, as Runaways. Fui ao Whiskey para ver o concerto e fiquei chocada com essa merda da “Cherry Bomb” a rolar – a forma como os homens querem que as mulheres se comportem. Não acreditei nelas como mulheres. Não achei que aquele era o instinto criativo delas e achei o controlo de Kim sobre a banda questionável. Fui para o Rainbow logo a seguir, sentei-me com as minhas amigas e decidimos ali mesmo: “Vamos começar uma banda!”.

Genny Schorr: Cresci em San Fernando Valley. Comecei a tocar guitarra no liceu e não havia muitas guitarristas mulheres naquela época. A minha mãe morreu de cancro de mama em 1975 e, um ano depois, fugi para Hollywood com alguns amigos. Conheci a Marina num concerto dos Dr. Feelgood. Ela tornou-se a minha colega de apartamento e a banda era tipo a minha nova família.

Muhlfriedel: Jake Riviera foi super importante na banda. Ele e o Brian James dos The Damned mudaram-se para o nosso apartamento depois de serem expulsos da digressão dos Television, na Primavera de 77. Ele puxou-nos as orelhas para levarmos a sério o que estávamos a fazer. Meteu um single nosso na Stiff Records e a coisa descolou a partir daí.

(À esq.) Backstage Pass no The Masque, 1977, fotos por Donna Santisi. (À dir.) Backstage Pass no Starwood, em West Hollywood, 1977.

Como foi esse início?

Muhlfriedel: Um gajo chamado Con Merten, que trabalhava no Cherokee Studios, disse que podíamos utilizar a sala de gravação pequena do segundo andar, de borla. A parte estranha é que, no primeiro andar, Alice Cooper e David Bowie estavam a gravar. O nosso espaço de ensaio tinha um espelho falso, portanto eles devem ter-nos visto a tentarmos entender os nossos instrumentos e a escrever músicas. Naquela época, nenhuma de nós tinha estado em qualquer banda a sério e o pessoal de outras bandas aparecia nos nossos ensaios para ajudar, ouvir e sugerir coisas. Era muito alucinante, como uma experiência de laboratório. Depois do ensaio, saíamos para perseguir rock stars – essa era uma grande parte da nossa vida.

Schorr: Era o fim da grande era do rock n' roll e glam, com Pete Townsend, Led Zeppelin e the Kinks. Tirei uma foto com Tom Petty e disse a toda a gente que ia viajar na digressão com eles [risos]. Eu era a mais palhaça, porque era a mais nova. As meninas estavam sempre a revirar-me os olhos. A primeira coisa punk que vi foi Jake Riviera - que se tornou o tour manager dos Dr. Feelgood - a pontapear o seu carro alugado. Nunca tinha visto nada assim. Havia muita reacção negativa à cena do rock “dinossauro”.

Muhlfriedel: Era uma merda burguesa. O punk era muito mais orgânico. Descobrias tudo sozinho. Ias a sítios de coisas em segunda mão, levavas as coisas para casa, rasgavas, pintavas tudo e saías. Havia muita coisa a acontecer no Mundo e as pessoas estavam chateadas. A cena rock n' roll era ilusória e o punk atirou-lhes isso à cara.

Como é que se formou a cena no The Masque?

Muhlfriedel: Encontrámos o Masque porque precisávamos de um sítio para ensaiar. Uma rapariga que eu conhecia disse-me que um gajo estava a alugar um espaço. Fui até lá, um cinema porno em Hollywood, e encontrei este tipo escocês chamado Brendan Mullen. Ele queria estar no epicentro de uma cena artística. Acho que queria criar uma coisa mais como a Factory do Andy Warhol do que propriamente aquilo em em que se viria a tornar efectivamente.

Expliquei-lhe que precisávamos de um espaço de ensaio e enquanto ele falava e reclamava, Chas Gray, Holly Beth Vincent e eu fomos em frente e construímos uma sala com uma porta e fechadura para começarmos a ensaiar. Assinámos o contrato de arrendamento e dávamos-lhe 150 dólares para por mês. Backstage Pass, the Skulls e the Controllers mudaram-se para lá, depois vieram outras bandas. O primeiro espectáculo começou depois de alguém ter invadido a nossa sala de ensaio, ter agarrado no nosso sistema de som e montado tudo num canto do palco.

Che’ Zuro e Genny Schorr, Observatório Griffith Park, UFO Obsession Show, Julho de 1978.

Como era a cena punk de LA quando tudo começou?

Muhlfriedel: A grapaziada vinha de Valley, South Bay e East Side. Era uma convergência de miúdos que queriam fazer parte de algo novo. Descendo as escadas, o sítio era como um clube secreto. Depois a coisa alastrou-se para alguns apartamentos próximo e tornou-se uma cena.

Schorr: A cena era cheia de personagens: Fay “Farah Fuckit Minor” Hart a vestir uma saia de plástico transparente com uma arma de brincar, Belinda Carlisle, Pleasant Gehman, Trudie Barrett, Helena “Hellin Killer” Roessler – gente que precisava de um escape e de um lugar para se encaixar. Andávamos todas juntas e assumimos o controlo.

Muhlfriedel: A cena punk de LA era um produto de Hollywood: tinha algo de cinematográfico e glamouroso. Havia uma sensação incrível de auto-celebração. Usávamos qualquer roupa bizarra que quiséssemos e íamos para a noite. Adorávamos chocar uns com os outros.

Schorr: Sim! Uma vez gritei “Odeio a tua maldita banda!” a Clive Langer dos Deaf School do outro lado da rua. Depois disse-lhe “Queres ser meu amigo?” [Risos]. As pessoas enfrentavam-se. Havia muita criatividade. Fazíamos tudo nós próprios: as roupas, os flyers e os concertos. Era algo muito imediato – as pessoas desenvolviam-se no acto. Sempre quis que fosse um ambiente positivo, porque tinha vindo de um ambiente familiar muito tenso.

Genny e Brian James na Bomp Records.

Enquanto banda de mulheres, vocês tinham uma missão?

Schorr: Eu não gostava que me dissessem o que fazer. A minha postura era “Vou tocar guitarra”, mesmo que a maioria dos guitarristas fossem homens. Aquilo atraía-me e fazia com que me sentisse empoderada.

Muhlfriedel: Eu inspirava-me em artistas e escritoras como Judy Chicago, Yoko Ono, Anais Nin e Marina Abramovic. Sentia que elas eram punk da sua própria maneira. Era importante para mim ser uma mulher que se expressava sem medo. Havia uma consciência de abrir as portas para outras mulheres. Uma pessoa vive através de exemplos. Se tens a coragem de ser uma mulher que faz algo que as pessoas normalmente te dizem para não fazer, permites que outras pessoas também o façam e dêem o próximo passo. Saber que eu tinha colhões para começar uma banda sem saber o que estava realmente a fazer, fez-me sentir poderosa. Era algo premeditado na época e é premeditado agora.

Marina e Chas Gray, dos Wall of Voodoo, camarim do Whisky a Go Go.

Como era desconsiderar o olhar masculino na criação artística?

Muhlfriedel: Quando te comprometes a não te restringires às regras masculinas, deixas de ter de lutar. Podes ser sexy, podes ser vadia, não tens que te preocupar com ninguém a julgar o teu comportamento. Lembro-me de uma vez em que a Genny saltou do palco no Mabuhay e começou à porrada.

Tens que te impor, não importa como, depois tens de te levantar e fazer o que queres. Geralmente enfrentas muito menos resistência do que se pedires permissão. Talvez essa seja a coisa mais punk de ser mulher: não peças permissão, não busques aprovação dos homens, faz as coisas por ti. Tem a coragem de continuar e não deixes que ninguém te limite.


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