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saúde mental

Tentar ser um atleta perfeito não vale a pena o esforço

O perfeccionismo está associado a diversos problemas psicológicos, como ansiedade e depressão.

Por Christine Ro
06 Agosto 2018, 1:50pm

Asanka Brendan Ratnayake/Getty Images

Este artigo foi originalmente publicado na nossa plataforma Tonic.

Para quem tem como objectivo chegar sempre mais alto, o perfeccionismo soa como uma coisa boa. Mas, essa característica de personalidade, que combina o esforço em ser perfeito com uma dura auto-crítica é, na verdade, associado a uma série de problemas psicológicos, incluindo ansiedade e depressão e é ainda considerado um factor de risco para o suicídio.

Os possíveis danos são físicos e também emocionais, tendo em conta que, particularmente entre atletas, a busca sem fim pela perfeição pode ser associada a treinos excessivos, lesões e prejuízos para a recuperação. Ironicamente, tudo isto pode fazer com que estes atletas se tornem menos competitivos, já que o perfeccionismo faz com que deixem de aprender com os seus erros, visto que perdem tempo a culparem-se pelos mesmos. Uma situação ligada a emoções negativas na preparação de competições, que distraem e afectam negativamente o desempenho.

Sari Fine Sheppfird, psicóloga especializada em desporto e desempenho, sediada em Los Angeles, Estados Unidos, vê nos seus clientes tudo o que foi mencionado até agora. Muitas vezes pede a estas pessoas com tendências perfeccionistas que relatem os seus altos e baixos, o que a levou a descobrir que, na maioria dos casos em que os seus pacientes falam de pontos baixos, eles já estavam em modo de stress antes mesmo de começarem a competir. Já nos seus pontos mais altos, estariam “mais focados, a pensar menos nas consequências do seu desempenho, julgando-se menos e praticando a auto-crítica de forma construtiva”.


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Problemas relacionados com o perfeccionismo são ainda mais preocupantes em atletas jovens, num estado essencial de desenvolvimento e mais propensos a sofrerem de esgotamento; a obsessão pela perfeição acaba por tornar estes casos muito mais comuns. Stella Metsovas é a prova viva disso: aos nove anos de idade começou a nadar e destacou-se rapidamente na modalidade, adorando todo o carinho que recebeu dos treinadores e dos seus pais quando ganhou uma competição. Mas, o outro lado da moeda era real e existia em forma das críticas pesadas que fazia a si própria quando perdia.

“Ter esses níveis tão altos de cobrança em relação ao meu nível atlético, à minha capacidade natural como nadadora, simplesmente não jogava bem com a minha parte emocional, ainda para mais tão jovem”, explica. Enquanto atleta de elite, Metsovas contou com o apoio de um psicólogo desportivo que percebeu a sua tendência para o perfeccionismo e tentou trabalhar a sua força emocional, o que, na prática, não foi nada fácil. As coisas chegaram a um ponto em que a atleta não conseguia ver-se ao espelho, porque se sentia "um fracasso completo”, mesmo quando esse fracasso significava perder uma prova por questão de milésimos.

Metsovas fez, então, o que muitos atletas jovens na mesma situação fazem: desistem. “O motivo de largar tudo não teve nada a ver com o meu desempenho físico”, afirma. E acrescenta: “Foi mental. Simplesmente, não aguentava mais”.

Isto faz parte de um padrão comportamental observado frequentemente em jovens atletas com fortes tendências perfeccionistas. Andrew Hill é um investigador especializado nesta área, que actua como professor de psicologia desportiva na Universidade York St. John, no Reino Unido. Hill explica que atletas como estes têm grande tendência “a recolherem-se e adoptarem comportamentos em que evitam envolvimento, de forma a protegerem a sua auto-estima. Acabas por adoptar um certo padrão de pensamentos e emoções”.

As emoções, neste caso, são preocupação, ansiedade e contemplação – ou, como dito por Hill, “pensamentos intrusivos que por vezes as pessoas podem ter, como consequência de falharem em algo”. Todavia, Hill destaca que o perfeccionismo não é uma coisa absoluta: “Não existe essa figura do perfeccionista, isso é algo que faz parte de todos nós, em menor ou maior grau".

E é por isso que Hill defende uma abordagem em torno dos desdobramentos dos diferentes tipos e níveis de perfeccionismo. Uma diferença essencial é aquela que existe entre o que se conhece como perfeccionismo descrito socialmente ou o auto-identificado – por outras palavras, a pressão externa ou interna em relação aos objetivos de um indivíduo. Estudos recentes conduzidos por Hill, revelam que o perfeccionismo tem vindo a crescer entre universitários norte-americanos, canadianos e britânicos, especialmente o do tipo social, que tem maior associação a problemas de saúde mental, como ansiedade e depressão.

Porém, pode ser complicado identificar e reparar em qualquer tipo de perfeccionismo nos atletas. “Por vezes, o perfeccionismo pode ser encarado apenas como conscencialização”, explica Hill. E justifica: “Pessoas conscienciosas e perfeccionistas podem ter o mesmo comportamento, mas, para se distinguir entre um e outro, é preciso avaliar como é que as pessoas reagem quando algo não vai bem”. Uma reacção negativa é aquela voz interna inescapável ouvida por Metsovas e tantos outros que já se viram às voltas com o problema.

A boa nova é que, mudar esta mentalidade é mais simples do que parece. Shepphird explica, com base na sua experiência clínica, que o primeiro passo é ajudar os seus clientes a identificarem se o seu perfeccionismo é útil ou contra-producente. Depois, “as pessoas conseguem implementar as mudanças de forma bastante rápida. E, parte, disso depende da sua disposição para fazerem estas mudanças”. Na psicologia do desempenho, o essencial é a prática deliberada – como tentar superar algo rapidamente após um obstáculo inesperado.

Para Metsovas, foram necessárias algumas décadas para chegar onde chegou, com o seguinte pensamento: “Os erros são o que te fazem chegar ao sucesso”. Escritora de gastronomia aos 30, stressada ao escrever mais um livro, um amigo recomendou-lhe tentar terapia equina para lidar com a situação. Ela percebeu rapidamente que o que melhorava a sua técnica de cavalgada era aprender com os seus erros – o que se aplicou à sua carreira e relações pessoais. Os gentis cavalos com que lidava, recorda, “sem querer, ajudavam-me a compreender as vozes na minha cabeça”.

Metsovas ainda nada uma ou duas vezes por semana e também se envolveu na prática de crossfit, mas agora vê os seus objectivos de desempenho e fitness, bem como os da vida em geral, de maneira diferente daquela que via no passado, ainda adolescente e a nadar três horas por dia. “Quando deixei de querer agradar os outros”, conclui, “o lado saudável do meu perfeccionismo começou a despontar”.


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