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Tudo o que precisas de saber antes de abrires um negócio com um amigo

Vai mudar a vossa relação para sempre.
24.10.18
dois jovens rapazes a vender limonada
Imagem via Lia Kantrowitz/Shutterstock

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Quando era mais novo e ingénuo (na Primavera passada), eu e um amigo tivemos uma ideia para um negócio de t-shirts que achávamos que nos ia tornar milionários ou, na pior das hipóteses, que nos permitiria atingir o break even. Passaram-se cerca de sete meses desde que as mandámos fazer e ainda me faltam cerca de 453 euros para lá chegar. O conceito era simples, mas brilhante: no cimo da t-shirt, frases muito sérias - "adoro os meus pais de forma igual", "Vou encontrar o amor". E em baixo, entre parêntesis, a frase "(LOL JK)" [significa "estou a gozar"].

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Julgávamos que era muito engraçado e irónico e, depois de termos mandado fazer cerca de 200 t-shirts brancas, de escolhermos as nossas frases favoritas ("Já esqueci completamente a minha ex-namorada") e criado uma conta no Etsy, não fizemos rigorosamente mais nada. A mercadoria está agora num armazém algures em Queens, guardada dentro de sacos do lixo. Convencemo-nos a nós mesmos de que um dia as vamos vender. Não vamos.


Vê: "Por dentro do negócio de aluguer de carros de luxo em Miami"


Há vários motivos que fizeram com que o negócio corresse imediatamente mal. Um dos principais foi uma total falta de esforço. Mas, na verdade, estávamos condenados desde o princípio. Nunca nenhum de nós tinha sido muito dedicado a encetar projectos fora das nossas carreiras de eleição, (um dia conto-vos sobre a minha aventura no mundo das startups, Airbnbnb, um serviço de hotel dedicado a hosts de Airbnb, para quando eles tivessem as suas casas alugados no Airbnb).

Não tivemos sucesso, porque os parâmetros da nossa amizade - dizer piadas e não levar nada a sério - não eram o melhor modelo económico. As linhas entre amizade e negócio estavam esbatidas e o teor da nossa relação anulou tudo o resto. Foi sempre pessoal, nunca foi profissional. Por outras palavras: ainda somos amigos, porque aquilo nunca importou verdadeiramente. No total, perdemos um pouco mais de mil e 100 euros. Mas, e se tivesse sido mais? Se tivesse sido algo de que eu verdadeiramente dependesse e não uma brincadeira?

Fazer negócios com amigos pode ser complicado. Perguntem a Tessio, de O Padrinho, ou a Mark Zuckerberg: o primeiro pode ser um exemplo extremo, já que a maioria dos teus amigos não te mataria por traições e o último pouco comum, já que a probabilidade de que venhas a redefinir a Internet e sejas processado por dois gémeos de Harvard é baixa. Mas, nos dois casos, são lições que valem a pena ter em conta caso estejas a pensar nesta opção. Conhece-te a ti mesmo e conhecerás os teus amigos.

"Suponho que, se fores o tipo de pessoa que é susceptível a ideias mais mafiosas, é mais provável que os teus amigos também o sejam", diz-me ao telefone Brian Berkey, professor-assistente de estudos legais e ética económica, na University of Pennsylvania's Wharton School of Business. E acrescenta: "As pessoas podem sentir-se atraídas pela ideia de descartar a importância moral dos interesses de outras pessoas se fizerem parte de um grupo de amigos em que todos pensam assim".

Tens que ter em consideração, primeiro que tudo, aquilo em que te estás a meter e como pode vir a afectar a tua relação, porque é provável que nunca mais seja a mesma. "Obviamente, um dos principais problemas que pode acontecer é um conflito por dinheiro", salienta Berkey. E isso é se chegares a esse nível.

É importante ter atenção aos passos a dar, antes de sequer gastar o primeiro cêntimo, como questões de comunicação - definir regras de base, conferir os argumentos e os papéis de cada um e tudo isto, como o Mashable salientou num artigo muito útil sobre começar um negócio com amigos "sem se chatearem e acabarem à pancada". Estas são coisas importantes que precisam de ser faladas e construídas de base, antes de começar a construir o negócio em si. A Entrepreneur adverte amigos que queiram começar um negócio juntos a que tenham as "conversas difíceis o mais cedo possível"; "novas perspectivas são cruciais", diz Frances Dickens, que fundou uma empresa de publicidade com um amigo, numa entrevista de 2015 ao Guardian. Dickens explica que era um pouco como um casamento, que cedências e compromissos devem ser feitos quanto à divisão de tarefas, gestão de tempo, etc. Por outras palavras, para que o negócio resulte, tens que o pôr acima da amizade. E o resultado é que pode não correr bem. Tens que saber desde o início que a amizade pode vir a ser sacrificada e que estás disposto a isso (quantas vezes já ouviste a frase "Amigos, amigos, negócios à parte"?).

Todavia, nem tudo são más notícias, claro. Gritarias e finanças à parte, existem benefícios óbvios em ter um negócio com amigos e não é de todo impossível de conseguir - toda a gente do Airbnb e do Warby Parker ou da Ben and Jerry encontraram uma maneira de fazer com que resulte sem se matarem.

"A confiança é a chave de qualquer negócio de sucesso", justifica Tae Wan Kim, professor associado de Ética Económica, na Carnegie Mellon's Tepper School of Business. E sublinha: "Os comerciantes judeus no Diamont District de Nova Iorque são um grande exemplo disso, eles nem escrevem contratos. Os contratos são uma ferramenta de negócio importante, mas são sempre incompletos. As lacunas podem ser preenchidas pela confiança e a amizade é um óptimo combustível para a confiança. Os negócios familiares são baseados, obviamente, num conceito parecido". "Uma grande vantagem pode ser que tens mais razões para confiar em alguém com quem já tens uma relação dentro da empresa," concorda Berkey, clarificando de seguida que este só é o caso se - já sabes - confiares nos teus amigos.

Tudo isto para dizer: engendra um plano antes de mandares fazer 200 t-shirts.


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