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Saúde

As verdades chatas que descobri depois de emagrecer

Há 10 meses embarquei num plano drástico de 80 dias para conseguir um "six pack" decente. Aqui vai o que aconteceu desde então.

Por Graham Isador; Traduzido por Madalena Maltez
13 Novembro 2018, 3:31pm

Imagens cortesia do autor.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Canadá.

Há cerca de um ano atrás tiraram-me uma fotografia numa festa. Era uma foto simples. Eu e alguns amigos encostados a um balcão de um bar. Não era particularmente negativa. A luz era boa e os ângulos estavam bem, mas quando a publicaram na Internet senti-me meio envergonhado. Estava mais gordo do que queria. Durante a maior parte da minha vida lutei contra os mesmos dois ou quatro quilos a mais e, sem saber como, estava outra vez do lado mais pesado. Não deveria ter sido uma surpresa, via-me diariamente, mas é incrível o tipo de coisa que consegues ignorar até, sabes, não dar para aguentar mais.

Não posso dizer que a fotografia foi o único momento instigador para o que se tornaria a grande experiência de fitness da minha vida. Provavelmente foram vários pequenos momentos que se acumularam, várias coisinhas que conduziram a uma ideia maior. Queria ver se podia tratar daquele peso extra de uma vez. Será que se me entregasse ao fitness, poderia, finalmente, ir além do status quo? Parecia um incentivo decente para um ensaio pessoal e motivação externa suficiente para realmente fazer o que era preciso.

O resultado da experiência foi um artigo para a VICE, intitulado Passei 80 dias a tentar ficar com abdominais definidos e dei cabo da minha vida. O artigo foi um sucesso de várias maneiras e um fracasso de outras. Perdi 7% da minha gordura corporal, mas não acabei efectivamente com uma barriga definida. Foi o artigo mais lido que já escrevi, mas trouxe uma pressão séria à minha vida pessoal. O texto também acordou muitos fantasmas antigos com os quais não estava inteiramente preparado para lidar.

As reacções foram divididas. Para cada pessoa a elogiar a escrita ou a transformação, havia outras 20 a chamarem-me cabrão [na versão original a palavra usada é bitch]. Uma mulher disse-me que eu tinha sangue nas mãos. Que as pessoas iam ler o artigo e desistir de tentar estar em forma e, quando essas pessoas morressem, a culpa seria minha.

Mas, de todas as grandes reacções houve algo que eu não esperava. Recebi uma catrefada de mensagens privadas a perguntar como é que tinha conseguido. As pessoas liam sobre como fiquei miserável durante aquele tempo, como a minha experiência era, de certeza, a forma errada de perder peso e, ainda assim, queriam que eu lhes dissesse exactamente qual era a minha dieta e rotina de exercícios. As mensagens eram longas e emocionadas, com as pessoas a explicar como sentiam que o seu corpo se tinha tornado um fardo. Na altura, não sabia realmente o que responder. Não era um especialista no tema e, assim que saí do projecto fitness, não tinha nenhuma certeza se não cairia directamente nos meus velhos hábitos.


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Já passou algum tempo (10 meses) desde que o artigo dos abdominais saiu e com algumas mudanças de estilo de vida e as instruções de Geoff Girvitz, o dono da Bang Fitness de Toronto e pessoa que supervisionou a minha experiência, consegui manter o meu peso estável e até perder mais alguns quilos. Esta experiência foi, decididamente, menos extrema do que o regime condensado em 80 dias e, ainda que não tenha ficado nem de perto nem de longe um especialista em fitness, sinto que aprendi algumas coisas. O suficiente para querer escrever sobre isso, pelo menos. Abaixo – com a ajuda de Geoff – elenco algumas das maiores e mais chatas verdades que aprendi sobre perder peso e não o voltar a ganhar.

1. Provavelmente, há uma diferença entre o que achas que é comer bem e o que é realmente comer bem

Quando comecei a experiência dos abdominais, acreditava honestamente que me alimentava de maneira saudável. Comia o mínimo de porcarias. Bebidas estavam limitadas a uma ou duas vezes por semana. Comia vegetais. Mas, uma das primeiras coisas que me pediram para fazer durante o projecto foi manter um diário e registar tudo o que metia na boca. E o processo foi uma iluminação.

“Muitas vezes, quando pedimos às pessoas para escreverem tudo o que estão a comer, mesmo que elas não mostrem o diário a ninguém, acabam por comer melhor”, explica Girvitz. E acrescenta: “Escrever o que consomes – tudo o que ingeres – permite-te olhar honestamente para onde estás”.

As pequenas coisas, quando se vão acumulando durante a semana, fazem diferença. Estava a beber mais do que achava. Comia muitas sanduíches e, para satisfazer as minhas laricas da tarde e da noite, muitas vezes ingeria tantas calorias como as de uma refeição inteira. O diário destacou a distância entre como eu estava a comer e como precisava de comer para atingir os meus objectivos de fitness. Todavia, mesmo com a informação à minha frente, quebrar a rotina foi mais difícil do que pensei. Demorei algum tempo a encontrar estratégias eficientes.

Não achei útil a coisa binária de comida boa/comida má. Em vez disso, tentei pensar no que estava a consumir mais como estando mais perto ou mais longe do meu objectivo, numa modificação razoável. A cada refeição perguntava-me se não podia fazer uma escolha ligeiramente melhor. À superfície isso era bastante simples: molho balsâmico na salada, em vez de molho césar. Café preto, em vez de café com leite. Comida integra, em vez de processada. Essa questão básica, combinada com o registo preciso do que estava realmente a comer, permitiu-me definir melhor o que queria fazer.

2. Consistência é mais importante do que trabalho pesado

Uma das razões para me sentir tão mal durante os primeiros dias da minha experiência devia-se ao facto de estarem a acontecer mudanças drásticas muito rapidamente. De ir ao ginásio duas vezes por semana passei a ir duas vezes por dia. Usar comida como conforto já não era uma opção e precisava de dormir mais do que nunca. Tudo aquilo exigia muita energia mental.

“Muitas vezes as pessoas entram com a ideia de 'levar ao extremo – quanto será que consigo aguentar'. É uma perspectiva muito sombria”, salienta Girvitz. E justifica: “Fitness devia ser uma questão de felicidade. Então, porquê abordar a questão com a expectativa de que seja algo que vai dar cabo de ti? Porque não pensar no que consegues fazer regularmente. É menos sexy que a abordagem tudo ou nada, mas é assim que uma pessoa se coloca no caminho para o sucesso”.

O que eu estava a fazer não era sustentável. Sem o enquadramento/pressão do artigo teria desistido de imediato. Quando começas um novo regime, há sempre aquela inclinação de dar-lhe o mais pesado possível, mas se és o tipo de pessoa que fica tonta quando se levanta do sofá muito depressa, talvez seja melhor ires com calma. O que podes gerir realisticamente na tua agenda? Como é que tornas isto numa prioridade? De momento, estou comprometido com quatro dias de exercício por semana. Geralmente no ginásio, mas se não der para ir naquele dia por qualquer razão, tenho um kettlebell em casa. Às vezes até corro.

3. Por si só, fazer exercício não é suficiente para mudar dramaticamente o teu físico

O quanto uma pessoa pode comer e continuar magra é variável. Mas, no fim de contas – tirando alguma condição médica extrema –, perder gordura resume-se a queimar mais calorias do que se ingere. É isso. Tendemos a sobrestimar quantas calorias estamos a perder durante um treino. E isso pode retardar as coisas, mesmo quando a pessoa está a treinar arduamente.

“Descobri logo que, não só não estavas a aderir à dieta nutricional, como não estavas realmente num ponto de começar mudanças – ou mesmo de ouvires. Estavas muito stressado”, explica-me Girvitz. E realça: “Só a meio da experiência é que começaste efectivamente a compreender isso”.


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Se queres mudar a composição do teu corpo, vais ter que comer de forma diferente. Isso não quer dizer necessariamente comer menos. Como mais agora do que quando o projecto começou, mas o tipo de comida mudou. Preciso de comer muita salada para me sentir tão cheio como com um pedaço de pão. Preciso de muito mais peito de frango para atingir o mesmo conteúdo calórico de um hambúrguer.

Todas as minhas refeições são alguma variação de proteína magra e vegetais. Para os lanches? Um pedaço de fruta. Nozes. Novamente, consistência é a chave: dietas loucas podem levar-te onde queres chegar, mas, sem fazeres uma mudança geral nos teus hábitos, não te vão manter lá.

4. Tem um objectivo. Tem um plano. Regista o que estás a fazer. É mesmo chato

Fotografias do antes e depois podem ser assustadoras. Números numa balança podem ser dolorosos. Escrever durante quanto tempo e o que fizeste no treino é irritante. O mesmo com o registo da comida. Mas, sem toda essa informação não sabes realmente o que estás a fazer e se as mudanças estão a funcionar ou não. “Não vais ter um progresso de calibre profissional com um planeamento de nível amador”, explica Girvitz.

Ter um objectivo quantificável – algo mais específico do que estar bonito nu – também ajuda. Talvez seja perder X quilos. Talvez seja uma percentagem de perda de gordura. Qualquer coisa. Não que números sejam o sentido de tudo, mas é possível medi-los de uma forma que outras coisas não são. Informação é feedback. 90 quilos são 90 quilos.

Se não tens a certeza por onde começar e tiveres condições, faz uma pesquisa para encontrares especialistas (treinadores ou nutricionistas) que te possam guiar. Se não tiveres condições de contratar os seus serviços, há várias boas fontes gratuitas na Internet.

5. Manteres os teus objectivos de fitness é um estilo de vida

A diferença entre a primeira e a segundo fotografia no topo deste artigo é de 13 meses e 14 quilos. A minha postura, o meu bronzeado e a iluminação da segunda fotografia também são melhores... mas não houve edição ou preparação. Era um dia normal. Quando comecei a experiência dos abdominais era ingénuo. Achava que alcançar um corpo de super-herói era algo que estava – não sei – a uns quatro ou sete quilos de distância? Quando perdi os primeiros quatro quilos, fiquei surpreendido e desapontado com o meu físico, vendo só uma versão ligeiramente melhorada de mim mesmo. A mesma coisa quando cheguei ao marco dos nove quilos. Foi só depois, ao ver as fotos, que percebi quão drásticas as mudanças tinham efectivamente sido.

Depois da experiência, tinha que tomar uma decisão. Podia voltar aos hábitos antigos de comida e exercício, o que iria desfazer todo o meu trabalho. Podia continuar e esforçar-me ao máximo para conseguir uma barriga de abdominais de curto prazo, apesar de que o que fiz na experiência de 80 dias ter feito com que me cagasse duas vezes nas calças. Ou podia tentar encontrar um nível de manutenção: um novo normal, que se encaixaria com as outras coisas que queria fazer na minha vida. Felizmente, estou mais em forma agora do que quando terminei o projecto abdominais, apesar de ainda não ser a figura esbelta que imaginava. A diferença é que os fundamentos do que estou a fazer agora, estão muito acima de onde estava antes. Tanto assim que, fazer o básico, já não é assim um esforço tão grande. Se decidir voltar a fazer outra tentativa de transformação corporal, tenho uma base melhor por onde começar.

“Há muitas formas de subir a montanha. Mas, sugiro que penses naquela que precisa de menos trabalho para implementares mentalmente”, diz Girvitz. E conclui: “Não precisas de fazer ginástica mental. Se é algo simples, provavelmente vai funcionar para ti. Se usares um plano que se encaixa na estrutura pré-existente da tua vida, mais hipóteses tens de realmente conseguires. Quando o plano já faz parte da tua vida, podes sempre ajustá-lo”.


Graham Isador é um jornalista de Toronto. @presgang

Geoff Girvitz é um escritor e profissional de fitness. Segue-o no Twitter.

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