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O que acontece quando seu pai cria toda sua família para ser criminosa

Rooster Bogle levava os filhos uma vez por semana para visitar uma prisão e dizia para eles prestarem atenção pois eram ali que iriam morar.
14.11.18
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Esquerda: Rooster Bogle em 1960 quando foi preso no Texas por assalto. Direita: Bobby Bogle à esquerda e Tracey Bogle na Penitenciária Estadual do Oregon. 

Num Natal quando ele ainda era uma criança pequena, o pai de Bobby Bogle, Rooster, deu a ele uma pesada chave inglesa embrulhada num saco de papel marrom como presente. Confuso, o Bobby de quatro anos não sabia o que fazer com o presente – até lembrar do pai contando várias histórias sobre quando ele cumpriu pena no Texas por assalto. Bobby decidiu que a chave inglesa era uma ferramenta do ofício da família, e uma vez saiu bem cedo pela manhã para atacar o mercado local. Quando ele chegou em casa com garrafas de Coca-Cola roubadas nas mãos, seu pai o recebeu como se ele tivesse feito um golaço no jogo da escola.

Para os Bogles, o crime corria no sangue da família.

Para seu novo projeto, o jornalista do New York Times vencedor do Pulitzer Fox Butterfield decidiu encontrar uma família que tivesse um conhecimento único sobre o sistema de justiça criminal. Mas acabou encontrando outra coisa: um clã de seis membros atualmente cumprindo pena em prisões estaduais do Oregon, e um total de 60 pessoas que foram presas desde os anos 1920. No livro resultante, In My Father's House: A New View of How Crime Runs in the Family [Na Casa de Meu Pai: Uma Nova Visão Sobre Como o Crime é Coisa de Família, sem tradução], Butterfield rastreou vários membros dos Bogles na prisão e fora dela, os convencendo a contar suas histórias enquanto analisava os fatores que contribuíram para seus problemas desproporcionais com a lei. A VICE falou com ele para descobrir o que tudo isso significa numa era de ressurgimento de políticas “lei e ordem”.

VICE: Por que focar no papel da família no crime considerando a abundância de pesquisas mostrando que fatores ambientais como pobreza são centrais nesse tipo de coisa?

Fox Butterfield: O que realmente chamou minha atenção foram estudos que tinham sido feitos nos EUA e em Londres, analisando como o crime tende a se espalhar por famílias. Não escrevemos mais sobre o crime branco nos EUA – é algo muito concentrado nos negros. Eu queria encontrar uma família branca para tentar tirar a raça de equação. Apesar desses estudos existirem há vários anos, ninguém fez nada com a pesquisa. Ninguém foi investigar por que as famílias se comportam assim.

Por que você acha que estudos sobre família como fator de crime não são mais conhecidos?

Quando falei com alguns criminologistas sobre isso, eles diziam que muitos colegas norte-americanos tinham quase que medo de focar em família como causa de crime porque, até recentemente, você seria acusado de ser racista se sugerisse que há uma ligação entre família, ou uma ligação biológica ou genética, com o crime. Muitos especialistas em crimes preferiam olhar para qualquer outra direção. Eles observavam bairros, pobreza, gangues e drogas. A família era ignorada mesmo com esses estudos. Quando vi quão extensos os estudos eram, aproveitei a oportunidade.

Então seu objetivo com esse livro era uma exposição sobre criminologia ou contar a história da família Bogle?

Tentei misturar os dois. A fundação intelectual ou origem do livro são todos os estudos com estatísticas mostrando como o crime corre nas famílias. Esse é o enquadramento para o livro, mas o cerne dele são as histórias dos próprios Bogles. Espero ter conseguido misturar bem tudo isso.

Considerando o perigo de condenar uma pessoa por sua origem, que conclusões reais você acha valiosas sobre uma família como os Bogles, além do grande número deles que desobedeceu a lei?

Falando com os membros da família Bogle, todos me disseram de cara que quando eram bem novos, seus pai e mãe, e às vezes tios e tias, membros mais velhos da família, os levavam para cometer crimes com eles. Eles estavam aprendendo a cometer crimes como parte da atividade da família. Era o que eles faziam. Rooster Bogle levava os filhos uma vez por semana para visitar uma prisão perto de Salem, Oregon, onde eles moravam, uma prisão enorme nos arredores da cidade, e apontava para a prisão e dizia “Prestem atenção, garotos, porque quando vocês crescerem, é aqui que vocês vão morar”.

Eles não consideravam isso um aviso. Eles consideravam um desafio, e imaginavam que era isso que eles deveriam fazer.

Eles acabaram vendo ser um criminoso como algo honrado para sua família. Criminologistas chamam isso de teoria de aprendizado social. É um processo de imitação. Olhando mais a fundo, vi o que os criminologistas chamam de controle social, o que significa que eles não tinham muitos laços fortes. Eles não tinham nenhum laço social. Eles não tinham conexão com professores nem eram parte dos escoteiros. Eles não frequentavam a escola dominical na igreja ou nada do tipo. Eles não pertenciam a nenhum outro grupo social e não tinham outros modelos para seguir exceto os de sua família. Os únicos laços deles eram com seus parentes, que já eram criminosos.

Como você se esquivou de conclusões perigosas sobre genética e crime?

Comecei a me interessar pelo papel que a genética tem nisso porque, desde a decodificação do genoma humano, agora é possível para criminologistas começarem a falar sobre um possível papel da genética no crime. Isso era impossível até recentemente, porque se você sugeria que a biologia ou genes tinham algum papel no crime, você seria rotulado como racista ou nazista. Mas agora há criminologistas que estão trabalhando nisso e descobrindo que alguns genes, em combinação com um ambiente familiar como o dos Bogles, podem predispor a certos tipos de comportamento.

Claro, o gene interessante é aquele que torna as pessoas mais impulsivas, não necessariamente criminosas, mas que muitas vezes é um precursor de atividade criminal. Exploro isso, mas não sou geneticista. Não sou um cientista então não posso levar isso muito longe. Há um trabalho interessante começando a ser feito agora sobre o papel da genética, mas as pessoas fazendo esse trabalho são muito cuidadosas para não dizer que existe alguma coisa como um gene do crime. Há milhares desses genes e uma combinação de certos genes com um ambiente familiar como os dos Bogles – você precisa ter as duas coisas, o ambiente e o gene.

Você não teme que suas ideias sobre crime ser algo de família possam ser vistas ou interpretadas de maneira problemática, nesse momento de políticas anticrime ao estilo de Donald Trump?

Bom, desisti de tentar prever o que Trump pode fazer. Espero que o livro consiga se sustentar por si só e não acabe no meio do debate entre a direita e a esquerda, ou Trump e anti-Trumps. Não estou tentando sugerir que certas famílias são amaldiçoadas e nunca vão mudar, porque já vi que pessoas podem mudar. Mas acho que podemos ter um sistema criminal muito mais eficiente se tivermos consciência de como o crime vem de família. Podemos tentar trabalhar com essas pessoas quando elas são parte dessas famílias e ainda são jovens. Quanto antes você mostrar que essas pessoas podem mudar seu comportamento, mais fácil é. Depois de um tempo, isso acaba cimentado.

Já estive preso e sei um pouco sobre o que as pessoas podem chamar de mentalidade de detento ou de criminoso. Mas como você acha que essa mentalidade sobreviveu numa unidade familiar como os Bogles durante várias gerações?

Esse tipo de mentalidade sobre a qual você está falando se estabeleceu na família. Eles mantinham essas coisas, essas tradições e essa perspectiva mental. Eles tinham orgulho dessa mentalidade. Rooster fez tatuagens nos filhos. Ele tatuou pontos pretos na bochecha esquerda, embaixo do olho esquerdo, em cada filho. Ele dizia que era uma marca cigana, mas na verdade era uma marca que detentos usavam em prisões federais e estaduais nos anos 50 e 60. Não sei se isso continuou, mas naquela época era algo bem disseminado.

Parece que não era só uma questão de sobrevivência, mas quase de orgulho – e ativamente rejeitando os valores da sociedade.

De algum jeito isso se tornou parte da identidade da família. Era no que eles acreditavam. O Bogles também tinham um espírito de clã. Eles só andavam juntos, não tinham muitos outros amigos e não deixavam os filhos brincarem com crianças de outras famílias. Elas só brincavam com os próprios parentes, e esse é outro fator da história deles. Eles não queriam que outras pessoas soubessem como era a vida deles, então só contavam aos filhos como eram seus tios, tias, avôs e avós, e as crianças não sabiam muita coisa sobre outras pessoas. Então ser cortado do resto da sociedade era um fator.

Com alguma distância do tema, você acha que essa história é mais sobre pobreza ou falta de oportunidade, ou essa visão de mundo única que era entregue? Essa é uma escolha impossível?

Fiquei muito tempo nessa questão. Os Bogles são uma família branca desfavorecida. Eles não têm os problemas que os afro-americanos encaram, de ter pele escura ou preconceito contra eles. Mas eles têm essa visão de mundo onde acham que o que eles fazem melhor é cometer crimes, e sentem honra cometendo crimes. Para eles, é uma coisa cultural.

Sem querer ficar batendo na mesma tecla, mas como você evita estigmatizar pessoas com um trabalho como esse, ou dar a ideia de que eles estão condenados por seu sangue ou algo assim?

Aponto para várias pessoas que conseguiram sair desse ciclo. Tammie Bogle é uma pessoa profundamente religiosa. Mesmo que muitos de seus irmãos e alguns de seus filhos tenham acabado na prisão, a força dela e seu relacionamento com a religião ajudaram a guiá-la por um caminho muito bom. Ashley Bogle, apesar de ter crescido cercada de pessoas cometendo crimes, decidiu bem cedo que não queria isso. Isso não era para ela e ela focou em estudar. Não acredito que as pessoas estão predestinadas a seguir essa rota. Elas fazem escolhas pelo caminho. E eu não diria que todo mundo da família vai se tornar criminoso. Há caminhos para fugir disso.

Saiba mais sobre o livro de Butterfield, que saiu dia 10 de outubro, aqui.

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