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Por dentro do Thrash Zone, um bar de metal no Japão que só vende "cerveja extrema"

Em 2006, não existia um sítio no Japão para ouvir riffs de estourar os tímpanos e beber cerveja com sabor a água de bong do inferno. Até Koichi Katsuki entrar em cena.

Por Hilary Pollack; Traduzido por Marina Schnoor
06 Junho 2019, 9:48am

Fotos pela autora.

Este artigo foi originalmente publicado no Munchies - Food by VICE.

Um tipo particular de adolescente em busca de algo emocionante, pode encontrar catarse para a sua teenage angst nas primeiras notas do disco Ride the Lightning, dos Metallica, lançado em 1984. Koich Katsuki encontrou um sentido para o resto da sua vida.

Como muitos adolescentes nos anos 1980, Koichi interessou-se por heavy metal quando os amigos lhe começaram a emprestar álbuns com capas de esqueletos, pregos, cabedal e mullets. No Japão, onde Koichi cresceu, era possível alugar discos em lojas locais por 200 ou 300 ienes cada – um décimo do custo de comprar um. Enquanto as baladas tristes de Yosui Inoue e o rock jazz de Akira Terao estavam no topo das tabelas japonesas, ele ouvia Killers dos Iron Maiden e Screaming for Vengeance dos Judas Priest, até que começou a mergulhar fundo nas prateleiras atrás de riffs mais pesados, berros mais profundos e histórias mais épicas de inferno, monstros e guerra.


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“Precisava de algo mais, uhm... intenso”, recorda Koichi, enquanto nos sentamos no Thrash Zone, a sua cervejeira e bar em Yokohama, uma cidade portuária a sul de Tóquio. E realça: “Mais rápido, mais pesado. Até que, finalmente, conheci os Metallica”. O gosto musical de Koichi combina com o seu gosto por cerveja. O slogan do Thrash Zone diz tudo: APENAS CERVEJA EXTREMA. É um tanto complicado encontrar o bar, um buraco numa parede na zona residencial da cidade, marcado apenas com uma pequena placa pendurada e um amplificador Marshall na porta.

Baptizado com o nome do seminal álbum de 1989 dos D.R.I., o Thrash Zone é um bar de cerveja, mas também um santuário do metal. Uma das paredes está coberta de flyers antigos fotocopiados de concertos de punk e metal e as fontes e imagens nos letreiros, copos e porta-copos foram tirados dos Black Flag e Bad Brains. A parede no fundo parece uma pilha de amplificadores; as estantes têm centenas de discos e DVDs, como American Hardcore e Slayer: Live in Montreux.

Como um casco de gesso gigante virado do avesso, o interior do bar está cheio de mensagens e desenhos deixados pelas bandas em digressão que aqui pararam aqui para beber uma cerveja, ouvir um som ou ambos – além de tags de cervejeiras importantes como Ballast Point e Coronado. (Exemplo: “QUE PUTA DE CERVEJA BOA. CONTINUEM INDEPENDENTES", escrita por Barney Greenway dos Napalm Death).

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O Thrash Zone não serve qualquer cerveja - é, isso sim, um altar para as cervejas mais amargas e brutais do Mundo. Os sabores podem ser tão maltados e ricos como uma colherada de cacau em pó puro, com tanto lúpulo que parece que fumaste um charro, ou tão azedos como mastigar uma folha de um limoeiro.

Quando por lá passei, tinham 14 cervejas de pressão; oito eram do próprio Thrash Zone, com nomes como Speed Kills, Hop Slave e World Downfall Stout. São feitas numa cervejeira próxima e vendidas em exclusivo (e noutro bar Thrash Zone, a alguns quilómetros de distância, onde também servem almôndegas). A maioria tem entre 7% a 10% de álcool; uma barley wine, Aru-Chu Ale, tem 13%. Uma pilsener japonesa tem normalmente cerca de 5%, ou seja, uma pint dessas cervejas vai-te deixar de duas a três vezes mais bêbado que uma latinha de Sapporo. E enquanto as India Pale Ales normalmente têm 60 IBUs, ou International Bitterness Units, a maioria das servidas por Koichi têm mais de 100.

Pode parecer uma história simples: puto ouve metal; puto apaixona-se pelo metal; puto vira homem; homem descobre que também curte cerveja; homem abre uma cervejaria heavy metal. Mas, o caminho de Koichi até ao Thrash Zone só se pode manifestar através de uma verdadeira obsessão. Uma delas, como já percebeste, é música alta e pesada. A outra: cervejas bizarras. E para que o Thrash Zone se tornasse realidade, Koichi teve que fazer sacrifícios e abrir caminhos que antes não existiam.


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Nos EUA, por exemplo, cervejarias voltadas para o punk rock não são difíceis de encontrar. Mas, pelos padrões japoneses, Koichi não está a exagerar quando apelida as suas cervejas de extremas; cervejas artesanais são mais ou menos um nicho no Japão, com as vendas a representarem apenas dois por cento do mercado em 2018. Bares de cerveja artesanal estão agora a tornar-se mais comuns no país, mas são poucos e distantes mesmo em grandes cidades como Tóquio; quando Koichi abriu o Thrash Zone em 2006, cervejas deste tipo eram quase impossíveis de encontrar.

Vestido de camisola de gola alta, óculos de aro fino e um barrete de tricot – sem casaco de cabedal ou moicano, apesar de o seu cabelo comprido ter uma tendência alternativa –, ele parece um tipo maduro e educado, profissional e relaxado, quase tímido. É difícil imaginar que este homem tocou numa banda punk chamada Ministry of Ignorance durante 10 anos (também tocou nos Dictator e, actualmente, faz parte dos Marubellmen.) Enquanto eu bebia uma ale vermelha com sabor a cardamomo e cheiro a papel de parede da casa da minha avó (no bom sentido), Koichi contou-me o seu caminho até ao Thrash Zone.

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Quando entrou na universidade, Koichi começou a tocar em bandas punk. Isso foi no começo dos anos 90, muito antes de bandas japonesas de rock experimental como Boris, Merzbow e Boredoms entrarem para a consciência cultural colectiva. No entanto, não tardou a aperceber-se que sobreviver a tocar música pesada era quase impossível. “Na época, nos 80 [quase 90], esse tipo de cultura era obviamente para os marginais, ou para os anti-mainstream”, explica. E acrescenta: “Outsider. Raivoso”.

Em 1995, Koichi viu-se arrastado para a cultura salaryman do Japão, com a sua ética de trabalho aborrecida de fato e gravata. Retirado da sua grande paixão pela pressão de ter sucesso financeiro, aceitou um emprego na Nippon Oil, uma empresa petrolífera “grande, grande” e “muito conservadora” na cidade costeira de Osaka, mas desde logo percebeu que curtir riffs bombásticos não seria algo útil para colocar no CV. “Aquele papel não era o meu verdadeiro eu”, suspira. E revela: “Era como um segredo”.

Apesar de os seus 11 anos na empresa lhe terem valido pouca gratificação, havia um ponto positivo no trabalho: estava perto de um bar de cervejas. Como que por destino, aquele não era um qualquer bar onde empresários relaxavam a beber algumas rodadas de Asahi. Era o Minoh, uma cervejaria pioneira da cena de cervejas artesanais do Japão.

No Japão, quase 95 por cento das cervejas vendidas são lagers. As Big Four reinam supremas, e as políticas do governo permitem que elas mantenham grande controlo do mercado. Microcervejeiras eram proibidas no Japão até 1994 e o primeiro boom de cervejas artesanais sofreu para superar o processo bizantino de licenciamento e um público de mente muito fechada. Os sabores amargos das cervejas artesanais tão populares nos EUA há anos, eram considerados desafiantes para quem só bebia as pilseners familiares. O Minoh, que abriu em 1997, resolveu investir em variedades encorpadas como dark lagers e stouts. O bar também era comandado por uma mestre cervejeira, uma raridade no Japão até hoje.

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Em 2006, Koichi largou o emprego para correr atrás do sonho de abrir o seu próprio bar. Desde a concepção da ideia, o objectivo era servir cerveja artesanal – nada daquele lixo mainstream. Escolheu Yokohama porque, apesar de ser a segunda maior cidade do Japão, com uma população de quase quatro milhões de pessoas, não havia nenhum bar de cerveja artesanal na cidade.

Andrew Balmuth é o fundador e COO da Nagano Trading Company, uma das primeiras distribuidoras a ajudar Koichi a importar cervejas americanas “extremas” para o Japão e depois para o Thrash Zone. Conheceram-se em 2006, um pouco depois de Koichi ter largado a vida de salaryman e trabalham juntos há mais de uma década. Foi Balmuth que ajudou Koichi a encontrar as cervejas saborosas e diferentes que ele queria servir (e, claro, beber). “Essas IPAs intensas, de alto sabor e alto teor alcoólico eram muito, muito raras no mercado”, explica-me Balmuth por telefone a partir do seu escritório em Yokohama. E salienta: “Tudo nas cervejas dele é como a sua música, por isso as cervejas tinham de de ser IPAs extremas”.

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Nos primeiros anos, o Thrash Zone servia qualquer cerveja “extrema” que Koichi conseguisse arranjar. Mas, demorou muito a apanhar o bichinho cervejeiro. Esperar por cervejas importadas mostrou ser um processo chato, a viagem entre EUA e Japão é feita de navio e demora semanas. “Achei que precisávamos de algo mais fresco e de mais alto nível. Ao mesmo tempo, posso ajustar-lhes o sabor”, diz. E adianta: “Foi por isso que comecei a fazer a minha própria cerveja”.

Com um pouco de criatividade – Koichi comprou os seus tanques de metal num leilão de peças de segunda mão e construiu boa parte do equipamento sozinho – criou um kit próprio por metade do valor gasto pela maioria dos produtores. “Na época, o custo médio para abrir uma cervejeira era de cerca de 100 milhões de ienes (mais de um milhão de euros). Mas, enquanto estava a estudar a produção, notei que um sistema simples era suficiente para construir uma cervejeira de pequena escala”, diz. Em 2009, inscreveu-se para ter a licença de produtor e, finalmente, recebeu-a dois anos depois.

Enquanto esperava, cruzou o oceano para conhecer o mundo de Oz da cerveja experimental: Califórnia. Visitou cervejeiras artesanais que por lá surgiam que nem ervas daninhas: Sierra Nevada, Bear Republic, Coronado, Ballast Point; investigou e passeou por Bay Area, San Diego e Portland a experimentar todas as cervejas que encontrava. As suas favoritas eram as super-amargas de lúpulo – as pale ales e double pale ales, cervejas um pouco mais difíceis de beber, comparadas com aquelas com que os seus amigos cresceram.

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A sensação que Koichi teve a beber as IPAs da Costa Oeste lembraram-no da sua reacção a outra exportação da Califórnia: Metallica. “É isso! Igual aos Metallica!”, lembra-se de pensar. “A cerveja dos Metallica. Os Metallica das cervejas”.

Quando finalmente recebeu luz verde para começar a produzir a sua própria cerveja em 2011, era essa ousadia que ele queria emular. Ry Beville – fundador e editor da Japan Beer Times, uma revista sobre cerveja, bimestral e bilíngue – recorda a infância do Thrash Zone e do estilo de produção de Koichi como subversivos e emocionantes. “Estávamos nos primórdios da cerveja artesanal no Japão”, diz-me Beville a partir da sua actual residência, na Califórnia. E revela: “Ele pensava muito fora da caixa, tanto na altura como agora. O seu bar era famoso por ser um dos únicos sítios onde podias beber essas cervejas”.

A primeira cerveja de Koichi foi a Hop Slave, uma Imperial double IPA e uma colaboração com uma cervejeira chamada Atsugi. Como Koichi disse uma vez à JBT: “Fazer double IPA como a tua primeira cerveja é como aprender death metal na tua primeira aula de guitarra”. A Hop Slave já foi descrita como “resinosa” e com “toques de pinho” – como “uma incrível bomba de lúpulo e citrus”, ou um soco de marmelada com resina.

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A cerveja que Koichi estava a fazer não se destacava só por ser lupulada e amarga; também era uma referência ao boom das IPA da Costa Oeste norte-americana dos anos 90. “Era como um regresso a 15, 20 anos atrás – pareciam old school, mas correu bem”, garante Beville. E justifica: “Mesmo outros cervejeiros dos EUA que visitam o bar dizem 'Isto é uma loucura... e é incrível!' Não conheço outra cervejeira como a dele no Japão. Há algo muito punk no seu estilo de produção dele”.

O Thrash Zone não é para toda a gente. Músicos em digressão e connoisseurs de cerveja são os visitantes mais frequentes. Mas, os trabalhadores de escritórios não são incomuns durante as noites de semana - os locais, mandam as regras, são os clientes mais importantes.

Todavia, o que Koichi realmente quer é que o seu bar seja um ponto de encontro para nerds de música e obcecados por cerveja, gente que precisa de um paraíso para ouvir os deuses das guitarras e beber cervejas tão lupuladas que sabem a café velho e fósforo molhado, ou tão amargas que pareçam sumo de abacaxi com vinagre caro. Se quiseres participar, tens que seguir as regras do Thrash Zone, que encontras nas paredes do local e em inglês no site, que atualmente está fora do ar (Koichi está a tentar voltar a colocar o site a funcionar, mas diz que não é “muito bom nesse tipo de coisas”).

1) FAZ TU MESMO = D.I.Y.

2) ATITUDE ANTI-MAINSTREAM

3) POLÍTICA DE PRIORIDADE AOS LOCAIS

Koichi vê muitos paralelismos entre o punk rock e fazer cerveja: a camaradagem entre cervejeiros, parecida com a das bandas em tournée; o forte ethos DIY; o respeito pelos outros que estão no mesmo mercado. E há a ênfase partilhada na arte acima do lucro. Koichi mantém os seus preços baixos – quase chocantemente baixos, tendo em conta as grandes quantidades de lúpulo e malte exigidas no seu processo de fabricação. Balmuth também explica porque é que Koichi nunca acrescenta cervejas às suas torneiras só por achar que vão vender bem: “Ele escolhe as cervejas com base nos seus próprios critérios tácitos, à maneira dele”.

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Koichi pode ser um cavalheiro, mas não faz concessões. “Se o meu estilo de vida é anti-mainstream, o sacrifício será o dinheiro”, explica encolhendo os ombros. Mas, ele também fez outros sacrifícios. Como muitas pessoas no Japão, Koichi, agora com quase 50 anos, não caiu nas armadilhas tradicionais da vida adulta – casamento, filhos – para se focar na sua paixão. Segundo o CIA World Factbook, a meia idade no Japão é 46 anos e o ministério de bem-estar social japonês prevê que em 2035, mais de um quarto da população masculina do país tenha renunciado ao casamento na idade fértil.

No entanto, para alguém que ouve heavy metal e hardcore o dia inteiro, Koichi parece zen para caraças (a cerveja deve ajudar). Há, todavia, uma coisa que claramente o irrita: mesmo idolatrando a cena da cerveja artesanal da Costa Oeste, ele não curte a forma como a cerveja artesanal se tornou num grande negócio nos EUA e tem pena de como alguns cervejeiros transformaram a contracultura em lucro. “A cerveja pertence à cena da contracultura”, diz-me enfaticamente. “A música, a cerveja – cerveja é contracultura. Eles estão a fazer isto, como se diz... só pelo dinheiro? Ou, sei lá, 'Ah, isto é chique?'”. “Ah, os posers”, respondi. “Posers! Sim!”, grita Koichi, entre uma gargalhada sonora.

Recentemente, Koichi teve uma grande conquista ao colaborar com o supergrupo de powerviolence Trappist, que têm também um imaginário muito ligado à cerveja, numa “digressão de cerveja e punk hardcore”, para a qual o Thrash Zone fez uma cerveja especial (chamada Shout at the Duvel) para servir nos concertos da banda no Japão. “Para mim, foi uma grande experiência”, conta-me num e-mail recente. E acrescenta: “Foi como realizar os meus sonhos”.

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Koichi, os Trappist e a equipa do Minoh. Foto cortesia de Chris Dodge.

Chris Dodge, vocalista e baixista dos Trappist, também escreve uma coluna sobre cerveja no Decibel (chamada “No Corporate Beer”) e já tocou em bandas lendárias de hardcore como Spazz e Infest. Ele vê Koichi como uma figura única – profundamente apreciado pelo pessoal do circuito internacional de cerveja.

“[Koichi] é um pioneiro”, garante-me Dodge ao telefone. Segundo ele, o cruzamento entre cerveja artesanal e a cena de música pesada é natural. “[O Thrash Zone] mostrou-me que há pessoas como eu, empolgadas com música extrema e boa cerveja. Koichi é um gajo muito fixe e de pés assentes na terra e gosta mesmo de conhecer pessoas com a mesma mentalidade – muito DIY, muito de base”.

Enquanto o seu bar continua escondido e despretensioso, não há dúvidas sobre a influência de Koichi no mundo da cerveja artesanal japonesa. Depois de o Thrash Zone ter aberto em 2006 e ter começado a importar e depois produzir ales altamente lupuladas e cervejas da Costa Oeste americana, Koichi tornou-se o homem a procurar para outros bares de cerveja artesanal que tentavam seguir o seu exemplo. Um relatório da USDA do ano passado mostra que enquanto o consumo de cerveja no geral está em declínio no Japão, o mercado de cerveja artesanal quase que quadruplicou.

“Andrew Belmuth sempre aproximou o pessoal da cerveja e, de lá, a popularidade vai-se espalhando. Acho mesmo que ele influenciou o início dos bares de cerveja artesanal e encorajou outros a sentir que podiam fazer isto”, diz Beville. “Eles viram o Thrash Zone e pensaram 'Tenho uma hipótese'”.

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Koichi é um homem feliz a cuidar do seu pequeno bar. Balmuth conta que já lá passou algumas vezes quando o Thrash Zone estava vazio e o encontrou a ensaiar com a sua guitarra, a tocar riffs pesados para as paredes.

“De certa maneira, esta é a sua igreja. A sua casa”, dzi-me Balmuth sobre a experiência do Thrash Zone. E conclui: “E ele quer que continue assim”.


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