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Drogas

A fantástica história de como Denver descriminalizou os cogumelos psicadélicos

Com votos dos jovens, o quase inimaginável aconteceu – e abre caminho para reformas em todo o país.

Por Alex Norcia; Traduzido por Madalena Maltez
15 Maio 2019, 10:14am

Imagem por Lia Kantrowitz.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE US.

Na terça-feira da última semana, quando as eleições locais em Denver, EUA, arrancaram, parecia que havia mais pessoas a comparecerem para votar pela descriminalização da psilocibina, o ingrediente psicoactivo dos cogumelos, do que para o presidente da câmara. O podcaster, comediante e comentador de UFC, Joe Rogan, tinha lançado um apelo de última hora no Twitter e no Instagram. Lance Cayko, director de comunicações do Partido Libertário do Colorado, há muito que declarava o seu apoio.

Às 19 horas, Kevin Matthews, gestor da campanha conhecida formalmente como Denver Psilocybin Initiative, estava numa festa com quase 200 pessoas à espera dos resultados. Mas, naquele momento, as coisas não pareciam promissoras. Durante todo o dia, a imprensa nacional dizia que as sondagens à boca das urnas indicavam que a medida não seria aprovada por uma pequena margem.


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Mesmo assim, os votos no “sim” continuavam a acumular-se. À uma da manhã, relembra Matthews, a iniciativa estava a ganhar por mais de dois pontos percentuais. Então, decidiu dar a noite por encerrada e voltar para casa, alimentando uma pequena esperança: ainda havia 40 mil votos por contar. “Temos esperança”, disse Matthews à VICE na madrugada de quarta-feira. “Continuamos a acreditar no 'sim'”.

E ele tinha razão. A enervante contagem chegou a uma conclusão. E boa. A Iniciativa 301, que procurava descriminalizar a posse e o consumo de cogumelos para maiores de 21 anos, tornando-os na menor prioridade para as autoridades e bloqueando sanções, foi aprovada por pouco. Segundo o website do município, foram 50,6% dos votos, com 89.320 a favor e 87.341 contra.

Agora, diz Matthews, a primeira tarefa é montar um painel de avaliação “para abordar e reportar os efeitos da decisão”. A Câmara tem até Dezembro de 2019 para resolver a questão juntamente com ele e Matthews está a preparar-se para trabalhar com o Departamento de Justiça – cogumelos psicadélicos ainda são muito ilegais perante a lei estadual e federal – além de oficiais da cidade e autoridades policiais para lhes fornecer qualquer informação que seja necessária. “Farei lobby na cidade de Denver e no condado”, disse na madrugada de quarta. E acrescentou: “Provavelmente, começo amanhã”.

Enquanto ex-cadete de West Point dispensado com honra, Matthews lida com depressão, especialmente depois de ter visto a trajectória da sua vida mudar quando o exército deixou de ser uma opção viável. Depois de uma experiência particularmente benéfica com cogumelos, começou uma campanha de base para descriminalizar a psilocibina em Denver. A sua medida, segundo o Denver Post, “provavelmente acabou por vencer, porque os jovens eleitores tendem a decidir ir às urnas mais perto ou no dia final das votações, mesmo que todos os eleitores registados tenham recebido as suas cédulas pelo correio três semanas antes”.

A psilocibina está a começar a infiltrar-se na consciência do público como uma substância séria. Em Outubro passado, a FDA concedeu à terapia com psilocibina o status de “terapia revolucionária”, depois de instituições académicas terem obtido resultados promissores em tratamentos psicológicos para condições quer de depressão quer de transtorno de stress pós-traumático, com o o maior corpo de investigação a ser apoiado por líderes empresariais com credibilidade mainstream. O sucesso em Denver pode ter sido um teste, um triunfo que quase tropeçou na linha de chegada ao último segundo, mas uma vitória é uma vitória: Matthews conseguiu o que ninguém na história tinha conseguido antes, abriu um precedente de descriminalização para o resto dos EUA.

“Estamos a estudar a psilocibina pelas suas potenciais aplicações terapêuticas, que parecem consideráveis, se utilizada sabiamente e com cuidado”, explica Charles Grob, professor de psiquiatria e ciências biocomportamentais da UCLA, que investiga psilocibina para pacientes terminais com cancro. “O que há de tão interessante no modelo de tratamento com psilocibina é que a população de pacientes que pode responder melhor à substância é aquela que não responde bem a tratamentos convencionais”, acrescenta, referindo-se a problemas de abuso de substâncias e transtorno obsessivo-compulsivo.


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Levar essa escolha às urnas foi apenas o primeiro passo – aprovar a descriminalização foi o segundo. Matthews já estava feliz apenas por criar condições para este tipo de diálogo, mas agora abriu caminho para iniciativas de referendo semelhantes em 2020, como no Oregon, onde a secretaria estadual aprovou a linguagem para uma iniciativa de referendo em Dezembro passado e na Califórnia, onde activistas ainda estão no processo de aperfeiçoamento dessa mesma linguagem legal.

“Para todos os efeitos, foram quatro meses que resultaram numa divisão de aproximadamente 50/50 numa questão que nunca tinha sido votada”, realça Noah Potter, advogado de Nova Iorque e especialista em reforma de drogas, que fundou e gere o blog New Amsterdam Psychedelic Law, é também o director-geral da Marcha da Canábis de Nova Iorque e presidente do Comité de Drogas e Lei da Ordem dos Advogados de Nova Iorque. Matthews abordou Potter para o ajudar a aperfeiçoar a linguagem da iniciativa, depois de, inicialmente, não ter conseguido a aprovação do Conselho Eleitoral de Denver.

“[Tudo isso] vai encorajar organizadores e ajudá-los a recrutar pessoas e juntar dinheiro”, disse Potter mais tarde. E acrescentou: “A reforma psicadélica é, agora, legítima e credível. E vai moldar o fundo para toda a cobertura dos media para essas iniciativas. E pode criar a oportunidade de se envolverem em coberturas mais profundas e abrangentes de todas as questões relacionadas com drogas, já que esta acção eleitoral veio do nada e estava fora das redes”.

Esse foi o principal argumento enfatizado por Matthews e Potter: o impulso que a causa foi ganhando. Eles também tinham esperança, porque não havia oposição particularmente aberta ou organizada para a campanha – fora o actual presidente da câmara, Michael Hannock e Beth McCann, promotora de Denver, cujo porta-voz disse por e-mail que ela não apoiou a campanha, porque a cidade “está nos primeiros estágios da legalização da erva e porque isso poderia tornar Denver um íman para aqueles que querem usar psilocibina”, mas que, no entanto, apoiava “a iniciativa de formar um comité para estudar os efeitos”.

“Acho que não houve muita oposição porque a psilocibina não tem um grande papel no sistema de justiça criminal”, explica Jag Davies, director de comunicação da organização pró-reforma Drug Policy Alliance (segundo o Washington Post: “A polícia de Denver prendeu 50 pessoas nos últimos três anos por venda ou posse de cogumelos e a promotoria só processou 11 dos casos”).

Independentemente disso, Matthews estabeleceu um caminho para o futuro – e o resto do país estará a observá-lo, à sua cidade e aos membros da Denver Psilocybin Initiative, enquanto implementam parâmetros e informam o público dos benefícios e melhores procedimentos. Mais importante ainda, vamos observá-los para entender como energizar um grupo de pessoas ao redor de uma ideia que há décadas era estigmatizada. Investigações sobre a iniciativa do Oregon mostraram resultados promissores em Janeiro, com 47 por cento dos eleitores a dizerem que votariam “sim” ou que “tendiam para o sim” e 46 por cento a dizerem “não” ou a “tenderem para o não” – o resultado em Denver pode muito bem impulsionar esses resultados.

“O que conquistámos aqui em Denver representa um sinal claro para o resto do país: os norte-americanos estão prontos para uma conversa mais alargada sobre psilocibina”, garante Matthews. E conclui: “E ninguém merece ser criminalizado por posse ou consumo. Agora, temos a oportunidade de continuar esse diálogo e educar as pessoas. Estamos apenas a começar”.


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