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Drogas

Xamãs fajutos podem causar sua morte

Conversamos com o Robert Tindall, especialista em ayahuasca e autor de dois livros sobre xamanismo, que nos explicou os benefícios da bebida sacramental e a melhor maneira de ingeri-la.
6.5.14

Semana retrasada, Henry Miller – um estudante de 19 anos de Bristol, Inglaterra – morreu na Colômbia depois de participar de uma cerimônia xamânica. Os jornais informaram que ele morreu depois de tomar uma droga chamada iagê, que, na verdade, é só outro nome para a ayahuasca, uma planta que – entre as tribos da América Latina – é misturada com outra planta chamada chacruna e usada em rituais xamânicos por suas supostas propriedades de cura.

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As narrações da experiência com a droga variam. Algumas pessoas dizem se tratar da coisa mais transcendental que já experimentaram. Outras vão dizer que foi um vomitório prolongado e vagamente alucinatório.

No entanto, um elemento muito sinistro da indústria do turismo da ayahuasca atingiu um ápice, com muitos jovens estrangeiros que vão para a América do Sul para se chapar. Segundo uma matéria da Motherboard do ano passado, "pseudoxamãs" – oportunistas que fizeram um curso rápido de como preparar ayahuasca – começaram a operar no Peru, oferecendo doses exorbitantes e muito perigosas para ganhar dinheiro rápido. Ao escrever para o Men's Journal, o jornalista Kelly Hearn informou que desde 2011 dois peregrinos franceses e um californiano de 18 anos morreram em sessões de ayahuasca, e uma alemã teria sido espancada e estuprada por dois homens que lhe deram a droga.

Tentando descobrir um pouco mais, conversei com Robert Tindall, especialista em ayahuasca e autor de dois livros sobre xamanismo, The Jaguar That Roams the Mind e The Shamanic Odyssey: Homer, Tolkien, and the Visionary Experience.

VICE: Oi, Robert. Primeiro, você ouviu falar sobre o estudante britânico que morreu na Colômbia? As pessoas em geral não se dão conta de que a ayahuasca é perigosa, certo?
Robert Tindall: Pelo que li na internet, o rapaz provavelmente tomou uma mistura contendo toé, um membro da família datura. É um alucinógeno muito potente.

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Você usaria toé em uma sessão de ayahuasca?
De jeito nenhum. Você pode nunca mais voltar. [Na Europa temos] mandrágora, meimendro, beladona – todas essas plantas da tradição das bruxas medievais. São coisas muito poderosas.

Por que os turistas estão sendo vítimas desses pseudoxamãs?
Costumava levar 20 anos para um aprendiz se tornar xamã, mas agora as pessoas se declaram xamãs em dois ou três anos. Não há um controle de qualidade – não existe um conhecimento da linhagem – os turistas veem "retiro amazônico" na internet e nem passa pela cabeça deles perguntar quem é o xamã, qual é a linhagem dele, se ele tem recomendações… Parece uma mentalidade Disneylândia. É pedir por um desastre. Com todas essas pessoas ingênuas chegando com dinheiro, houve uma explosão de centros xamânicos com gente fazendo misturas de níveis muito diferentes de qualidade. As pessoas vão continuar morrendo enquanto isso continuar.

Qual é a maneira certa de tomar a ayahuasca?
Fazemos longas entrevistas com as pessoas antes de levá-las para a Amazônia [para os retiros amazônicos]; analisamos o histórico médico delas, trabalhamos com elas no processo de cura. Nós as levamos para lá para trabalhar em sua cura com os vegetalistas [xamãs que usam plantas para curar]. Se a ayahuasca for boa para o processo de cura delas, aí elas podem beber a droga – mas se não vai ajudar, elas não bebem. Nós as acompanhamos no caminho de volta, essa é a nossa obrigação.

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O que realmente acontece num ritual?
Todo mundo senta num círculo. Começamos com orações, depois as pessoas bebem a mistura; elas se sentam de novo e todo mundo começa a cantar e, em algum momento, as pessoas vão começar a ter visões. Se tudo vai bem, o xamã vai dirigir a cerimônia para que todos tenham boas visões. Depois, o xamã e seu assistente vão levar todo mundo para fora e todos vão dormir e ter sonhos bons.

Alguns xamãs cantam músicas que podem colocar coisas na psique das pessoas se a mente delas estiver indefesa, ou se você não souber como se defender. Há canções de encantamento que não curam. São canções enfeitiçadas que não libertam. Você só aprende isso depois de participar de sessões do tipo por um bom tempo. Você começa a discernir.

Como saber se uma cerimônia de ayahuasca é genuína ou não?
Na superfície, pode não parecer muito diferente. Leva tempo para discernir o que é real e o que não é. Só de observarmos a maneira como alguém entra na sala e fala sobre o remédio – ou como elas se apresentam – já sabemos se elas são legítimas ou não.

Quantas vezes você já tomou ayahuasca?
Quantas vezes? Tantas que perdi a conta anos atrás. Agora vejo isso como um adaptógeno – que ajuda a se adaptar às condições da evolução, que estão em constante mudança. Isso deixa você preparado. Cresci nas ruas da Califórnia, e tive questões sérias de vício e muitos problemas com a minha família, e a ayahuasca me ajudou tremendamente a superar isso. Sou um homem diferente depois de usar a planta por dez anos como planta aliada.

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Você cresceu nas ruas?
Sim, minha mãe teve que me deixar num orfanato quando eu tinha nove anos. Minha vida de classe média se despedaçou e eu caí na criminalidade. Com 15 anos, eu bebia tanto que acordei várias vezes na cadeia sem lembrar como tinha chegado lá. Eu queria me matar com o álcool. Eu não tinha família. Não tinha razão para viver. Mas tive uma experiência abençoada com cogumelos psicodélicos aqui na Califórnia, o que quebrou meu vício no álcool quando eu tinha 16 e salvou minha vida.

Eu estava numa festa e todos os meus amigos estavam deitados no chão, viajando com Jimi Hendrix, e eu estava na porta com uma garrafa de bebida na mão. Eu tive um flash de repente e disse para todos: "Esse sou eu, o cara olhando de fora". Vi naquele momento que ia morrer na sarjeta, que eu estava perfeitamente contente com isso. Então, umas duas semanas depois, percebi que tinha perdido a necessidade de ficar seriamente bêbado. O elemento suicida desapareceu.

Como foi a primeira vez que você tomou ayahuasca?
Descobri a ayahuasca no final dos meus 30 anos, e eu já tinha feito muitos anos de treinamento zen budista naquele ponto. Na verdade, a psicodelia me levou ao budismo. Entrei num templo zen quanto tinha 19 anos e treinei para ser monge com muita sinceridade. Eu estava preparado. Eu tinha feito anos de meditação. Também tinha feito muita terapia, então, minha alma estava à beira da comunhão com a sabedoria dessa planta.

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A primeira vez foi num lugar numa montanha da Califórnia. Um xamã peruano estava lá. O cara era louco de pedra, mas a sorte estava comigo naquele dia. Eu nunca mais beberia com aquele cara. Ele era louco.

O que você sentiu quando a ayahuasca fez efeito?
Acho que o que as pessoas experimentam em geral é um tipo de sonho desperto, e o que acontece é que você passa por um tipo de limiar onde pode ter sonhos incomuns, pode ouvir algo, pode ver padrões geométricos. Você pode ouvir uma canção que captura. Você não sabe exatamente o que pode acontecer. E então você se vê num estado visionário profundo, e o que você encontra aí é como não saber o que você vai sonhar hoje quando for dormir – é a mesma coisa com a ayahuasca.

Você pode preparar as intenções para uma cerimônia. Você pode criar condições sob as quais a cura vai acontecer. Há muitas coisas que você pode fazer, mas quando você entra no reino visionário, é sempre um mistério; é sempre maravilhoso. Essa noite em particular, experimentei ser transformado numa onça. Para mim, mesmo agora, posso estar na cerimônia e de repente fazer a metamorfose, vou estar sentado ali e meu crânio vai se tornar felino – consigo sentir que meus olhos são os de um gato e que tenho a mente de um gato.

Você se transforma num gato? Isso é bem bizarro. É uma experiência normal?
Transformar-se em outros animais, outras plantas e outros seres é uma experiência comum com a ayahuasca. O que eu precisava fazer passar pela casca do meu ego naquele ponto era um fluxo poderoso de energia e, caramba, aquela onça fez exatamente isso. A ayahuasca parece gostar de jiboias e onças. Algumas pessoas podem experimentar virar uma onça e entrar na floresta e ver como é lá. As pessoas realmente se aventuram – elas saem e descobrem coisas na floresta as quais não sabiam antes.

E quais são os benefícios de beber ayahuasca de maneira correta? Além de se transformar numa onça.
Há coisas nesse remédio que são melhores de lidar do que com a medicina tecnológica ocidental, e podemos realmente nos beneficiar de uma boa relação com isso. Mas enquanto tratarmos somente como a droga da moda, estamos indo pelo mesmo caminho que o LSD. Estamos só começando a nos recuperar da repressão draconiana ao uso do LSD, que também é um agente terapêutico incrível. O que está acontecendo é muito preocupante, e não fiquei surpreso ao ouvir a história desse rapaz.

É uma planta maravilhosa, mas estamos começando a abordar isso como uma simples droga.

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