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Por que os Haters Precisam Deixar o Ricardo Villalobos em Paz

O Salvador Dali da música eletrônica sabe o que faz e a galera que se dedica à falação nas redes deveria, talvez, ouvir mais gypsy folk em festivais de techno.

O título do clipe era "Ricardo Villalobos FAIL (tipo Ricardo Villalobos manda muito mal, na tradução literal) durante encerramento do Sonus Festival 2015". Eu não fui atrás disso. O vídeo estava bem ali na coluna à direita da página do Youtube, tentando chamar minha atenção enquanto eu assistia ao brilhante set 100% analógico do Surgeon no festival Dekmantel. Por que cargas d'água o Google resolveu sugerir um "fail" depois desse vídeo épico é algo que só os entendedores de algoritmos poderão esclarecer, mas eu caí feito um patinho. Apertei o play e comecei a assistir ao famoso DJ esotérico finalizando seu set durante o nascer do Sol num evento croata com um exemplar do estonteante som do sérvio Saban Bajramovic que sempre será lembrado por "King of Roma music". Um violino sombrio deu o tom à voz pesarosa do cantor enquanto os ravers se balançavam bem de boa e davam as boas-vindas ao amanhecer.

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Obviamente, nem todo mundo curtiria este frágil desfecho; é quase possível ouvir o ranger dos dentes da plateia por cima do dedilhado suave da guitarra. No entanto, é triste pensar que um tributo artístico inspirado no legado dessa nação insular — que remete a um tempo anterior ao país se tornar um destino para turistas apaixonados por techno — incitaria uma reação tão dura. Então, afinal, o que está pegando?

Hoje em dia, a Croácia está a centenas de quilômetros da Sérvia, o que pode explicar as críticas ao Ricardo Villalobos feitas por um expert da música da região do Mar Negro. Mas a música do Bajramovic é querida por todos os Bálcãs e, de qualquer forma, o hater anônimo que postou isso — e cujo os outros vídeos do seu canal do Youtube são basicamente filmagens feitas da plateia em enormes festivais de techno ao redor da Europa — não deixa claro que ele conhecia a faixa original. Claramente essa pessoa não está ligada dos paranauês da música folk bálcã. É triste pensar que o público se tornou tão quadrado em relação a música que qualquer artefato musical que saia do espectro de house e techno é imediatamente rejeitado.

Veja um Vídeo do Ricardo Villalobos Irritando um Festival Inteiro na Inglaterra

O Villalobos, obviamente, sempre foi um para-raios desse tipo de trollagem, até mesmo na cena presumidamente "considerada" underground. Enquanto maior bad boy do techno, a reputação do Ricardo por se manter acordado durante horas seguidas e consumir quantidades exorbitantes de intoxicantes fez com que ele se tornasse um anti-herói entre as personas públicas dos DJs mais almofadinha do rolê — basicamente o Keith Richards da geração das drogas sintéticas. Mas diferentemente do guitarrista lendário, que dedilha o rife de "Satisfaction" há quase 50 anos, Ricardo nunca teve medo de deixar os hits de lado em prol de uma tracklist mais ousada.

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Essa vontade de testar o gosto musical da plateia ocasionalmente deixou seus fãs exasperados, muitos dos quais, provavelmente, curtem mais a ideia do DJ renegado do que de fato dançar ao som do seu set desafiador. O exemplo "FAIL" mais recente foi o frenesi nas redes sociais que rolou após o seu set no Cocoon In The Park na Inglaterra. Os fãs do Ricardo foram em massa até o Facebook condená-lo, alegando que sua performance era "um horror" e "suicida", e dizendo que ele tinha "acabado com a vibe" depois do Carl Cox ter "quebrado tudo". Um comentário que chamou muita atenção foi o que dizia que ele "tocou aquela faixa imbecil por 15 minutos" enquanto "posava que nem uma fada".

A imprensa musical na internet não deixou por menos — primeiro reportou o fracasso no Facebook, depois divulgou algumas polêmicas, em sua maioria a favor do Villalobos, culpando tudo e todos, desde plateias desinformadas no norte da Inglaterra a má qualidade da programação escalado por promoters responsáveis por misturar no mesmo lineup Villalobos com astros como Coxy e Sven Vath — os queridinhos da plateia.

Ricardo, por sua vez, conhece muito bem esse joguinho. Ele sabe que apesar da sua recusa em participar de atividades online (segundo uma lenda popular, Villalobos não usa e-mail, apesar de as pessoas que eu conversei e que trabalham com ele alegarem que isso é um exagero). Quando em 2006 o DJ chamou a web de "um monstro incontrolável", ele já sabia o quão nociva a internet podia ser para os artistas.

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"A internet tem imagens até do momento em que você está fechando os olhos. Você toca por sete horas seguidas pro cara e ele tira essa foto. Ele estava dançando, curtindo, e tira essa porra dessa foto no momento em que… Óbvio, eu estava suando, mas estou prestes a fechar os olhos e ele tira uma foto nesse exato momento. E então posta essa foto na internet, "Olha como o Ricardo é doidão!".

E ele tem um ponto. Procure por "Ricardo Villalobos" no Google Imagens e você imediatamente encontrará diversas fotos dele superentregue na festa, ensopado, seus olhos caídos ameaçando deslizar para abaixo das suas bochechas. Quantos outros DJs super famosos são assombrados por esses momentos graças à memória implacável da internet? Nós sabemos de vários doidões que estão no mesmo barco que o Ricardo, mas que tiveram a sorte de manter suas trips bem longe das garras das mídias sociais.

Leia: "Dez DJs Old School Falam o que Pensam Sobre o EDM"

Deveríamos sentir pena do Ricardo? Nah. Ele conseguiu sustentar um currículo musical impecável apesar (ou, em parte, por causa de) sua reputação de baladeiro. Ele continua fazendo turnês sem parar, tocando para plateias admiradoras nos melhores clubes e festivais do mundo. O recente relançamento das suas duas faixas inspiradoras, "Dexter" e "Easy Lee", se provaram um motivo de comemoração, enquanto sua produção atual possui um estilo mais aventureiro do que a dos seus chapas de goró. E talvez seja por isso que na seção de comentários do "fail" no Youtube, um usuário anônimo o nomeou o "Salvador Dali da música eletrônica".

Claro, é promissor que quase todos os comentários no clipe FAIL são em defesa do Ricardo, e nas 24 horas desde que comecei a escrever este texto, uma pessoa até destacou a conexão do DJ com a música folk croata. O problema é que poucas pessoas darão play neste clipe, e menos pessoas ainda lerão os comentários. Felizmente, não há nenhuma evidência de que o Ricardo terá qualquer dificuldade em lidar com essa bad vibe online que está a sua espreita. E, eventualmente, talvez, as pessoas se liguem e admitam que provavelmente seria massa ouvir mais gypsy folk em festivais de techno.

Joshua Glazer está no Twitter.

Tradução: Stefania Cannone