Nos museus do futuro o que mais importará é a imersão, não o objeto

Curadores e artistas debatem no SXSW como serão as exposições de arte das próximas décadas.
17.3.17

Os museus são lugares que reúnem objetos e informações que contam parte da história que não conhecemos. São lugares para se conectar com o mundo, buscar inspiração e compartilhar experiências. Mas como serão esses locais num futuro dominado por tecnologias interativas como a inteligência artificial, realidade virtual e aumentada? E como mantê-los interessantes para visitantes familiarizados com coisas como chatbots, reconhecimento facial e de voz? O que fará os espectadores se deslocarem a um local de exposição? Aliás, eles sairão de casa para ver uma exposição ou farão isso tranquilões no sofá de casa?

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São perguntas complicadas de responder com precisão, claro, mas há algumas pistas. Em uma palestra sobre o tema no SXSW, nos EUA, as curadoras Karen Wong, do New Museum de Nova York, e Hélene Alonso e Vivian Trakinski,do American Museum of Natural History, concordaram que os museus que veremos daqui uns anos será necessário a transição do foco: em vez de priorizar o objeto, privilegiarão a imersão. Sim: deixarão de lado a tela retangular e usarão os ambientes dos museus como telas onde o visitante é o protagonista.

Parece futurista demais? Não é. No planetário de NYC, por exemplo, as imagens do universo projetadas no domo são representações que usam inteligência artificial para interpretar visualmente dados matemáticos recebidos de agências espaciais, de universidades, do Google e da comunidade. A imersão, afinal, não tem a ver somente com a criação de ambientes interativos, mas também com comunidades que trabalham de forma colaborativa e com crossplataforma para gerar os conteúdos desses espaços.

Hélene, diretora de experiências digitais do AMNH, mostrou outros exemplos de instalações em realidade aumentada e mixed reality, misturando espaços físicos e digitais. Artistas como Ian Cheng, Takeshi Murata, Cecile B. Evans estão fazendo instalações trabalhando com AR, mapping, sensores de kinect, o Tilt Brush e outras ferramentas para embedar o mundo digital no físico. Como Hélene mesmo disse, é muito mais divertido aprender sobre dinossauros voando com eles do que vendo fósseis em caixas de vidro. E é muito mais legal aprender sobre o corpo humano interagindo com ele via plataformas digitais, como vemos abaixo.

Além de trazerem novas experiências para os museus, essas ferramentas também abrem um mundo novo para artistas que usam a tecnologia para criar experiências inusitadas. A suíça Pipilotti Rist tem criado instalações disruptivas ao mesclar diversas formas de projeção, visualização e principalmente interação com objetos, como é possível ver em sua floresta de pixels. Já o chinês Akinoro Goto criou um balé misturando impressão 3D e projeção mapeada

As curadoras também ressaltaram que a idéia não é usar a tecnologia por ela mesma. O lance é ter cuidado para que ela complemente a experiência e não distraia os visitantes. O grande desafio, disseram, será integrar tecnologia ao conteúdo, sem que isso aconteça de maneira gratuita ou como um modismo.

Claro que não sabemos exatamente como serão os museus do futuro. O que parece, por ora, é que estamos vivendo o momento onde está sendo quebrada a barreira entre ciência, arte e tecnologia. Num futuro não muito distante, uma nova geração de visitantes de museus talvez não vá mais distinguir o que é um objeto histórico ou o que é uma representação virtual dele. Veremos. E, claro, interagiremos.

Janaina Augustin é diretora do núcleo de inovação Outras Telas, da O2 Filmes, e Ale Pellegrino é diretora da O2 Filmes