
Um dia depois de ser eleito, Pedro Passos Coelho declarava ao país que o governo poderia ir para além da troika. Dito e feito. O executivo cumpriu a promessa e, de forma a emagrecer o Estado, cortou em quase tudo o que havia para cortar. Um ano depois, poucos seriam os sectores da sociedade que não estariam descontentes. A questão é que o governo nunca pareceu saber ler o descontentamento que alastrava. Com a vinda da troika para Portugal (e com a austeridade só a começar), os activistas ganharam novo fôlego e, depois de aprenderem com os erros de algumas experiências passadas (Movimento 12 de Março, 15 de Outubro, entre outras), decidiram contribuir com uma solução para a ainda actual “emergência nacional”.
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De facto, não existe um enredo único na história deste QSLT. Ainda assim, existem diversas pistas que definem os contornos deste movimento. Duas delas, fundamentais e que permitem conhecer, entre outras coisas, aqueles que coordenam o movimento. Esses dois momentos passam pelo momento do alargamento que se seguiu à manifestação do de 15 de Setembro (e que fez com que o grupo passasse de 29 pessoas para 130) e pelo uso do consenso como base de discussão e tomada de decisão. Depois da manifestação de dia 15, e embora a ideia original do movimento tenha passado “exclusivamente pela criação da manifestação”, o grupo voltou a reunir na segunda-feira seguinte para decidir sobre o futuro do QSLT. Na altura, quase todos os activistas defenderam que o grupo não poderia ficar por ali, até porque o colectivo já se tinha comprometido com a Greve Geral de 14 de Novembro (ainda que tal apoio não tivesse sido discutido nas reuniões) e porque, além disso, já tinha sido marcada uma acção para o Conselho de Estado. A partir deste momento, o grupo passaria a ser gerido “acção a acção”, como pudemos ver pela manifestação no Conselho de Estado seguinte e pela manifestação cultural do dia 13 de Outubro, ideia do cantor/actor Carlos Mendes.
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Que não restem dúvidas, existem diversas condicionantes no QSLT e membros que procuram exercer a sua influência no seio do grupo através de alianças flutuantes e desconfianças permanentes. A partir de diversos momentos podemos concluí-lo: na origem do grupo, no alargamento que trouxe uma sobreposição de “sensibilidades” e um reforço dos mesmos sectores, a tentativa de criação de uma comissão política essencialmente ocupada por militantes e simpatizantes do PCP, o reflexo das divergências internas no seio dos próprios partidos. Aliás, o próprio BE não constitui, neste momento, um bloco sólido no QSLT. Dar o (enorme) salto e assumir que estas condicionantes partem de elementos que obedecem a indicações partidárias, parece, depois de tudo o que já se disse, uma acusação preguiçosa e altamente improvável. Não é possível acreditarmos que o movimento não é mais que meia-dúzia de elementos que funcionam como antenas partidárias e que cooptam os restantes elementos, fazendo com que cada um deles abdique da sua identidade e crítica individual. Mais interessante do que nos limitarmos a uma perspectiva unidirecional destes condicionamentos partidários, seria apurar até que ponto esses mesmos condicionalismos não partirão dos próprios elementos do QSLT, sobretudo para solicitar o apelo às manifestações nos órgãos de comunicação social nas vésperas e nos rescaldos das manifestações.Num grupo que João Camargo define como sendo “extremamente ligeiro, objectivo e sem exigências com os seus signatários, com a abertura total para quem queira participar, com a maior intensidade do mundo ou só participar”, é normal que a colagem à instrumentalização partidária se faça desde cedo. No fundo, é esta defesa pela horizontalidade que tem permitido que a organização seja flexível na execução dos eventos e limitada no discurso que apresenta, deixando assim a descoberto que o maior problema do grupo é a indefinição do mesmo. Esta indefinição (parcialmente aceite por todos até 15 de Setembro) é o sinal mais óbvio do tipo de esforço a que este grupo está sujeito. Nesta senda de unir a esquerda, mediá-la e revesti-la com espontaneidade, tornou-se demasiado óbvio que o QSLT servia apenas para como local de diálogo e acerto de agulhas entre dezenas de tendências. Lugar de onde raramente saíram propostas que fugissem aos três tópicos que os elementos têm como consensuais. No fundo, é daqui que nasce a apresentação de um movimento tendencialmente moderado, mas que na procura de consenso, insiste em integrar os radicais.É por tudo isto que qualquer tese que se queira apresentar sobre um grupo que faz dos acordos tácitos a sua norma e que, entre outras coisas, ainda não decidiu se quer ser um movimento, um colectivo, uma plataforma, um
