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Que se Lixe a Troika: um movimento em negação

O QSLT não nasceu de uma geração espontânea.

Por Rui Marçal
08 Agosto 2013, 4:30pm



CONTEXTO POLÍTICO E A ORIGEM DO QUE SE LIXE A TROIKA
Um dia depois de ser eleito, Pedro Passos Coelho declarava ao país que o governo poderia ir para além da troika. Dito e feito. O executivo cumpriu a promessa e, de forma a emagrecer o Estado, cortou em quase tudo o que havia para cortar. Um ano depois, poucos seriam os sectores da sociedade que não estariam descontentes. A questão é que o governo nunca pareceu saber ler o descontentamento que alastrava. Com a vinda da troika para Portugal (e com a austeridade só a começar), os activistas ganharam novo fôlego e, depois de aprenderem com os erros de algumas experiências passadas (Movimento 12 de Março, 15 de Outubro, entre outras), decidiram contribuir com uma solução para a ainda actual “emergência nacional”.

Quando, em Julho de 2012 — dois meses antes da grande manifestação —, Passos Coelho disse

“que se lixem as eleições, o que interessa é Portugal” estaria longe de imaginar que havia um grupo de activistas a precisar de um nome para a manifestação de Setembro. De facto, a ideia do primeiro-ministro foi reutilizada para criar o slogan “que se lixe a troika, queremos as nossas vidas” (QSLT), que viria a combatê-lo mais tarde. Na primeira semana de Setembro, quando os activistas anunciaram a manifestação do dia 15, as perguntas sobre o que era, afinal, o QSLT foram-se sucedendo, naturalmente. Houve, então, a tentativa de colar o movimento ao Bloco e ao PCP, mas prevaleceu a ideia de que estávamos perante um grupo que se formou “através do contexto político”. Também a comunicação social, de forma mais ou menos acrítica, ia ajudando com ecos dos discursos que insistiam que estávamos perante um grupo de “cidadãos e cidadãs de várias áreas de intervenção e quadrantes políticos”. Isto — e os sucessivos apelos de personalidades — chegou para que o país passasse um cheque em branco a este movimento e saísse à rua, naquela que foi a maior manifestação do pós-25 de Abril.



Actualmente, é mais ou menos claro que o QSLT não nasceu de geração espontânea. Ao contrário daquilo que uma das activistas afirmou no dia 15, a ideia da manifestação de Setembro não partiu de cidadãos de “vários quadrantes políticos”, senão de um sector em particular. Myriam Zaluar, activista do QSLT e dos Precários Inflexíveis (PI) desde 2009, começa por dizer que “os PI estiveram por trás de todas as grandes coisas que se fizeram, inclusivamente por trás da tomada de consciência colectiva de toda a nossa situação”. Sobre o QSLT garante que “não há dúvida nenhum que se não houvesse PI, não havia QSLT”. Também João Camargo, dirigente do Bloco de Esquerda e membro do QSLT e dos PI confirma a ideia, dizendo que “já tinha havido uma ideia nos PI” em Junho. Hoje é sabido que alguns dos convites iniciais que partiram de dentro dos PI foram feitos por pessoas que nunca chegariam a integrar o QSLT. Segundo Myriam “houve, pelo menos, um [elemento dos PI] que não aceitou sequer integrar a lista de subscritores da manifestação do dia 15 porque não lhe interessa aparecer” e Tiago Mota Saraiva, militante do PCP, também confirma que foi convidado por “uma pessoa que nunca participou no QSLT por falta de tempo”.

De acordo com Myriam Zaluar, a ideia de uma manifestação em Setembro, e os moldes em que seria feita, também foi "esgalhada dentro dos PI". A ideia subjacente a tudo isto era “óptima” e passava incluir na organização um grupo que não pudesse ser associado a nenhum partido ou organização, um grupo com “pessoas que não fossem muito conhecidas ou mesmo completamente desconhecidas”. A estratégia consistia em “misturar algumas pessoas com mais perfil com [activistas] anónimos” para que se “conseguisse mobilizar muito mais gente do que uma organização” e nisso os PI “acertaram em cheio”, confessa. Assim, a formação a quem, muitas vezes, se atribui a origem do movimento — Marco Marques, Myriam Zaluar, Magda Alves (membros dos PI) e Tiago Mota Saraiva (militante do PCP) — foi, no fundo, uma segunda vaga de activistas que, dali em diante, ficaram encarregados (teoricamente sem dependências anteriores) de coordenar o movimento e de alargá-lo até chegar ao grupo dos 29 elementos que viemos a conhecer na manif do dia 15.



Segundo João Camargo e Tiago Mota Saraiva, a primeira reunião do grupo fora dos PI, contou com três dos quatro membros (Marco, Myriam e Magda), e deu-se em meados de Junho do ano passado, no quintal de uma das activistas. Segundo Myriam, foi nessa reunião que “foi apresentada a ideia de uma grande manifestação”, tendo também sido reiterada “a necessidade de que fossem pessoas individuais a convocar e não um colectivo ou uma associação”. A data ficou definida nesse dia, porque “era a data mais lógica e era a data em que se pensava coincidir com a apresentação de um primeiro pacote de medidas do pré-orçamento de Estado. Acertaram em cheio. Além disso, “1 de Setembro seria muito cedo, 7 e 8 de Setembro era o [fim-de-semana do] Avante e pronto, foi na semana a seguir e foi brilhante”. João Camargo confirma que a estratégia do grupo foi sempre a manifestação, acrescentando que a escolha da data tem em conta momentos em que a “clivagem social é máxima”, potenciando, assim, um “momento de ruptura” no país. De modo a desenhar o grupo, as reuniões entre os elementos sucederam-se daí para a frente. A meio de Agosto, João Camargo veio a integrar o grupo dos quatro para o coordenar, pouco dias antes da reunião que viria a ditar o primeiro alargamento do movimento. Segundo o próprio, a sua entrada deu-se em “substituição” de Marco Marques que, por motivos pessoais, teve de abandonar o QSLT, mas que, até então, tinha sido o elemento que estava “encarregue de articular mais as coisas”.

A partir da coordenação de João Camargo, o alargamento do QSLT passou a ser uma prioridade. No dia 25 de Agosto, reuniram-se cerca de dez activistas no Largo Camões, numa reunião que para dar a conhecer aos restantes elementos o projecto, aprovar o lema da manifestação e rever o texto do QSLT. Em rigor, o grupo dos 29 teve 28 subscritores da manifestação, uma vez que Tiago Mota Saraiva, um dos quatro elementos “iniciais” não aceitou subscrever uma manifestação sobre a qual a data não estaria à discussão. O mesmo activista manteve-se como apoiante e voltaria a ser reintegrado logo após a dita manifestação. Na preparação da primeira manif, o QSLT viveu, sobretudo, de um trabalho voluntarioso feito por uma estrutura muito reduzida de activistas (metade dos 28 activistas subscritores tiveram uma participação activa) e, para as questões logísticas, tiveram o do apoio dos PI.

Segundo Mariana Avelãs, ex-integrante do movimento, até à manifestação de dia 15, as reuniões eram feitas pelo menos “uma vez por semana, se necessário mais, quase sempre no [café] Império”, com base numa

mailing list

restrita e com muito do apoio logístico a ser feito pelos PI. De acordo com Ana Nicolau, outra das integrantes do grupo dos 29, até ao dia 15 de Setembro, quase “todos participavam em tudo o que podiam participar, sendo que os contactos de imprensa foram sempre geridos pelo Nuno [Ramos de Almeida] e pelo Marco [Marques]”.



PÓS-MANIF E O PRIMEIRO ALARGAMENTO
De facto, não existe um enredo único na história deste QSLT. Ainda assim, existem diversas pistas que definem os contornos deste movimento. Duas delas, fundamentais e que permitem conhecer, entre outras coisas, aqueles que coordenam o movimento. Esses dois momentos passam pelo momento do alargamento que se seguiu à manifestação do de 15 de Setembro (e que fez com que o grupo passasse de 29 pessoas para 130) e pelo uso do consenso como base de discussão e tomada de decisão. Depois da manifestação de dia 15, e embora a ideia original do movimento tenha passado “exclusivamente pela criação da manifestação”, o grupo voltou a reunir na segunda-feira seguinte para decidir sobre o futuro do QSLT. Na altura, quase todos os activistas defenderam que o grupo não poderia ficar por ali, até porque o colectivo já se tinha comprometido com a Greve Geral de 14 de Novembro (ainda que tal apoio não tivesse sido discutido nas reuniões) e porque, além disso, já tinha sido marcada uma acção para o Conselho de Estado. A partir deste momento, o grupo passaria a ser gerido “acção a acção”, como pudemos ver pela manifestação no Conselho de Estado seguinte e pela manifestação cultural do dia 13 de Outubro, ideia do cantor/actor Carlos Mendes.

Foi em Dezembro que o grupo dos 29 decidiu que era preciso integrar formalmente esta “malta da cultura”, como eram chamados, e outros elementos, de forma a alargar a estrutura a activistas de outros sectores dispersos. Segundo Nuno Ramos de Almeida, o alargamento foi feito com a intenção de alcançar três objectivos: chegar a todos os sectores, haver mais gente a trabalhar e não ter protagonistas, mas facilitadores. A estes três objectivos, parece claro que a necessidade de legitimação continuava pendente, tanto para a opinião pública (que continuava sem saber o que era ao certo o QSLT), como pelos sectores de menor expressão do activismo político que exigiam, cada vez mais, a integração no movimento e a sua transparência. Assim, a juntar à “malta da cultura”, foram integrados novos elementos do PCP e do BE, reforçando, assim ,as posições dominantes que já detinham nos 29, bem como elementos de outras plataformas como o SPGL [Sindicato de Professores da Grande Lisboa], dos PI, dos Artigos 21º e 74º (normalmente próximos dos mesmos partidos) e de outros sectores, que acabariam por ter uma participação minoritária de apenas um ou dois elementos, como os Indignados, o MAS, a Rubra, movimentos LGBT, APRE, Sindicato dos Estivadores, entre outros. Todos os activistas foram escolhidos pelos próprios 29 membros, tendo sido vetados alguns dos elementos propostos, por diversos motivos, mas sobretudo com base em experiências (e desavenças) políticas e pessoais anteriores.

A entrada de cem novos elementos permitiria, julgou-se, apresentar uma imagem democrática e unitária do movimento, contrariando, assim, a ideia de protagonismos individuais, que segundo Nuno Ramos de Almeida, “poderiam ser activados facilmente numa estrutura de 30 pessoas, mas que, no fundo, tinha apenas 15 activas”. Essa ambição nunca foi efectivamente concretizada, por um lado porque o alargamento não alterou significativamente as facções já existentes dentro do QSLT e, por outro, porque a integração foi feita através de participações de um, dois elementos, condicionando a estrutura a manter-se numa mesma zona de conforto. Como a transparência não passa pela integração de activistas em massa, o fenómeno a que assistimos acabou por não surpreender e resultar no efeito inverso daquele que seria o desejado. Foi, de facto, com uma estrutura maior que se revelaram os sub-grupos existentes no QSLT e as individualidades que de alguma forma os influenciavam.





Como seria de esperar, nesta transição para 130 elementos, foram surgindo queixas por parte dos sectores minoritários. As queixas de um “abraço do urso” são recorrentes. Segundo alguns elementos críticos, existe dentro do QSLT, uma estratégia que pretende comprometer alguns sectores, mantendo-os minoritários e dando-lhes também uma visibilidade mediática praticamente nula. Um dos activistas que esteve presente nos grupos de trabalho e que prefere não ser identificado, deixa a acusação de que “há toda uma cena de hipocrisia ali”. "É incrível, dizem sempre que não há grupos e que somos todos indivíduos, mas nas reuniões a que fomos, nós éramos sempre tratados como grupo." Para Mariana Avelãs, “o alargamento manteve todas as tensões existentes e até as ampliou, criando uma relação de forças inversas” porque “se, no início, os PI estavam em força, com uma coordenação do Camargo, surgiu, depois do alargamento, uma aliança composta por um grupo de pessoas afectas ao PC e influenciadas sobretudo pelo Nuno [Ramos de Almeida], mas também pelo Tiago [Mota Saraiva]”. Também o debate pela procura do consenso acabou por ter um papel muito importante dentro do movimento. Nuno Ramos de Almeida defende a importância da inscrição de todos nas propostas para que haja “uma base de entendimento comum”, mas, como veremos a seguir, é nesta busca por um consenso a larga escala que se encontram algumas das soluções e alguns dos problemas que se verificam no seio do grupo.

Luís Bernardo, integrante da ATTAC e um dos ex-membros do QSLT, afirma que o que está em causa não é um consenso, mas antes “um unanismo”. Como se verificou, o recurso ao consenso, num grupo desta dimensão e com esta diversidade, acaba por condicionar esse mesmo grupo às suas figuras mais carismáticas. Segundo o mesmo activista, “não podemos ser ingénuos, o sistema de consensualismo abre um espaço para que pessoas com maior experiência possam tomar posições de liderança, acabando por ocupar mais espaço no debate.” O mesmo activista justifica que isto faz com que haja “vozes que modulam o debate e que se tornam predispostas de liderança”, mesmo que haja “pessoas que assumem posturas muito críticas a respeito das discussões”. Mariana Avelãs concorda e avança que este é um sistema que simplesmente não resulta porque “faz com que os discordantes se afastem e faz com que ninguém saiba o que é decidido, porque cada pessoa interpreta a decisão à sua maneira”.





A maior parte dos activistas reconhece que a existência de facções dentro do QSLT. Apesar de não ser claro o momento em que estes sub-grupos surgiram, Luís Bernardo garante que, em determinada altura, houve “um choque abrupto e agressivo que motivou a faccionalização do grupo, havendo assim uma tendência de polarização entre o [João] Camargo e o [Nuno] Ramos de Almeida.” Nas vésperas da última manifestação, a 1 de Junho, as facções estavam já bem delineadas. Ana Nicolau, realizadora, confirma que “há sectores a tentarem controlar o movimento” e Luís Bernardo define-os.

Para o activista, “há três blocos com uma geometria variável”. Os dois primeiros estão separados pela visão que têm do próprio QSLT. O primeiro bloco terá talvez “uma ideia mais voluntarista do movimento”, sendo constituído por “pessoas que assumem maior protagonismo mediático, especialmente nos eventos, aqueles que andam à roda do João Camargo”. O segundo sub-grupo é diferente e pensa o movimento “partindo de uma visão mais estratégica e isto tem muito que ver com a experiência política” dos seus integrantes, e “onde o Nuno Ramos de Almeida tem um papel de maior importância”. A importância de Nuno Ramos de Almeida dentro do grupo é recorrentemente sussurrada entre os activistas. Um dos activistas que preferiu não se identificar, refere que apesar de nas reuniões a sua “actuação ser cordata e polida”, nota-se pela forma como se eleva “estamos perante um dirigente que, pelo menos, arbitra a coisa”. Por último, Luís Bernando conclui dizendo que, pelo menos até Março, “existiu um terceiro grupo, de pessoas não-alinhadas nem com uns nem com outros”. Falamos de um grupo composto por pessoas que “ou porque têm pouco tempo para o activismo, ou que têm uma visão crítica do movimento”. É no fundo uma “massa heterogénea de pessoas que não estão alinhadas com ninguém e que muitas vezes é sublinhado”. Também Mariana Avelãs confirma a existência destes três blocos e resume as diferenças entre eles pela forma como os grupos olham para o movimento, sendo que “o primeiro bloco se preocupa sobretudo com os resultados e o segundo coloca a tónica no processo”. Como em qualquer assembleia, existem tentativas de condicionar o debate. Vários activistas garantem que já fizeram e já receberam chamadas para no dia seguinte estarem atentos a determinada proposta.





Antes da manifestação de Março, o QSLT era um movimento maior, estruturado virtualmente (através de uma mailing list e de uma plataforma virtual). Apesar de Nuno Ramos de Almeida e Tiago Mota Saraiva insistirem no “amadorismo” do projecto, a verdade é que o movimento que ganhava contornos profissionalizantes, apontando para tarefas específicas mas com método e organização implícitos.

Os plenários eram o último reduto de decisão e contavam muitas vezes com cerca de 50 pessoas. Em teoria, seria dos plenários que partiriam as propostas para os diferentes grupos de trabalho (funcionamento, comunicação, acções, internacionalização e moção de censura) desenvolverem, voltando posteriormente a plenário para serem consensualizadas. Existem contudo algumas excepções aos procedimentos, como é o caso da Grandolada na Assembleia da Republica, dos protestos no RITZ, dos risos que interromperam a apresentação do livro que Vítor Gaspar prefaciou ou, mais recentemente, dos narizes de palhaço no parlamento. As acções-relâmpago são apresentadas ao plenário na generalidade, por uma questão de secretismo, como garante do sucesso do evento, o grupo reúne-se de portas fechadas e atribui um nome de código ao evento. No caso da Grandolada foi “visita à vila”. Apenas alguns elementos conhecem a acção concretamente poucas horas antes da mesma ter início.



QUE SE LIXE A TROIKA COMO UM ENORME GUARDA-CHUVA IDEOLÓGICO
Que não restem dúvidas, existem diversas condicionantes no QSLT e membros que procuram exercer a sua influência no seio do grupo através de alianças flutuantes e desconfianças permanentes. A partir de diversos momentos podemos concluí-lo: na origem do grupo, no alargamento que trouxe uma sobreposição de “sensibilidades” e um reforço dos mesmos sectores, a tentativa de criação de uma comissão política essencialmente ocupada por militantes e simpatizantes do PCP, o reflexo das divergências internas no seio dos próprios partidos. Aliás, o próprio BE não constitui, neste momento, um bloco sólido no QSLT. Dar o (enorme) salto e assumir que estas condicionantes partem de elementos que obedecem a indicações partidárias, parece, depois de tudo o que já se disse, uma acusação preguiçosa e altamente improvável. Não é possível acreditarmos que o movimento não é mais que meia-dúzia de elementos que funcionam como antenas partidárias e que cooptam os restantes elementos, fazendo com que cada um deles abdique da sua identidade e crítica individual. Mais interessante do que nos limitarmos a uma perspectiva unidirecional destes condicionamentos partidários, seria apurar até que ponto esses mesmos condicionalismos não partirão dos próprios elementos do QSLT, sobretudo para solicitar o apelo às manifestações nos órgãos de comunicação social nas vésperas e nos rescaldos das manifestações.

Num grupo que João Camargo define como sendo “extremamente ligeiro, objectivo e sem exigências com os seus signatários, com a abertura total para quem queira participar, com a maior intensidade do mundo ou só participar”, é normal que a colagem à instrumentalização partidária se faça desde cedo. No fundo, é esta defesa pela horizontalidade que tem permitido que a organização seja flexível na execução dos eventos e limitada no discurso que apresenta, deixando assim a descoberto que o maior problema do grupo é a indefinição do mesmo. Esta indefinição (parcialmente aceite por todos até 15 de Setembro) é o sinal mais óbvio do tipo de esforço a que este grupo está sujeito. Nesta senda de unir a esquerda, mediá-la e revesti-la com espontaneidade, tornou-se demasiado óbvio que o QSLT servia apenas para como local de diálogo e acerto de agulhas entre dezenas de tendências. Lugar de onde raramente saíram propostas que fugissem aos três tópicos que os elementos têm como consensuais. No fundo, é daqui que nasce a apresentação de um movimento tendencialmente moderado, mas que na procura de consenso, insiste em integrar os radicais.

É por tudo isto que qualquer tese que se queira apresentar sobre um grupo que faz dos acordos tácitos a sua norma e que, entre outras coisas, ainda não decidiu se quer ser um movimento, um colectivo, uma plataforma, um

OVNI ou como diz o arquitecto Tiago Mota Saraiva, um “grande ombrellone”, isto é, um grande guarda-chuva que ocupa um vasto espaço de mediação das diversas sensibilidades e um potenciador do protesto das massas. Esta parece ser a versão que compreende mais simpatizantes mas que potencia acções de protesto para que partidos como o MAS e outros movimentos mais pequenos, que elogiam a espontaneidade da rua mas que não se importam de a chefiar, possam fazer desvios como aquele a que assistimos no 15 de Setembro.



Em tudo isto, o QSLT tem um mérito, o maior de todos: tanto na manif de 15 de Setembro como na de 2 de Março, o QSLT conseguiu capitalizar o descontentamento nas ruas, fazendo assim com que, pela primeira vez, um governo temesse mais os movimentos sociais que os próprios partidos da oposição. Apesar da divergência de opiniões quanto à forma como esse processo poderá ser gerido, a verdade é que o QSLT tem garantido os serviços mínimos do grupo. Entre tantas esquerdas (com Alegristas à mistura), o QSLT tem conseguido manter uma convergência mínima com base em dois encargos que se nega a deixar cair: a demissão do governo e a saída da troika de Portugal.

Por enquanto, falta saber qual é a verdadeira capacidade de mobilização deste ombrellone, que, é bom que não nos esqueçamos, já conseguiu fazer duas enormes manifestações, mas também uma mão cheia de eventos fracassados. Qual será a real capacidade de mobilização do QSLT para lá dos momentos de clivagem? O que parece certo é que este QSLT terá que lidar muito rapidamente com duas contingências: a necessidade de uma renovação dos seus membros (que não implicará necessariamente um novo alargamento) e a imperiosidade de continuar a mobilizar, sobretudo agora, que o novo executivo ganhou alento e os narizes de palhaço já não bastam como protesto.