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Cultura

O machismo e a pornografia determinam a forma como fazemos sexo

A forma como nos relacionamos sexualmente seria muito diferente se alterássemos o consumo dos produtos culturais que a determinam.

Por Marta Villar
23 Março 2015, 12:18pm

Imagem via Flickr.com/jean_koulev

Este artigo foi originalmente publicado na VICE Espanha.

Sempre se disse que os homens têm mais desejo sexual que as mulheres, que os homens são infiéis por natureza e que os homens têm sempre vontade. Com estas afirmações, o que também se está a dizer, implicitamente, é que as mulheres não têm desejo sexual, têm a capacidade de não ser infiéis (por isso, se cometerem alguma infidelidade, as repercussões serão maiores, já que poderiam, muito bem, controlar-se) e que não têm tanta vontade quanto os homens ou, melhor dizendo, como os homens gostariam que elas tivessem.

O facto de vivermos numa sociedade patriarcal determina, ainda mais, a nossa maneira de viver a sexualidade, não apenas pela prioridade dos interesses e necessidades dos homens, mas também por nos fazerem acreditar que somos diferentes, o que faz com que nos eduquem de maneira distinta. No que diz respeito à sexualidade, também nos ensinam a desejar de forma diferente, segundo o nosso sexo. Para Fina Sanz, doutorada em sexologia, a ideologia dominante acaba por reflectir-se nas vivências corporais desenvolvendo-se, assim, duas grandes maneiras de perceber as sensações, de manifestar o erotismo e de se comportar sexualmente.

Quanto ao erotismo da mulher, a autora fala em globalidade - a capacidade de desfrutar do corpo na sua totalidade. O corpo sente prazer porque é algo que foi desenvolvido durante o processo evolutivo, por exemplo, através das cócegas, ou do toque no cabelo. Por outro lado, a sexualidade dos homens é, basicamente, genital, porque aprenderam a centrar a sua atenção nessa parte do corpo. Existem portanto, dois códigos eróticos.


Vê também: "O primeiro boneco sexual masculino do Mundo"


Para além do papel de homem e de mulher, também nos ensinam o que é desejável e o que não é digno de ser desejado. O nosso desejo está "enclausurado" e há alguns limites bem definidos sobre o que é permitido desejar dentro da "normalidade". Um claro exemplo disso são as parafilias, que nos dizem quando o desejo está alterado ou estragado.

Mas como é que sabemos que um homem tem sempre vontade? O que é realmente isso de "ter vontade"? Por causa deste código erótico centrado nos genitais, muitas vezes esta vontade traduz-se em querer penetração, querer um orgasmo como forma de descarga e libertação de tensões, em procurar o prazer lá em baixo, entre as pernas, e por aí fora. Ou seja, é uma sexualidade centrada nos genitais, tal como manda a pornografia mainstream. E a cena é que, é principalmente através da pornografia que aprendemos a "fazer sexo".

Este tipo de sexualidade que nos vendem e que, claro está, consumimos, está pensada para o homem, mas isto não quer dizer que a mulher não desfrute dos seus genitais. O problema é que não se contempla o outro código erótico, aquele em que a maior parte das mulheres foi educada.

A sexualidade que dita a sociedade patriarcal dá especial atenção à zona genital e, se não compactuas com isso, corres o risco de ficar conhecido por ter um "desejo sexual inibido". Mas, porque carga de água querer romper com a rotina sexual centrada nos genitais e deixar de fazer o habitual porque "já fiz isto mais que mil vezes" não é considerado desejo? E querer conquistar outro corpo, assim à sorte, sem mapa nem destino, não é considerado desejo? Ou, por exemplo, porque é que não podemos querer carícias da cabeça aos pés? O problema está no barómetro com que se mede o desejo que, neste caso, só existe se optarmos pela penetração.

E nem sequer se trata de os homens quererem sempre o mesmo, ou as mulheres só gostarem de beijinhos, miminhos e abraços. Toda a gente precisa de receber e dar afecto, desejar e sentir-se desejada, seduzir, experimentar... Mas educam-nos a uns e outros para que nos sintamos intrinsecamente diferentes e com necessidades distintas. A partir desse papel que nos atribuem, que já determina como devemos comportar-nos e sentirmos, é difícil expressarmo-nos quando sentimos algo impróprio, segundo a condição que nos foi dada. Hoje em dia, o que pensaríamos se um homem dissesse: "Hoje não quero penetração, apetece-me antes uma massagem"? Querendo ou não, isto soa estranho porque, no contexto socio-cultural em que vivemos, ser homem não liga com este tipo de sexualidade.

Alguns dos mecanismos que a sociedade patriarcal utiliza para condicionar o nosso desejo são produtos culturais como a pornografia, as telenovelas ou o cinema. Isto faz-me lembrar o filme alemão "Free Rainer" (2007), em que os índices de audiência da televisão são manipulados para que programas sobre literatura, cultural em geral, ou concursos de pergunta-resposta se tornem os mais populares. E o que se consegue com a população, apesar de exagerado, não deixa de ser interessante: por consumirem este tipo de programas, as pessoas começam a interessar-se por livros ou, por exemplo, a ter conversas e debates filosóficos em cafés. Mas então... o que aconteceria se mudássemos os produtos culturais que condicionam a nossa sexualidade? E, melhor ainda, consegues imaginar como é que a tua sexualidade mudaria?


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