The VICE Interview: a felicidade faz Patti Smith chorar
Entrevista

The VICE Interview: a felicidade faz Patti Smith chorar

A poetisa punk por excelência fala sobre amor, medos, livros, chorar de alegria e como o impacto do clássico 'Horses' nas novas gerações a enche de orgulho.
28 June 2016, 7:30am

Esta entrevista foi originalmente publicada na VICE UK.

Ela é pintora, poeta e punk. É uma contadora de histórias em todos os meios e uma viajante do Mundo. A sua vida criativa - que evoca com detalhes fascinantes nas suas memórias Just Kids e M Train - começou no início dos anos 70 em Nova Iorque, onde trocava a sua arte por uma cama no Chelsea Hotel e convivia com gente como Allen Ginsberg e Thurston Moore. Sobrevivendo numa cidade que, à época, era barata e recebia bem os sonhadores, Patti Smith começou a capturar a energia da sua geração.

Nunca pretendeu fazer um disco, mas o seu álbum de estreia, Horses, é considerado um dos mais importantes do século passado. Desafiadora e andrógena, ela olha para a câmera na imagem da capa do disco, numa fotografia tirada pelo seu amor de juventude, Robert Mapplethorpe. A paixão dela pelo trabalho criativo dos outros e pelo seu próprio é contagiante. Depois de uma temporada calma com a família, felizmente voltou ao activo nos anos 90 e, desde então, tem feito música e digressões. As suas actuações são mais um despertar espiritual colectivo que simples concertos. Revitalizam a alma. Patti Smith é de outro mundo, mas também é a pessoa mais humana possível.

Conversámos antes do recente concerto em Hyde Park, Londres, enquanto ela ainda recuperava do jet lag da viagem de Tóquio para Inglaterra.

Quantos livros leste e acabaste no ano passado? Não vale mentir.
Não consigo responder, porque leio todos os dias. Não sei... pelo menos uns 200? Mas às vezes releio um ou outro livro. Se estou a viajar, procuro livrarias que tenham livros em inglês. Estou feliz de estar em Londres, porque encontro muitas. Ultimamente sinto-me muito atraída pelo escritor francês Patrick Modiano. Fiquei meio presa na atmosfera dele, pelo que acabei por ler todos os seus livros traduzidos para inglês. Estou a reler o Paris Nocturne . Também tenho aqui comigo uma cópia de Wasteland e estou a ler uma biografia sobre Simone Weil, por Francine du Plessix Gray. Quando acabar os meus negócios aqui em Londres, quero apanhar um comboio para Ashford, Kent, para visitar o túmulo de Weil, que morreu lá durante a guerra.

Quantas pessoas já se apaixonaram por ti?
Meu Deus! Seria muito pretensioso fazer essa conta. Tenho tido sorte no amor, mas nunca contei. O meu marido foi o meu grande amor. Conheci-o em 1976 e casámos em 1980. Ficámos juntos até ele morrer, em 1994. E depois há Robert Mapplethorpe, o meu grande amor de juventude. Quando penso em paixão, penso no tipo de paixão mais elevado possível. Amamos todo o género de pessoas com quem nunca nos vamos encontrando: actores, actrizes, ou escritores, porque eles são maravilhosos. Usamos a palavra "amor" de muitas maneiras, mas amar alguém realmente é algo muito profundo.

Patti a tocar na Finlândia via Wikipédia.

Qual foi a vez que tiveste mais medo na tua vida?
Uma vez, o meu marido e eu estávamos numa loja de brinquedos com o nosso filho, que tinha uns três anos. De repente, ele desapareceu. Tipo, muito rápido. Era uma loja bastante grande e procurámos por ele durante cerca de 15 minutos. Naquela época tinham ocorrido alguns raptos em Detroit e uma menina tinha sido assassinada. O horror mútuo que eu e o meu parido experimentámos naqueles 15 minutos foi uma das piores coisas que senti na vida. Mas encontrámo-lo; estava escondido numa tenda infantil. Claro que ficámos radiantes, mas o medo foi terrível.

O segundo maior momento de medo foi quando o avião bateu no World Trade Center. A minha filha, que tinha nove na altura, estava a ir para a escola, não muito longe de lá. Na verdade, eu conseguia ver as Torres de minha casa. Por um momento, tive o medo egoísta de mãe de que algo tivesse acontecido na escola dela. Ou seja, os maiores momentos de medo que passei foram por causa dos meus filhos.

Qual seria a tua última refeição?
Tenho que pensar. Bem, seria um shot de mezcal, ou um café? Acho que o café ganharia, mas a minha última refeição? É difícil porque, sabes, adoro comida. Seria uma coisa muito simples como um spaghetti aglio olio perfeito. Ia gostar disso, sem dúvida.

Alguma vez tiveste um stalker?
Tive um problema com um fã nos anos 70. Eu ia para uma estação de rádio e deixava um livro, ou outra coisa qualquer, numa cadeira e essa pessoa ia lá e roubava-o. Demorou algum tempo até conseguir ligar as coisas. Hoje tenho quase 70 anos, portanto espero não ter um stalker agora! Mas sou uma pessoa aberta e vivo bem livremente. Nunca dei realmente a abertura para esse tipo de atmosfera. Não preciso de guarda-costas. Mesmo quando estava no auge, quando era jovem, tive a sorte de ter uma comunicação constante com o meu público e deixar claro que só queria viver uma vida normal. Queria poder andar na rua e comer o que quisesse.

Que filmes ou programas de televisão te fazem chorar?
Ah, eu choro por tudo e por nada. Choro na maioria dos filmes. O último programa que me fez chorar foi o final de Wallander, uma produção da BBC. Kenneth Branagh como Wallander faz-me chorar. Em quase todos os episódios acabava a chorar. Sou um alvo muito fácil para as lágrimas. Às vezes é apenas um filme que me deixa feliz — em Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton, quando ela no fim diz "Tento acreditar em seis coisas impossíveis antes do pequeno-almoço", chorei! Sabes que choro mais quando as pessoas vencem, do que quando algo triste e trágico acontece. Às vezes até os filmes mais felizes fazem-me chorar, é só ver algum tipo de reunião, ou algo maravilhoso a acontecer com as pessoas, quando o nosso mundo é tão sombrio e complicado. A felicidade faz-me chorar.

Qual é a memória mais forte que tens da escola?
O dia em que percebi que gostava de falar em público. Socialmente era muito tímida e um pouco esquisita, mas quando estávamos a estudar Moby Dick na escola, fiquei tão entediada com a apresentação da professora — acho que era tão óbvio — que ela ficou danada e disse-me que se eu achava que podia fazer melhor, bastava ir para a frente da turma e apresentar o livro. E eu disse "certo". Levantei-me e disse tudo o que sabia sobre Moby Dick, com as minhas próprias palavras. Toda a gente gostou muito mais e eu achei que era uma coisa que conseguia fazer bem. Pensei em ser professora. Não me tornei uma, claro, mas estou sempre a falar em público. Penso muitas vezes naquele dia.

Ainda o ano passado pensei nisso em Glastonbury, porque a multidão era enorme. O Dalai Lama subiu ao palco e eu queria que as pessoas lhe cantassem o "Parabéns a você". Olhei para todas aquelas pessoas, quase 100 mil e quando me sinto um pouco nervosa, penso naquele momento — falar à frente da turma e dizer o que tinha na cabeça. É só falar como se fosse para cada pessoa individualmente e acaba tudo por correr bem. É por isso que aquele momento ficou comigo.

Qual a coisa que fizeste na tua carreira que te deixa mais orgulhosa?
Na nossa última digressão, estávamos na Polónia, olhei para a plateia e estavam lá umas 20 mil pessoas. Estávamos a tocar Horses e, juro-te, 70 por cento do público tinha menos de 25 anos e toda a gente cantou as letras do disco inteiro. Chorei porque isso, para mim, é alguma coisa. Se vais ter orgulho nalguma coisa, tem que ser no facto de conseguires comunicar assim com as novas gerações. Num lugar onde eu nunca tinha estado na vida, ter tanta gente jovem a apoiar o que estávamos a fazer, a dar a sua energia e a receber. Era este tipo de coisas que eu queria quando era jovem. Comunicar directamente com as pessoas, percebes? Isso é algo para se ter orgulho, mais do que um prémio, ou qualquer coisa assim.

Em que teoria da conspiração acreditas?
Teorias da conspiração! Não sou uma pessoa de teorias da conspiração; sou mais alguém que vê o humor estranho de certas coisas que acontecem e que ligam tudo. Às vezes isso faz-me pensar que somos todos vítimas, alegres ou tristes, de um mundo pré-programado, porque quando vejo essas coisas, muito parece já ter sido escrito. A minha ideia de conspiração é tentar saber quanto das nossas vidas é preconcebido e quanto é improvisado. Esse é o tipo de coisas em que penso.

Hoje em dia nem precisamos desenterrar teorias da conspiração, porque há muita coisa errada no Mundo, coisas que os nossos políticos, governos e corporações gostariam que acreditássemos e que são apenas teorias. Mudanças climáticas, poluição, ou pesticidas, como a ordem natural está a ser destruída. O colapso da população de abelhas. Coisas assustadoras que dizem ser apenas conspirações, mas a verdade é que o nosso Mundo está mesmo a mudar e não para melhor.

Segue Hannah Ewens no Twitter.