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Sexo

Colamos em um Bar “Liberal” Só para Mulheres

Com tratamento típico de puteiro e caras mascarados. Tipo o Zorro.
3.9.14

Meu trabalho é bem melhor que o seu.

Era uma quinta-feira e nós (euzinha mais Débora Lopes) resolvemos fazer uma coisa diferente. Desligamos nossos computadores e partimos para uma casa de striptease só para mulheres em Moema. A premissa talvez não fosse muito bacana. Afinal, o bairro costuma abrigar locais cheios de gente desagradável, mas respiramos fundo e pedimos o táxi.

O site da casa prometia um “espaço harmonioso, bem decorado, pessoas bonitas e atrações inconfundíveis”, garantindo que nos sentiríamos “completamente à vontade para estar entre amigas, tricotar, fazer networking, se deliciar com nosso cardápio e drinks, além de ter uma equipe de atendimento altamente treinada para tratá-la com o respeito e carinho que você merece”. Ok, não parece ser tão assustador assim, e me imaginei fazendo networking e dando meu cartão para uma cliente ao mesmo tempo em que um homem com toráx malhado portando uma sunga prateada estivesse roçando na minha cara. Quando o táxi chegou ao local, já estava animadíssima para entrar.

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Perto do que eu tinha imaginado, o espaço estava superarrumadinho. Bar legal, muito sofá pra sentar (para as pessoas – tipo eu – que não dançam bosta nenhuma, é uma vantagem) e tinha até aquele cheiro de desinfetante e de essência de eucalipto pairando no ar, uma fusão muito usada em puteiros tradicionais para esconder o cheiro de porra velha e suor de bêbado. Notei que possivelmente a festa em que estávamos era alugada de um puteiro. Informação que me foi confirmada posteriormente pelo dono da festa.

A única coisa que me incomodou logo de cara foi o EDM meia bomba que explodia nas caixas de som, impossibilitando qualquer conversa civilizada, possível networking com as pessoas e secando minha xereca. Resolvi pedir uma gin tônica.

As funcionárias da porta e do bar eram fofas e isso já me conquista 150%. Quem já trabalhou como barman ou garçonete sabe do que estou falando. Trampar na noite é foda, amigos. Não sei se o tratamento bom veio do fato de sermos jornalistas – mandamos um e-mail antes de ir –, mas mesmo assim agradeço o bom atendimento. Não pagamos a entrada (R$ 60, seco) e ganhamos um dadinho “sexy” de boas-vindas. Fofinhos.

A gin tônica que pedi custava R$ 28. Tentei lembrar a mim mesma que o objetivo do lugar era tirar o máximo possível do meu salário e para não me emocionar com as bebidas. A Débora pediu uma caipirinha e uma batata frita. Em seguida, sentamos em um dos sofás para sacar o que estava acontecendo. Tinha umas 10 ou 15 pessoas, no total.

As mulheres eram bonitas, jovens e parecia que estavam curtindo um happy hour da firma casualmente. Nenhuma parecia assustada com o local, e, pelas risadas, tudo não passava de um grande networking envolvendo homens seminus dançando “Glad You Came” sensualmente perto delas.

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O que realmente interessa: homens. Todos usavam máscaras do tipo Zorro, camiseta preta e vinham até sua mesa se apresentar. A maioria era musculosa e usava o mesmo tipo de cabelo. Como achava que todos eram a mesma pessoa, fiquei confusa e repetia perguntas para o mesmo cara achando que era outro. Somado à minha surdez, o staff sensual da casa deve ter pensado que eu era completamente insana.

Fiz ótimas amizades e muito networking. 

O que diferia o bar onde estávamos de um tradicional clube das mulheres é que não eram apenas apresentações que aconteciam. Rolava um tratamento típico de puteiro: os caras vão até sua mesa para trocar ideia, fazer uma massagem (recebi duas) e estimular você a consumir mais bebida. Achei inteligente. Por mais que isso não seja novidade para ninguém que frequenta puteiros tradicionais, é interessante explorar esse mercado para as mulheres. E também é muito interessante receber uma massagem enquanto você reclama do seu emprego pra sua amiga.

O primeiro cara que veio se apresentar era um mascarado careca chamado Ricardo. Ele logo se revelou o maior mala sem alça que já conheci na vida. Ricardo falava muito de si mesmo, não queria responder diretamente nossas perguntas e ficou grudado na Débora, que, sem graça, tomava uns goles da sua caipirinha.

A Débora Lopes estava realmente desconfortável com o "approach" agressivo do Ricardo. 

Foi nessa noite que  me dei conta de que jornalista é tipo depiladora. Se você fala que é uma, automaticamente vão se abrir e começar a contar a história da vida. O Ricardo fez isso, fazendo também o favor de espantar todos os caras sensuais da nossa mesa. Resolvemos aproveitar seu momento egocêntrico para sugar algumas respostas dele.

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“E se vocês não sentirem tesão por uma mulher?”, perguntei.

“Você me dá tesão. Como eu não sentiria tesão por você?”, Ricardo prontamente nos respondeu.

“Por que você acha que as mulheres vêm aqui?”

“Muitas são carentes, não têm um marido para conversar. Elas querem carinho, se sentir bonitas, e nós damos isso para elas.”

“E rola sexo na salinhas privativas?”

Ah, sim: antes da resposta, vamos conceituar o que é essa tal de “sala privativa”. Basicamente, alguns leilões são realizados no dia (costumam ser às quintas ou sextas). Pelo lance inicial de R$ 50, você pode levar um dos musculosos mascarados até uma salinha privativa para um “tratamento mais personalizado”. Deu a entender pelo site que lá não é um spot de prostituição e que só rola um lap dance ou uma passada de mão inocente no McGuiver do cara. Mas… né? Será mesmo?

O Ricardo me respondeu: “Não”.

“Mas e se a menina quiser?”

“Se eu gostar dela, a gente sai pra outro lugar. Aqui, não.”

Perguntamos mais coisas, mas ele não calava a boca. Sério, tá aí uma pessoa que sabe muito bem o conceito de “autopromoção”. Tudo que ele respondia parecia vindo de um roteiro, e eu já estava meio bêbada de gin e de saco cheio de ouvir sobre a carreira de modelo dele. Catei o celular e começamos a estourar o flash no Ricardo, que levantava sua camiseta e subia no nosso colo para rebolar. Foi mais na Débora que ele fazia isso, o que me emputeceu, porque estava já ficando meio inconveniente. As batatas fritas estavam boas, pelo menos.

Larika dos moleke. 

Eventualmente o Ricardo foi falar com as outras clientes, deixando a gente ter a oportunidade de assistir ao primeiro show da casa. Eram dois homens completamente normais, um gordo e um magrelo, que estavam no palco dando umas reboladinhas e puxando a mulherada para dançar. O magrinho me puxou para dançar. Sem modéstia, eu sou a pior dançarina que existe na face da terra. Mesmo assim o magrelo não se intimidou e me rodopiou pela pista. Adorei a apresentação e achei uma das coisas mais sinceras que estavam rolando por lá.

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Depois de pedir a segunda gin tônica, perguntei para um dos caras se eu podia comprar bebida para eles e prontamente recebi uma resposta: “Não podemos beber.” O meu sonho de derrubar champanhe adulterado em cima de homens malhados foi rapidamente devastado, mas em menos de um segundo achei uma atitude corretíssima do dono em vetar bebida alcóolica para os funcionários. Vocês já viram homens bêbados sendo bajulados? Eu vi vários quando trabalhei em bar, e só basta um incentivo alcoólico para um deles sacar o pau pra fora ou passar a mão de forma errada em uma das meninas.

Aliás, conversei com o dono. Já o conhecia de nome por se tratar de um dos magnatas do sex shop no Brasil. Falamos um pouco, e confesso que não ouvi algumas coisas, porque a porra do som estava realmente alto. O plano é ter uma casa dessas em cada capital brasileira, todas voltadas para o público feminino. Muito inteligente, de fato. O Brasil é tão machista que abrir uma casa só para mulheres é mais fácil do que querer implementar a cultura dos strip clubs tradicionais. A partir do momento em que uma mulher no Brasil ganha dinheiro tirando a roupa e subindo num pole dance, já se considera prostituição. Uma pena.

Em um dos vários shows que rolaram durante a noite, fomos puxadas para o palco, onde um cara vestido de vaqueiro roçou em mim e nela. Ele estava absurdamente suado e ficava colocando minhas mãos nas costas dele, enquanto o laçador falava muito rápido no microfone coisas do tipo: “Isso, passa a mão mesmo. E logo mais teremos nosso leilão, não percam”! Foi um momento completamente aterrorizante. Olhei por cima da massa de músculos, suor e whey que estava entre mim e a Débora e vi a cara de pavor dela.

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Passado o momento de constrangimento, o leilão começou a rolar. Tudo isso consistia nos meninos subirem no palco, levantarem a camiseta e depois passarem de mesa em mesa se apresentando. Isso rolou umas três vezes. Na última, foi o mala sem alça do Ricardo, que colou na Débora e perguntou se ela daria um lance nele. Ninguém deu e quem foi à salinha privativa foi outro cara. A gente, que o viu levar pela mão uma mulher magra e muito bem arrumada, resolveu fumar um cigarro.

Quando fomos fumar, ouvimos gemidos que vinham das salinhas privativas. Sim, gemidos. Eram altos e nada forçados. Tentamos entrar no corredor para ouvir mais, mas paramos quando avistamos o segurança olhando meio torto pra gente. Talvez o carinho que o site prometeu seja muito mais complexo do que imaginávamos.

Não vou mentir, foi engraçadinho beber gin tônica enquanto dois homens estavam colando em mim ao mesmo tempo. Quando a Débora foi receber um “carinho”, um cara que faz parte do staff da casa colou nela com uma prancheta. Sabe diabos o que ele queria anotar na prancheta, mas foi uma cena engraçada.

Foto bacana para colocar no meu Curriculum Vitae. 

Tirei casquinha dos caras? Lógico. Troquei ideia? Não. Por quê? Bom, é difícil conversar quando os caras te olham como se você não estivesse recebendo carinho do namorado ou se você fosse carente. Eu não sou carente – e se eu estivesse lá só pela putaria?

Talvez ainda tenha muito chão para o mercado de casas privês para mulheres sacarem direito o público-alvo delas. Amigos, por incrível que possa parecer, não são só mulheres solitárias que são atraídas para a putaria. Mulher goza por gozar também. Apenas parem de nos tratar como coitadas, porque não recebemos atenção masculina suficiente. Ah, e homens musculosos não são muleta para a solidão. Avisem eles que mão boba é uma bosta sem avisar também.

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O final da noite foi absurdamente constrangedor. Ao decorrer da noite, um rombo gigante se abriu na minha meia calça, então todas as 15 pessoas que estavam presentes tiveram uma ótima visão da minha bunda quando o dançarino que estava se apresentando no palco resolveu ser OUSADO me colocando no seu colo. Com isso, o cuzão revelou também para todos os presentes minha linda – e enorme - calcinha branca. Pior que nem consegui ficar puta da vida, porque no momento senti todas as minhas extremidades serem preenchidas com a gin tônica de R$ 28  e uma puta vontade de gorfar na roupa de marinheiro que ele trajava.

Minha meia calça de 5 reais provou seu valor e abriu um rombo gigante, deixando minha bunda branca exposta.

Tive que ir pro banheiro e arrancar o resto da meia para não passar (mais) vergonha. 

Pontos para o banheiro que tinha um chuveirinho bacana. 

Sigam meu conselho e nunca saiam de casa com uma meia calça rasgada achando que vai dar tudo certo. 

Não gorfei nadinha, mas isso foi a nossa deixa para pedir um táxi e partir para o conforto dos nossos lares, livre de grandes quantidades de testosterona e homens querendo sanar nossa carência.

De qualquer forma, tirando todos os contratempos, esse rolê foi foda.

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