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Edição de Confinamento

Resenhas

O melhor e o pior da música nacional.
20.1.14

BIXIGA 70
S/T
Traquitana

Eu olhei essa capa foda e trinquei. Depois vi o flyer pro show de lançamento da bagaça e colei com a cara e a coragem e muita vontade de ser feliz. Mas daí eu cheguei no rolê e tinha um cociente de brancos acima da média da qual estou acostumada em apresentações musicais e/ou numa dum estilo chamado afrobeat. OK, sem problemas, acontece. Se alguém tem algum problema com isso, sou eu, né, pessoal? Daí tinha umas talaricas. Novamente, a incomodada era eu. Daí começou o show e foi um tal de pisarem no meu pé e darem cotoveladas involuntárias que me incomodou demais. Caiu cerveja no meu decote. Duas vezes. E ninguém estava pogando, nada disso. Sei lá. Quando consegui finalmente prestar atenção no show, achei chato.

AMANDINHA ALMEIDA

DON L
Caro Vapor / Vida e Veneno de Don L
Independente

Eu tava com um carregamento novo. Não sei exatamente o que é, mas tá vendendo bem. Me chamaram pra fazer uma entrega, cheguei e era uma festinha privada em um iate. Logo tava abarrotado de gente seminua. Umas gatinhas de biquíni tomando tequila, outras se ocupavam com beijos triplos, garrafas de champanhe por todo o lado. O cliente que me chamou no bar enfiando a mão na boca de uma mina e ela parece que tá curtindo. A galera está bem louca do que eu levei. Me senti o responsável pelo clima de suruba, me senti foda. Daí eu fiquei meio triste. Não triste emo, fiquei meio triste porque eu vi toda a minha tristeza e miséria e a de todo mundo que estava lá se esgueirando no meio daquela explosão de alegria. Daí acabou o disco.

TONY DUNA

SOUL ONE
Pulso
Independente

Nem toda festinha é lugar de tomar MDMA ou balinha, ou ficar tremelicando que nem débil mental aquelas paradinhas fosforescentes. Tem hora que basta fumar uma maconha, quem sabe um haxixe, e balançar o corpo magro ao ritmo de um groove instrumental bem sacado. É a trilha sonora de uma festa em que ninguém fica falando de trampo, tá ligado? Se você está xavecando aquele colega de trabalho que ama sua tatuagens e tem tumblr de poster de show, convida ele para ir na sua casa, coloca o disco na trilha sonora e uma calcinha preta não muito cavada, também não muito grande. Transa certa.

HERB RAVER

MARCELO JENECI
De Graça
Natural Musical / SLAP

A Vila Madalena não é mais a mesma — tá cheia de coxinha, carrão, balada sertaneja. Parece a Vila Olímpia, eca! Na época em que eu estudava na USP, não era assim. A cerveja era barata, as saias eram floridas e a rodinha de violão da Praça do Pôr-do-Sol era a coisa mais concorrida do bairro. Mas ao invés de ficar reclamando da gentrificação, sabe o que eu faço? Eu apoio a cena: vou no Apê do Pinta, na Laje, no Alto, na Balsa (mas nunca pago pra entrar), compro CD, vinil, faço uma resenha pra VICE e coloco os discos da turma na lista de melhores do ano. Ainda assim,as coisas continuam devagar pra todo mundo que não conseguiu o edital da Natura. Que sorte tem esse menino Jeneci, né?

ALFONSO “BOLDINHO” TRINDADE

CESRV
One Thousand Sleepless Nights
Beatwise Records

Aparentemente essa galera beatmaker paulistana trocou de forma definitiva o ecstasy pela maconha. É, com certeza isso. Acho que esse lance de fazer festinha ao livre na praça e se esforçar ao máximo para não ser “hipster” (ou seja, ser hipster pra caralho) contribuiu para essa mecânica. Mas esse tipo de hipster é legal, me identifico. Festa de tarde é o maior astral e a ressaca bate bem menos errado, as gatinhas vão de roupa curta, sem medo da violência explícita do fiu-fiu. Isso é ótimo. Outra coisa boa é perceber que a turma das batidas superou (como a uma boa memória) o drum’n’bass e os samples da Elizeth Cardoso (como uma memória não tão boa assim), acho.

HERB RAVER

NOALA
Humo
Independente

Nos anos 2000 essa molecada curtia mesmo era new metal. Hoje os marmanjos ficam desfilando camiseta de black metal norueguês e do Sunn O))), mas em 2002 tinha nêgo que tinha até disco do Limp Bizkit. É quente, eu tava lá. O Noala é assim também, mas eles curtiam Deftones, então ainda há salvação. E eles também são meio artistas, tem esse papo de estética e o cacete. Porém, no fundo, ainda pulsa um Korn indecente, um dread, um pisante da Adidas.

MAX 04

EMICIDA
O Glorioso Retorno De Quem Nunca Esteve Aqui
Laboratório Fantasma

É maravilhoso ver o quanto o Leandrinho da Rima andou com sua música e tudo o que ele conseguiu fazer com isso — o que tá meio que sintetizado aqui nesse primeiro disco oficial. Pelo menos é a minha teoria, e escrevo isso com as mesmas lágrimas nos olhos que fiquei ao ouvir pela primeira vez a primeira mixtape dele, que comprei de suas mãos. Ele fez o caminho dele e o caminho dele o fez. “Crisântemo”, por exemplo, tem uma carga emocional que se você não sacou, gostando ou não, pedem pra lacrarem seu caixão porque você já deve estar cheirando mal. “Bang” é pra quem mordeu um cachorro… Mas com novos traquejos. E assim segue. Obrigada.

PALESTINA GUARANI KAIOWA TREPADEIRA

RIO SHOCK
Rio Shock Ep
Independente

Imagina que você ainda não terminou o curso de publicidade apesar de já ter 43 anos e ainda morar com os seus pais. Daí seu trabalho final é sobre música, e você escreve a introdução mais ou menos assim: “A juventude global e antenada está criando seu próprio espaço, cansado do vazio de ídolos culturais e políticos atuais. Com a internet, uma grande orgia de remixes é possível em tempo real. A miscigenação urbana sem nomes fixos une trendsetters, fashionistas e rueiros numa nova cultura pop”. Daí fecha o notebook e espera carona do cara que faz estágio contigo pra irem numa discotecagem regular duns jornalistas que não sabem mixar e só tocam som gringo e que parece uma imensa e interminável festa da firma.

NÍNDIA MIJA

DJ GUERRINHA
O Pedigree Histórico: Quem Liga Para As Misérias do DJ?
40% Foda/Maneiríssimo

Caralho, acho que não dá para ser mais descoladinho e cool-para-publicitário-amar do que essa fitinha do Guerrinha, que também é aquele garoto de afro do Dorgas, o role model hipster de bloguinho de música brasileiro. A ideia aqui é que ele fez uma jam de house bosta com uns tecladinhos velhos podres (vintage que fala, né?) e gravou tudo em um K7. Aí cada fitinha é única, o Guerrinha vai lá e regrava a jam pra você. Ah, dá até para escolher a marca do K7. Cara, eu achava que já até tinham parado de produzir fita K7. Mas se você ainda tem um tocador de fita na sua casa, bem, compra essa merda. Coloca para tocar durante a votação do desfile de Carnaval.

DJ TUNA$$

RODRIGO AMARANTE
Cavalo
Slap

Eu sempre tive a fantasia secreta de teletransportar automaticamente todo brasileiro que diz em voz alta que “queria mesmo era morar nos EUA / Europa” para esse seu lugar de preferência. Rodrigo Amarante me poupou desse trampo e foi sozinho pra Los Angeles – fazer o quê, eu não sei. O problema é que ele trata esse exílio auto-imposto como se fosse um Caê no fim dos anos 60 em Londres, e não um Lo Hermano anos 10 na Califa, trocando Dylan por Radiohead. É claro que, assim, a conta não fecha. O único problema, pros meus ouvidos, é que esse cara só conseguiu um contrato com o selo descolado da Som Livre, e ao invés de pagar de “latino exótico” lá fora, quis fazer a Tieta pós-moderna voltando pra lançar o disco no Brasil, mostrando que fala até francês. Pelo menos a Sônia Braga era mais gata.

JORGE AMANTE

TRIBO DA PERIFERIA
2o Último Kamika-z
Independente

Viaja não, firma. Se você ainda não sabe como é festa do Colombiano, nunca viu os moleque comendo rói de nariz branco e boca azul, nunca colou no Smurphies Disco Club e nem ouviu “Ela Tá Virada” de algum “Carro de Malandro” rodando as quebradas das cidades-satélite do Distrito Federal, tá na hora de rever seu rolê. É a partir de Planaltina que os subgraves e o melodine da Tribo da Periferia muda a paisagem sonora da capital do país, influenciando toda uma nova geração a criar um “rap de Brasília” que você não vê na ONG. Para entender, é só colocar o play de 2013 de Duckjay e do DJ Bola e curtir o que o Planalto Central tem a oferecer de bom. Aí você vai sacar porque os playboy - de lá - tão na mão da Tribo.

MARCIANO

BOOGARINS
As Plantas Que Curam
Other Music

Tem que ter muita síndrome de vira-lata pra chamar os Boogarins de “Tame Impala brasileiro”. Além de um amor incondicional pelo roque psicodélico e o fato de morar em um cafundó do hemisfério sul (tu acha que Perth fica aonde?), as semelhanças entre os grupos não vão tão longe – e mesmo as interseções musicais não são tão claras. Os Boogas se inscrevem, na verdade, na tradição partilhada por 12 em cada 15 “doidões do interior” – a do chá de cogumelo e da coleção de vinis do tio que ainda também é fã de chá de cogumelo. É só mostrar o caminho que a gurizada entende, ainda mais agora que o nível de exclusividade de conhecimento musical, antes restrita à disponibilidade, agora achata Yes e Can na mesma categoria. Aí lá vai muito reverb, harmonias dobradas, um par de baladas e, claro, letras ininteligíveis por quem não estiver na mesma lombra. Agora vai lá fora que acabou de chover e o pasto tava cheio de zebu.

AMANITA MUSCARIA