FYI.

This story is over 5 years old.

Outros

Meu Pai, Gene Simmons, Fala Muita Merda – e Você, Também

As pessoas se ajoelhavam até meu nível e diziam: Você sabe que seu pai é uma lenda, né?
30.6.15

Patton Oswalt tem uma piada sobre a primeira vez que percebeu que seus pais falavam merda. "Quando você é criança, não importa o que um adulto diga, aquilo é o evangelho", ele diz, "aí tem aquela primeira coisa que te faz pensar: 'Acho que isso é besteira'". Para a maioria, imagino, esse momento acontece cedo.

Para mim, isso aconteceu bem no meio da adolescência. E perceber isso foi muito difícil de se engolir.

Publicidade

Essa é a última vez que vou mencionar isso; então, considere um aviso: vou falar sobre minha experiência com meu pai, Gene Simmons. Isso significa, inevitavelmente, falar sobre o que ele faz da vida. Não vou evitar mencionar isso, mas também não vou me debruçar sobre o assunto desnecessariamente. Vou falar sobre ele como um ser humano, separado e diferente de sua reputação, sua persona e do personagem que ele interpreta diariamente. Descobri que, falando no geral, rebeldia pela rebeldia é tanto uma forma de escravidão quanto o conformismo. O ímã que atrai manipula tanto quanto o ímã que repele – de qualquer maneira, uma força interna está fazendo o movimento. Assim, vou ignorar qualquer expectativa e simplesmente falar do meu pai.

Meu pai tem uma voz de barítono. Quando ele queria que eu fizesse alguma coisa, ele "fazia um acordo" comigo e apertava minha mão com força para eu pensar que éramos parceiros iguais num negócio comercial.

Com 2,03 metros, hoje supero meu pai, que tem um simples 1,87 metro. Porém, antes de atingir a puberdade, meu pai era monolítico. Lembro-me de sentir seu físico nos meus ossos, e isso era assustador e confortador ao mesmo tempo. Quando eu ouvia a voz dele rolar pela sala como uma rocha e aquelas botas enormes marcharem pelo chão de madeira, parecia a primeira vez que vi o tiranossauro Rex no Jurassic Park original.

Meu pai tem uma voz de barítono. Quando ele queria que eu fizesse alguma coisa, ele "fazia um acordo" comigo e apertava minha mão com força para eu pensar que éramos parceiros iguais num negócio comercial (esse negócio sendo algo como "Não bata na sua irmã, e você pode comer cookies de arco-íris mais tarde"). Ele nunca usava "fala de bebê". Ele nos envolvia em chavões paternais a cada oportunidade: coisas do tipo "Todo dia acima da terra é um bom dia" e "Você só consegue o respeito que exige". Sempre há algo para se tirar desses bordões, claro, mesmo que eles sejam repetidos infinitamente como clichês. Esse é um bom disco, mesmo se estiver riscado.

Publicidade

Também me lembro de como os outros adultos costumavam se curvar à vontade dele. Ele era famoso, ele tinha sucesso e todo mundo ouvia quando ele falava. As pessoas se ajoelhavam até meu nível e me diziam, sinceramente: "Você sabe que seu pai é uma lenda, né?".

No final das contas, eu achava que tudo que meu pai dizia estava escrito na pedra, forjado em eras de experiência e julgamento. Mas, enquanto eu crescia e ele começava a encolher, comecei a ver as rachaduras. Comecei a ver os poros, os cabelos brancos – essas pequenas falhas que o tornam humano. Percebi que ele era um homem, e, como todo homem, ele tinha (como o dr. Steven Novella coloca) "uma percepção distorcida e construída, subserviente a qualquer narrativa sob a qual seu cérebro opera".

Essa epifania veio no colegial, quando comecei a aprender sobre drogas. Meu pai se orgulha (se gaba mesmo para quem perguntar) de nunca ter fumado, bebido ou chapado na vida – fora um incidente em que brownies "especiais" foram confundidos com… bom, brownies normais.

Ainda hoje ele é profundamente contra drogas. Talvez por causa de encontros estressantes com viciados na cena do rock 'n' roll dos anos 70 e 80, ele tem um ressentimento contra drogados. Na experiência dele, isso fez a vida dele e seu trabalho mais difíceis do que deveriam ser.

Ele já falou muito sobre o assunto. Lembro-me de assistir a TV com ele na cozinha quando era adolescente, de ver histórias trágicas sobre dependência e violência ligada a drogas, aquelas histórias de celebridades do VH1 e coisas assim. Ele ficava muito emotivo, sempre exclamando algo como "Esses idiotas. Eles deviam ser [insira as punições medievais x, y e z]". Minha mãe, sempre a voz da razão, batia nele com uma revista ou jogava uma bala nele durante essas explosões.

Isso é hipérbole, claro, mas ele realmente acredita em leis mais pesadas relacionadas a drogas e ele não tem simpatia por dependentes químicos. Depois de falar muito com ele sobre isso, sei agora que esse ressentimento, frequentemente mal compreendido, não é uma reação a vítimas reais e trágicas do vício em drogas. Ele se ressente mais da pessoa que fez a escolha naquela primeira vez: a escolha de dar a primeira tragada, introduzir a primeira agulha, cheirar a primeira carreira. Ele não consegue ter empatia por essa primeira decisão de jogar com uma, em sua visão de imigrante, vida na terra da oportunidade. Ele acredita que a responsabilidade é do viciado por usar isso da primeira vez, mesmo sabendo tudo que sabemos nessa era da informação. Arriscar-se assim é correr o risco de perder a simpatia dele. O homem morto por um urso depois de cutucá-lo com um graveto merece seu destino. Essa é mais ou menos a filosofia dele para drogas – se é que posso falar por ele. E, admito, isso faz algum sentido.

Publicidade

No entanto, como muitas das filosofias dele sobre a vida em geral, meu pai leva essa premissa a um extremo absoluto e faz um uso liberal da hipérbole. Isso já causou problemas para ele – e minha família e eu lamentamos a capa de tabloide que ele pode se tornar às vezes. Foi numa dessas situações em que percebi que discordava do meu pai. Uma frase de efeito dele estava rodando na televisão e na internet, e as pessoas o criticaram por seu modo inflexível e não liberal de falar. Percebi que, apesar de querer defendê-lo como filho, eu concordava com os críticos. Um sentimento não muito profundo, mas perceber isso foi um momento de grande dissonância cognitiva. Eu não tinha considerado ainda que discordar era uma opção.

Meu pai me ensinou, acidentalmente, que nossos heróis podem estar errados.

Eu conhecia gente que fumava maconha. A maioria dos meus conhecidos bebia. Porém, eu não conseguia concluir, como ele, que qualquer impacto negativo de saúde provocado por essas escolhas era merecido. Afinal de contas, a vida é um risco. Percebi que eu não acreditava que maconha e álcool deveriam ser tratados do mesmo jeito que heroína e cigarros. Agrupar tudo isso como prejudicial é ingênuo. Eu acreditava, e ainda acredito, que a maioria das drogas deveria ser descriminalizada e que isso deveria ser tratado (na maior parte) como uma questão médica, não criminal. Acredito que, se não temos mais nada, temos nosso corpo e devemos ser livres para fazer com ele o que quisermos, desde que isso não prejudique os outros. Eu sabia que meu pai nunca concordaria e sabia o porquê: isso ia contra a narrativa sob a qual ele operava. Essa era minha narrativa também – até eu mudar de ideia e escrever uma nova.

Se você concorda ou não com a minha opinião sobre uso de drogas… o ponto principal é que meu pai me ensinou uma lição mais valiosa quando eu discordei do que ele tinha me ensinado do que quando concordávamos: que nenhuma crença é sacrossanta. Ele me ensinou, acidentalmente, que nossos heróis podem estar errados. Se eu tivesse ouvido a opinião dele sobre viciados em drogas quando era mais novo, eu concordaria simplesmente por emoção, porque o considerava sábio e porque ele é meu pai. Isso tinha o apelo da falácia de autoridade, e eu estava vivendo dentro disso, pelo menos até aquele momento. Mesmo se eu estiver enganado, esse sentimento – de que a autoridade pode estar errada – foi um momento importante para o meu desenvolvimento. Se essa figura autoritária, quase um deus, estava errada sobre alguma coisa, então mais ninguém, não importa quão qualificado ou poderoso pareça, pode ficar num pedestal. Era a evidência que importava, não a autoridade.

Publicidade

Quando percebi essa rachadura na armadura, o resto caiu facilmente. Ele não era mais um super-homem para mim.

Lembro-me do primeiro ano em que o ultrapassei em altura. Ele me olhou de cima a baixo e disse "Isso é ridículo, não estou gostando". Eu só tinha ficado maior e nossa interação só tinha ficado mais cômica. Se eu me sentava à frente dele num restaurante, inevitavelmente encostávamos os pés. E ele batia a testa na mesa e dizia algo como "Inacreditável. Não dá pra escapar". O T-Rex, o colosso, se foi há muito tempo. Agora, ele é só um homem - e muito mais interessante por isso.

Eu costumava absorver as lições do meu pai como um aprendiz ansioso, com os olhos bem abertos e receptivo. Nós nunca discutíamos. Hoje, discutimos, e às vezes as coisas ficam tensas, especialmente em questões políticas e sociais. No entanto, apesar de tudo, descobri que ele me respeita mais no final delas, mesmo nunca concordando, do que respeitaria se eu concordasse passivamente com ele.

Discordar do meu pai também tornou o atrito ocasional com a imprensa muito mais fácil de se digerir. Isso acontece pelo menos uma vez por ano e simplesmente não me incomoda mais. Opiniões fortes são só isso – e não importa o que você diga, vai ter sempre alguém com o dedo do meio carregado para disparar como resposta, seja um grupo ou um indivíduo.

É importante matar seus heróis. E, às vezes, você tem de matar seu pai. Para poder amá-lo, e suas falhas, mais do que amava um arquétipo vazio.

Essa lição se aplica tanto para o legado profissional do meu pai quanto para sua paternidade. Ele é adorado e vive cercado de gente que concorda com ele sempre. Mas suas grandes conquistas, com certeza, aconteceram durante tempos de atrito, antes dos puxa-sacos. Quando formou o Kiss, ele era só um garoto desajeitado e esquisito de Nova York. Ninguém dizia "sim" para ele. Ele não se dava bem com as mulheres. As pessoas o achavam idiota porque ele não conseguia falar inglês direito. Meu pai e Paul tiveram de lutar por cada acordo e cada show, tiveram de lutar contra resenhas ruins, dívidas e seus trabalhos normais - tiveram de lutar por tudo para poder conquistar o que conquistaram. Eles tinham de discordar de todo mundo. Eles tinham de acreditar que todo mundo, toda autoridade, estava errada.

Logo, é importante discordar. É importante matar seus heróis. E, às vezes, você tem de matar seu pai. Para poder amá-lo, e suas falhas, mais do que amava um arquétipo vazio. A coisa mais importante que meu pai me ensinou foi que – assim como todo mundo –, às vezes, ele fala merda.

Feliz Dia dos Pais tardio, pai.

Siga o Nick no Twitter.

Tradução: Marina Schnoor