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Professor Akil Houston: Não parece ser nenhum dos dois. Isso dá continuidade a uma longa tradição do que Bell Hooks se refere como “comer o outro”. Hooks notou que dentro da cultura de commodities, a etnicidade se transforma em um tipo de tempero. Isso é usado para animar o prato insosso que é a cultura mainstream branca. A distinção é importante, já que acho que imagens e referências autênticas afirmam, reconhecem e abraçam uma cultura em particular. Por exemplo, os Beastie Boys e o hip hop. Eles eram muito mais autênticos e representativos da verdadeira cultura hip hop do que o que se passa por isso hoje em dia nos EUA.
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Certamente, há uma conexão, é por isso que afirmo que isso dá continuidade a uma longa tradição. Há quem argumente hoje, como nos dias de Amos 'n' Andy ou de Pat Boone, que esses tropos, imagens e apropriações são uma maneira de ampliar o público dessas produções culturais. Ainda assim, o espectro da raça assombra essas imagens de ontem e hoje. Isso diz algo sobre uma sociedade que não pode encarar a coisa real, mas que desfruta do prazer de um espetáculo envolvido em zombaria, mesmo que se assuma ser em tom de brincadeira.Para você, vendo os personagens negros desse vídeo, eles parecem acessórios ou pessoas plenamente realizadas? É importante fazer essa distinção? E o que isso diz sobre as intenções de Miley?
Miley e os atores negros no clipe são todos acessórios no palco para prazer visual. Acho que é importante considerar que essas imagens funcionam dentro de uma esfera de controle corporativo multinacional, então, tanto a atriz principal (Miley) quanto os acessórios não possuem um grande nível de autonomia em termos de imagem.Se uma pessoa quer adotar e reinterpretar um pedaço da cultura negra apresentada dentro do hip hop, como ela deveria fazer isso? Como um artista branco pode ser igual ao Eminem e não ao Pat Boone? Qual a diferença, se é que há uma diferença?
Não tenho certeza se Eminem é o modelo ideal. Ele recebeu um passe porque é talentoso e se cercou de pessoas como Proof e Dr. Dre. Essas pessoas emprestaram a ele um nível de legitimidade no começo de sua carreira. Sua origem na classe trabalhadora também se encaixa no molde de certas noções de autenticidade do hip hop. Eu diria que Invincible é um bom modelo. Acho que ela representa melhor como abordar isso. Ela reconhece seu privilégio como branca, mantém a conexão com o ideal do hip hop e, acima de tudo, é uma grande letrista.
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Isso nunca acabou. Apesar de os artistas negros terem mais visibilidade hoje, o mesmo tipo de dinâmica continua a ocorrer. O público em geral não tem consciência dos artistas de cor que eram punks, country, alternativos ou qualquer outro rótulo que as gravadoras usavam para identificá-los. Para alguns, esses artistas aparecem como outsiders.O que a interpretação de Miley Cyrus acerca do que ela considera “negro” mostra sobre a percepção dela sobre os negros e sua cultura?
Acho que ela poderia frequentar algumas aulas de Estudos Afro-americanos.É certo culpar artistas que trabalham no hip hop, como Gucci Mane e Three Six Mafia, por ajudar a moldar os estereótipos que Miley apresenta no clipe, mesmo que o trabalho deles seja balanceado por outros elementos deixados ostensivamentede fora da interpretação dela?
Absolutamente. No entanto, nossas críticas precisam ser contextualizadas. Quem tornou esses artistas possíveis, por que as músicas deles estão em alta rotação, quais gravadoras e corporações estão apoiando essas imagens e mensagens? Artistas como Wise Intelligent, Public Enemy, One Be Lo, Bahamadia e outros têm apresentado imagens e mensagens relevantes que não são homofóbicas, sexistas ou problemáticas há anos. No entanto, eles não têm o mesmo acesso e tempo de exposição que os grupos que você mencionou. Não é suficiente criticar o artista, apesar de devermos — mas isso deve se estender às corporações que tornam isso possível.
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Claro, se você tem negros participando, isso lhe confere certo nível de credibilidade. “A música não pode ser problemática porque pessoas negras ajudaram a fazê-la” é um argumento falho. Mas isso dá autenticidade para aqueles engajados no prazer da música que não querem se sentir desconfortáveis com isso.Já que o rap se tornou uma das formas de arte mais comercialmente viáveis, podemos esperar muito mais do que vimos com Miley? Quanto dessa reviravolta dela na arte é sobre dinheiro e quanto é sobre raça? Ou essas duas coisas são impossíveis de separar?
Não é possível separar raça, classe e gênero.A noção de uma categoria como R&B foi construída em torno de raça. Todo artista precisa negociar com as exigências comerciais do mercado. Mesmo a Madonna. Considere a trajetória dela e os diferentes estágios de representação que ela teve. Se Miley planeja ter a longevidade da Madonna, vamos ver muitas reviravoltas.Há algum benefício a ser ganho com o clipe da Miley em termos de relação entre as raças? Isso poderia, por exemplo, apresentar pessoas novas a formas de expressão negras, o que poderia estimulá-las a descobrir versões mais atraentes, matizadas e autênticas do que Miley está tentando fazer?
Só o tempo dirá.
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