FYI.

This story is over 5 years old.

Outros

Um Trecho de The Death of Bunny Munro

O segundo livro de Nick Cave, The Death of Bunny Munro, sobre um mulherengo que após o suicídio da esposa faz uma viagem com o filho pela costa Sul da Inglaterra.

Ilustrações por J. Penry

O Nick Cave é um australiano que já cantou em algumas bandas. A primeira era meio gótica e barulhenta, a segunda era mais rock’n’roll. Ele tem cabelos pretos bem compridos e umas cavidades incríveis no lugar das bochechas? Em 1989, ele publicou um livro chamado

And the Ass Saw the Angel

, uma história à la Faulkner sobre um garoto mudo que cresceu sendo abusado pela própria família, em uma cidade cheia de pessoas que o odiavam. Agora, 20 anos depois, a Editora Farrar, Straus and Giroux publica o seu segundo livro,

Publicidade

 The Death of Bunny Munro,

 sobre um mulherengo que após o suicídio da esposa faz uma viagem com o filho pela costa Sul da Inglaterra. O trecho a seguir começa no funeral da Sra. Munro.

Uma cerimônia simples está sendo realizada para Libby Munro na igreja de Saint Nicolas em Portslade. Bunny e Bunny Jr. estão de pé, com as cabeças inclinadas para baixo. Estão vestindo os ternos pretos novos que Bunny encontrou pendurados, lado a lado, no armário do seu quarto, que até então estava vazio. Ele encontrou um recibo no bolso do paletó que indicava que Libby os havia comprado na Topshop da Churchill Square, dois dias antes do seu suicídio. Mas afinal de contas, o que estava acontecendo? A cada dia um novo fato mais estranho e mais triste se revelava sobre a morte de Libby. Uma vizinha disse que havia visto Libby queimando pedaços de papel e jogando-os pela varanda alguns dias antes da sua morte. Eram as cartas de amor que Bunny havia escrito antes de se casarem. Ele encontrou alguns pedaços queimados dessas cartas sob o vão da escada junto com seringas e preservativos. O que deu nela? Ela devia estar louca. O afeminado padre Miles, de rosto pálido e com nuvens de cabelos brancos empilhados em volta do crânio, sussura o discurso fúnebre com um ar tão pneumático que Bunny tem que erguer a cabeça para ouvi-lo melhor. Ele se refere a Libby como uma pessoa “cheia de vida e amada por todos” e mais tarde como “generosa além da medida”. Bunny percebe que ele não menciona nenhuma vez seus problemas de saúde e o modo como partiu, “se juntando aos anjos de forma prematura”.  Bunny olha ao redor da congregação e vê, espremidas em um mesmo banco, do outro lado da igreja, algumas amigas da Libby. Patsy “Bad Vibes” Parker olha várias vezes para Bunny com um olhar acusador, mas ele já esperava por isso. Patsy Parker nunca gostou de Bunny e, sempre que podia, fazia questão de deixar isso bem claro. A Patsy é baixa e tem um traseiro extremamente desenvolvido e, para compensar sua pequena estatura, quase sempre calça salto alto em seus pés minúsculos. Quando visitava Libby, ela caminhava pela casa num trote propositalmente obsceno, o que lembrava Bunny dos três porquinhos, mais especificamente aquele que construiu sua casa com tijolos. Isso é particurlamente pertinente, já que uma vez, em um ataque de raiva, depois de ouvir, por casualidade, Bunny fazer um comentário pornográfico sobre a orgia ambulante que era Sonia Barnes, do nº 12, chamou Bunny de “lobo mau”. O Bunny supôs que ela se referia ao lobo do desenho animado, babando de língua e olhos arregalados, e acabou aceitando o comentário como um elogio. Toda vez que ele a via dizia, “Vou soprar, soprar e sua casa derrubar”. O Bunny até cogitou botar a língua pra fora e arregalar os olhos, mas percebeu, com certa satisfação, que ninguém podia mexer com ele. Ao lado de Patsy Barker, Bunny vê Rebecca Beresford, a quem Libby sempre se referia como “a irmã mais velha que eu nunca tive”, “minha alma gêmea” e “a melhor amiga do mundo”. Rebecca Beresford não falava com Bunny há alguns anos, depois de um incidente durante um churrasco em Rottingdean Beach que envolveu meia garrafa de Smirnoff, uma salsicha crua, sua filha de 15 anos e uma leitura equivocada de sinais. Isso criou uma fúria que nem mesmo um ano de arrependimento pode acalmar. Finalmente, foi feito um acordo velado, em que o desdém mútuo era a única saída. Não importa. Do outro lado da igreja, Rebecca Beresford fuzilava Bunny com o olhar. A seu lado está a sexy Helen Claymore, que também lança olhares maldosos na direção de Bunny, mas Bunny percebe que seu coração não está com eles, e que ela está claramente aberta para algo mais. Não se trata de uma opinião, mas de um fato. Helen Claymore está vestida com um tweed preto que faz algo insano com seus seios, os militariza, os torpeda, e faz algo de outro mundo com a sua bunda. Helen Claymore tem transmitido esses sinais para Bunny há anos, e Bunny inspira fundo e se entrega às suas vibrações como um médium, um espírita ou algo do gênero. Ele se deixa levar pela sua imaginação e percebe pela milésima vez que não tem nenhuma, e então visualiza sua vagina. Bunny se maravilha com essa imagem por um instante e a vê levitando diante de seus olhos, como uma aparição sagrada, intui suas maravilhas e sente seu pau endurecer como um pé de cabra, ou um arpão, ou uma alavanca—ele não consegue se decidir a esse respeito.