MV Bill celebra trajetória no single “Vida Longa”

Conversamos com a lenda carioca sobre o som/clipe que ele lançará nessa sexta (17), comemorando sua caminhada no rap e o fato de ter passado dos 30 anos.
16.2.17

Foto: Carlo Locatelli/Divulgação

"Feio e esperto, com uma cara de mal. A sociedade me criou mais um marginal. Eu tenho uma nove e uma HK, com ódio na veia, pronto para atirar". Quem nunca cantou isso na escola e diz que cresceu em bairro da ponte pra cá nos anos 90, começo dos 2000, tá mentindo. E bom, o MV Bill dispensa apresentações, certo? Contar o que o cara fez até agora soa como um enorme pleonasmo em relação ao seu nome. No rap há milianos, Bill contrariou as estatísticas: passou dos 30 anos e considera que este é um grande motivo para comemorar. Por isso, lança na virada desta quinta (16) pra sexta o single "Vida Longa", com beat assinado por Insanee Tracks e direção musical do Beni Ktt.

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A faixa vem com o dedo na ferida de sempre, criticando a molecada que fala demais nas redes sociais, quem bate no peito, feio, fazendo escândalo dizendo que é pá dentro do rap e serve como uma mensagem de vitória para o rapper carioca e para tantos outros que passaram dos 30. Adiantando o lançamento do som, trocamos uma ideia com o Bill para entender mais sobre o que essa vitória significa para ele, seus planos para 2017 — que já adiantamos, estão bem otimistas e com vários trampos —, o momento que vive o rap e a participação dele no cypher "Favela Vive 2".

Rola um lance de subverter a ideia de "Vida Loka" usando o termo "Vida Longa" no som? Vejo isso principalmente quando você fala "Vida longa nós somos".
A subversão sempre esteve presente no rap, tanto de fora quando de dentro, mas sempre existiu. Estamos começando a ter os primeiros Tiozões do Rap Brazuca, muitos tiveram essa proximidade pela Vida Loka para chegar até aqui, e estes sabem bem o valor de ser Vida Longa. Antes não tínhamos sequer perspectiva de passar dos 30 anos, por isso muitos de nós comemoram a chegada dos 40. No meu caso, ainda ter relevância dentro do gênero me faz olhar para a vida como um verdadeiro troféu.

Você enxerga alguma mudança de perspectiva de vida para o jovem negro da periferia da sua época para hoje ou acha que as coisas estão na mesma?
Sim, muitas mudanças significativas e, principalmente, partindo dos próprios jovens que passaram a protagonizar histórias, principalmente as suas, e isso faz com que o jogo comece a virar. Por outro lado, o número de jovens que "optam" pela vida criminosa também cresceu. E o crescimento nesse sentido, assim como tudo na sociedade, se aprimorou. Neste caso, estes jovens se tornaram ainda mais corruptos, exalando mais maldade e insensibilidade.

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No som você em alguns momentos critica uma molecada que fala demais nas redes sociais e o pessoal que paga de pá dentro do rap, mesmo não sendo nada.
As redes sociais viraram um território livre pra geral dizer o que quiser. Cada um ganhou um megafone! Mas nesse kit inclui também as consequências daquilo que se verborragia. O direito de falar, também te dá margem para ser cobrado pelo que diz.

Como você enxerga o rap hoje, depois de tanto tempo dentro dele?
Foi muito bom esse surgimento de novos grupos, novos temas, e até MCs que não vieram necessariamente da favela. Mas a necessidade de existir o rap que toca na ferida social ainda é latente. Do jeito que anda a política do país, eu acho que muitas pessoas acabam procurando o rap mais combativo para extravasar seus sentimentos. Alguns mais novos, como Síntese, Primeiramente, Antiéticos, por exemplo, já nasceram com esse DNA, enquanto vejo que alguns MCs mais velhos perderam essa essência.

Agora você lança a faixa "Vida Longa" e logo na sequência o clipe da mesma música. Você enxerga uma importância maior no audiovisual hoje?
O audiovisual já vem fazendo a cabeça da molecada no mundo todo há um bom tempo. Também passou a ser uma forma de manter a atenção do ouvinte até o final da música. É um caminho que tem alongado minha vida. A importância deste recurso é tanta, que muitos sons de hoje em dia só fazem sucesso por conta da forma como foram lançados.

Comecei a ouvir seus sons na época do Traficando Informação e você continua sendo relevante no rap até hoje. Qual o segredo pra se manter e pra não se repetir depois de tanto tempo?
Obrigado, meu parceiro! Sempre me mantive antenado no que acontece nas favelas do Brasil, faço dois programas (rádio e TV) ligados a cultura hip hop, o que me deixa sempre ligado no que tá rolando. Além do mais, o rap é uma música competitiva, então coisas boas ou ruins que estão acontecendo de forma geral sempre estão inspirando uma nova letra.

Além de "Vida Longa", você tá preparando mais um monte de novidade pra 2017. Vem um álbum por aí? O que a gente pode esperar?
Sim, este ano vou trabalhar bastante (risos). Talvez, mas não é minha prioridade. Eu tô curtindo mais os singles! Pra mim que já tenho vários hinos que marcaram o rap nacional, lançar as novidades por etapas traz mais excitação para produzir outras.

A sua irmã, Kmila CDD , sempre colou com você e hoje a gente vive um momento em que as minas estão chegando mais no rap, que sempre foi um ambiente bem machista. Como você enxerga essa chegada das mulheres no rap? Isso faz o machismo ser debatido dentro do rap?
A Kmila CDD já toca comigo há muito tempo, já participou de vários sons importantes na minha carreira. Aliás, ela mora em uma das partes mais cabulosas da Cidade de Deus, já viu e ouviu muitas histórias sinistras, gostaria muito de um dia ouvir as ideias dela em forma de rap, deve ser foda!

No fim do ano passado você participou do "Favela Vive 2", que gerou uma recepção muito positiva da galera, além de ter tido view pra caralho. Como foi pra você participar dele ao lado de um pessoal mais novo, como o ADL e o BK' , além do Funkero , que já é mais das antigas?
Foi muito bom ter uma música tão aguardada e bem visualizada como o "Favela Vive 2"! Em tempos de raps inofensivos e egocêntricos, uma letra dessa, feita de forma coletiva, e que fala do coletivo, com uma repercussão dessas é realmente muito bom. Fiquei muito agradecido com o convite dos caras do ADL e me diverti demais com a presença dos demais companheiros.

Qual a importância dessa onda de cyphers — como o " Poetas no Topo " e o "Favela Vive", por exemplo — pro rap nacional hoje? Você acha que essa é uma boa ideia pra trazer a molecada pro rap?
Cypher me remete aos primórdios do hip hop, em que todos se encontravam para rimar em rodas nos anos 80, exatamente como nas cyphers, só não eram filmadas e compartilhadas, guardava-se tudo na mente! Mas a cultura hip hop é vasta e tem muitas coisas a serem exploradas e desbravadas. É isso que vai trazer a molecada pra perto se quisermos ter "Vida Longa".