Um guia semicientífico para curar a ressaca
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Um guia semicientífico para curar a ressaca

A fritura não vai te salvar, mas alguma dessas dicas pode ser útil, né.
24.3.17

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE Canadá .

Minhas ressacas são um negócio épico. Já passei dias inteiros, do nasceu ao pôr do sol, rolando na cama, com o estômago revirado, gemendo e implorando a um espírito misericordioso para acabar com a agonia de náuseas que me consome. Esse sofrimento só é interrompido por excursões de hora em hora até o banheiro, para vomitar tão violentamente que parece que meu esqueleto vai sair pela boca. O tipo de vômito tão forte que dá quarta vez já não tem mais nenhuma comida ou líquido, e você acaba expelindo aquela bile tóxica, que tenho certeza que na verdade são pedaços de personalidade e memórias importantes.

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Estou dizendo que minhas ressacas são tipo uma jornada até o Monte Desgraça, como estar sem roupa espacial na superfície de Marte, um exercício código vermelho em resistência física e mental. Todo amigo que testemunhou esse espetáculo sombrio, assim como quem já me viu correr para vomitar no jardim de casa porque o banheiro estava ocupado — e continuar deitado lá porque a grama molhada refresca o fervor da minha cabeça e porque qualquer movimento parece impossível — vai concordar: eu manjo de ressaca. Sou um especialista em sofrimento do dia seguinte.

Então, para todo mundo se preparando para encher a cara no final de semana e enfrentar manhãs de miséria dignas de virar música folclórica, achei que era uma boa analisar os melhores remédios para ressaca que experimentei quando estava me sentindo o Johnny Cash no clipe de "Hurt". Estabeleci um sistema de notas simples para cada cura: uma escala de 1 a 10 para eficácia e uma escala de 1 a 10 para dificuldade, seguido de uma subtração da dificuldade pela eficácia para ter uma média científica do alívio conseguido.

Foto via usuária do Flickr Ruth Hartnup.

Hair of the dog

Isso costumava dar certo para mim. Quando eu era jovem e não tão estragado quanto hoje, eu trabalhava num restaurante onde meus colegas faziam um Caesar sensacional. Apimentado, com bastante raiz-forte e com poderes restauradores de exorcismo em nome do santo mais perseguido. Eu começava meu turno como uma merda delirante, e acabava um pouco abaixo da funcionalidade humana normal.

Mas esses dias se foram. Um, se quero tomar um Caesar em Toronto agora vai custar uns $25, e é capaz de o drinque vir com um pé de galinha inteiro dentro ou qualquer merda assim. Segundo, mais bebida só deixa minha ressaca mais diabólica. Um golinho de álcool é quase a mesma coisa que tomar um galão pútrido de aguardente medieval. Só o cheio do álcool quando estou de ressaca faz minha cabeça parecer que vai estourar. Hoje em dia, uma opção melhor para mim que o hair of de dog é ser dilacerados por um bando de cães selvagens.

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Eficácia: 0
Dificuldade: 7
Nota: -7

Suar o álcool

Quando era um jovem universitário, eu trabalhava para um carpinteiro ligeiramente patético de meio experiente. Meu chefe, especialistas em decks de madeira, comia queijo feta direto da embalagem no almoço, compartilhava informação demais comigo sobre seus problemas financeiros, e lembrava a vez que tinha conhecido a ex-primeira-ministra do Canadá Kim Campbell.

Ele também me buscava às seis da matina, e foi durante aquele verão que experimentei a solução clássica da classe trabalhadora para a ressaca: suar o álcool todo no batente. Isso resultava num dia de tormento entorpecente e num deck bem toscamente construído para proprietários azarados da região de Kawartha.

Eficácia: 2
Dificuldade: 8
Nota: -6

Um café da manhã bem gorduroso

Uma solução clássica, provavelmente a mais receitada por quem me encontra acabado na manhã depois da farra. "Come alguma coisa bem gordurosa, você vai se sentir melhor, a gordura cobre seu estômago e tal", me dizem. Essa cura tem dois problemas. Um: sair de casa numa expedição para conseguir esse dito café da manhã gorduroso é um inferno por si só. Enquanto me arrasto até uma potencial salvação à base de porco, pareço um viajante no tempo confuso, olhando pro nada, as mãos comprimindo as têmporas, constantemente procurando um beco apropriado para vomitar à luz do dia.

O outro problema com essa estratégia é que se for uma ressaca de respeito, meu apetite vai ser nulo e comer qualquer coisa vai se mostrar impossível. Não importa quão deliciosa seja a comida, ela vai ter gosto de papelão molhado, como se eu estivesse mastigando minha própria mortalidade.

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Isso leva a uma cena muito comum das minhas ressacas: depois de duas mordidas num café da manhã de $24 paus e 40 minutos de espera, segurando minha cabeça e olhando para o meu copo de suco de laranja pela metade procurando respostas, o garçom vai chegar e perguntar se preciso de mais alguma coisa, e vou responder: "Pode embrulhar isso aqui pra viagem, por favor? Estou prestes a expirar no seu estabelecimento", e depois voltar me arrastando para casa, com a mesma ressaca, o mesmo estômago vazio, mas carregando 100% mais isopor e pão com ovo frio.

Eficácia: 5
Dificuldade: 8
Nota: -3

Tomar um banho quente

Adoro fazer isso. Arrasto minha bunda suada e traumatizada até o banheiro, viro a torneira da água quente e me encolho no abraço reconfortante do chuveiro. Começo o banho em pé, as gotas caindo contra minha nuca, reduzindo o tormento da minha cabeça enquanto me apoio na parede, como um justiceiro planejando a vingança contra um dono de bar que não limpa suas torneiras de chopp direito. Mas logo minhas pernas se cansam. Mas não estou pronto para sair do meu santuário molhado e em tempos de desespero tomo medidas desesperadas: sento embaixo do chuveiro. Ah, a glória, a vida deveria ser sempre assim: o calor, a água, o relaxamento me elevando da existência corporal dolorosa e me deixando com uma imagem de mim mesmo me tornando um só com a água — tipo um espírito anfíbio.

O problema do banho quente é que esse alívio da dor e ilusório. Isso só dura até a água quente acabar e eu ser obrigado a deixar minha confortável mata atlântica para o mundo real, onde sinto como se um show particular do 30 Seconds To Mars estivesse acontecendo dentro do meu corpo.

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Eficácia: 1
Dificuldade: 2
Nota: -1

Foto via usuário do Flickr Josephco.

Beber muita água antes de deitar

Quem nunca ouviu de amigos queridos, médicos, ex-mentores do goró e outras pessoas que se importam com você: "Beba bastante água se for encher a cara, de preferência na proporção de 1 pra 1". Mas durante a balada eu rapidamente perco a conta dos copos de água, e volto para casa rebocado apenas pela preocupação abafada de que tenho trabalho para fazer na manhã seguinte, e que se não beber água vou passar o dia inteiro ilhado em sofrimento.

O problema é que quando enfio o pé na jaca, beber água antes de dormir parece um fardo. Por quê? Não sei. Mas o Eu Bêbado odeia tanto água que podia ser recrutado para trabalhar na Agência de Meio Ambiente do Donald Trump. Se consigo me convencer de ir até a cozinha e encher cinco ou seis copos de água, eu os coloco numa fileira na pia, viro um atrás do outro e desmaio na cama com a esperança de que o espírito da vingança alcoólica não me visite ao nascer do sol.

Eficácia: 8
Dificuldade: 6
Nota: 2

Foto via usuário do Flickr dirtyboxface.

Vomitar antes de ir pra cama

Se forçar a vomitar, seja com os dedos na goela ou só lembrando as coisas que você fez na noite anterior, é uma opção estilo "quebre o vidro em caso de emergência". Descobri que normalmente me sinto bem na manhã seguinte quando faço isso, como se eu só tivesse tido um sonho estranho com temática de vômito. O problema é que esse é um dos comportamentos mais baixos que uma pessoa pode ter, e só deve ser administrado no caso de um emprego ou relacionamento pessoal estar em jogo.

Eficácia: 9
Dificuldade: 8
Nota: 1

Sobriedade

Hum… Quem sabe ano que vem.

Eficácia: 10
Dificuldade: 200
Nota: -190

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Tradução: Marina Schnoor

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