cinema

O novo "Ghost in the Shell" vale alguma coisa?

O remake norte-americano do anime de culto japonês foi atormentado pela controvérsia, praticamente desde que foi anunciado. E, sinceramente, é um filme um bocado insípido.

Por Hannah Ewens
03 Abril 2017, 1:40pm

Este artigo foi foi originalmente publicado na VICE UK.

Parece que Hollywood finalmente percebeu que só pode lançar um certo número de filmes de super-heróis no espaço ao longo de uma década. Por isso, agora o foco virou-se para os animes. Ainda estão a tentar forçar uma versão live-action do clássico de culto  Akira e o Netflix está a fazer uma série a partir do manga e anime Death Note. O trailer não ficou bom e, claro, a história passa-se nos Estados Unidos da América e não no Japão. E, como se isto não bastasse, Ghost in the Shell: Agente do Futuro [sim, é o nome para território português], baseado noutro anime clássico, já estreou na última quinta-feira, 30 de Março.

A tendência não chegou sem polémica, todavia. Por um lado, arrogantemente os produtores recusaram-se a escolher actores japoneses, por outro, temos a inevitabilidade da "bimbalhice" de Hollywood a abordar histórias e temas que são clara e distintamente japoneses. 

Uma coisa é fazer um live-action farsolas de A Bela e o Monstro, outra bem diferente é investir em versões fajutas de histórias enraizadas noutra cultura. Basicamente, o cinema norte-americano não tem coração para as subtilezas específicas e a profundidade de sentimento que os fãs de filmes japoneses apreciam.

Ghost in the Shell não é diferente. A conversa sobre o chamado "whitewashing" começou quando Scarlett Johansson foi designada para o papel principal, Major, uma cyborg com alma e mente de humana.

Mas a questão aqui é: o novo Ghost in the Shell é bom? O original de 1995, dirigido por Mamoru Oshii – acompanhava uma organização contra-terrorista, a Secção 9, e Major, entendendo quem ela é e perguntando o que nos torna humanos num Mundo cada vez mais tecnológico. O anime foi uma inspiração directa para Matrix ("Queremos fazer aquilo a sério", disseram as Wachowskis na altura) e é religiosamente colocado na mesma categoria de Blade Runner. Portanto, o novo filme tinha que fazer jus a tudo isto.

Claro que não chegou sequer perto.


VÊ TAMBÉM:"'A Smarter Gun': quem está a travar as armas inteligentes?"


Logo de caras, sentes o golpe do valor de produção, que é mesmo incrível e torna o filme esteticamente deslumbrante. A megacidade asiática futurista imaginada no anime dos anos 90 parece agora bastante presente, com o bairro eletrónico de Akihabara a brilhar monstruosamente em néon e "outdoors" de holograma. Major balança pela cidade, num momento Homem-Aranha, pronta para lutar contra hackers e terroristas onde quer que estejam. Infelizmente, a banda sonora ousada que ajudou o original a ser um sucesso, foi substituída pelos mesmos sintetizadores sombrios que deram outro alento a projectos como os filmes de Nicolas Winding Refn, ou Stranger Things, mas remetida lá para o fundo, completamente despercebida.

Os produtores do filme parecem ter tentado justificar uma actriz branca a interpretar Major, transformando essa cidade asiática – que parece Tóquio – de uma urbe monocultural para uma visão multirracial futurista. No entanto, enquanto Major atravessa uma grande janela de vidro para destruir uma sala cheia de empresários ricos - uma cena de abertura realmente impressionante - ficas a imaginar porque é que parece que não há ali nenhum japonês. 

"É óbvio porque é que Scarlett Johansson foi escolhida para o papel: ela tem uma ligação à memória do público".

A resposta a essa dúvida chega de uma forma desesperadamente rápida, quando somos apresentados à equipa que trabalha com Major: um afro-americano, uma inglesa, a estrela francesa Juliette Binoche, entre outros. Algumas críticas anteriores tinham elogiado o apelo global da decisão, mas, para mim, parece apenas forçado. Um dispositivo usado pelos produtores, numa tentativa de abafar reclamações sobre questões de representatividade.

É óbvio porque é que Scarlett Johansson foi escolhida para o papel: ela tem uma ligação à memória do público. Já foi uma triste outsider no Japão em Lost in Translation, uma super-heroína perigosa em Avengers; uma alienígena em Under the Skin e a voz sexy de um sistema operacional em Her. Quando a vemos como um robô com alma, subconscientemente fazemos essas ligações e sentimo-nos protegidos da sua estranha realidade.

Mas, no entanto, ela não é tão interessante como Major deveria ser. E isso não é só culpa da actriz – os temas subtis presentes no anime original são aplainados ou exagerados no filme, o que só prejudica o resultado geral. Na versão original há muitas nuances nos sentimentos de Major, enquanto ela examina o que é estar viva. 

Aqui, o mantra que ela deve seguir é repetido tantas vezes, que parece que levaste uma cacetada na cabeça com ele: "Apegamo-nos a memórias, como se elas nos definissem, mas não definem. O que fazemos é o que nos define". O passado não significa nada; o que importa é como vivemos. Profundo. Esta "hollywoodização" era esperada. E, se as emoções têm de ser sacrificadas pela acção espetacular, então é quase melhor aceitarmos que assim é e tentar curtir o filme pelo que ele é.

"O filme é altamente ambicioso e atinge o sucesso em algumas áreas, mas deixa a desejar e é descaradamente insípido noutras".

O remake confia fortemente na recriação dos momentos icónicos do original, em sequências HD. Há a parte da luta entre Major e o motorista fugitivo na água, o digitador de muitos dedos na carrinha, a cena longa dos camiões a percorrerem ruelas estreitas. Se o realizador, Rupert Sanders, não tivesse incluido essas cenas, teria de ter pensado em algo melhor. Incluíndo, havia o perigo de que os espectadores vissem o remake apenas como uma cópia do original. Mas foi uma boa decisão de Sanders. Num ecrã IMAX são momentos cheios de textura e realmente bonitos.

Este Ghost in the Shell deixa-te, portanto, com sentimentos dúbios. O filme é altamente ambicioso e atinge o sucesso em algumas áreas, mas deixa a desejar e é descaradamente insípido noutras. No geral, a maioria pode concordar que é um filme de ficção científica decente e um modelo para fazer melhor filmes chatos de super-heróis. Não é péssimo, mas dificilmente vai – como disse o Telegraph  – "provar que os puristas estão errados". De qualquer maneira, provavelmente deves ir porque, imagino eu, alguém, algures, estará já a rascunhar um franchise de mais três filmes com Scarlett Johansson enquanto falamos.

@hannahrosewens