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DJ Marfox Vê Novela Brasileira e É o Novo Nome Confirmado do Novas Frequências

Pela primeira vez no Brasil, o produtor português se apresenta no Rio e em São Paulo em dezembro. Se liga no papo que levamos com ele.

Que a gente curte o Novas Frequências, você já sabe. Agora o que você não está ligado é a novidade que vem por aí. Depois de anunciarmos a vinda de Ben Frost e outros quatro nomes para a edição desse ano do festival carioca, você fica sabendo a-go-ra que o DJ Marfox é o mais novo nome confirmado do line-up.

Chico Dub ficou de antenas ligadas no som do produtor português ao conferir o casting dos artistas da Principe Discos. O curador do novas Frequências diz que Marfox é bem a carinha do festival. "Queria dar um destaque para a produção de Portugal, país que vem me surpreendendo", diz ele. "Esse recorte tem a ver com um programa que montei celebrando batidas ancestrais e tribalistas com um viés contemporâneo", manda.

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Marlon Silva aka. Marfox tem ganhado destaque como novo nome do kuduro. Quer dizer, o cara bota a geral para rebolar. Filho de imigrantes da ilha de São Tomé e Príncipe, Marfox cresceu no gueto português jogando videogame e o resultado? O 8-bit com kuduro do seu primeiro EP Eu Sei Quem Sou. Ele toca no Novas Frequências dia 5 de dezembro e cola em São Paulo no dia 6 para um DJ sete na Neu Club. Pra entender melhor desse parangolé, a gente trocou uma ideia com o Marfox. Vê só:

THUMP: Marfox, qual sua primeira lembrança musical? E quando a música se tornou algo realmente importante para você?
Marfox: Eu cresci ouvido música, e um primo que ainda hoje é DJ teve um papel importantíssimo para a minha ambição de ser um DJ. Não sei se isso é considerada propriamente uma lembrança musical, mas foi o que me marcou mais enquanto miúdo. A música tornou-se realmente importante para mim em 1993, quando tive o primeiro contato com o kuduro. O kuduro oriundo de Angola era trazido em cassetes de áudio pelos emigrantes angolanos que fugiam da guerra que se tinha instaurado em Angola e muitos desses emigrantes viviam no meu bairro, e não demorou para moda da dança e da música pegar. Quando ouvi a música pela primeira vez, confesso que fiquei completamente boquiaberto de tanta felicidade. Anos mais tarde, o DJ Znobia mostra um lado mais cru do Kuduro, algo mais veloz, mais dançante e sem MC cantando em cima do beat. Esses três fatores - o primo DJ, a chegada do Kuduro em 1993 e a evolução que o Dj Znobia fez a músicas - criaram dentro de mim o crer e o acreditar que podia criar a minha própria música e mostrar ao mundo as coisas que crio dentro do meu quarto.

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Em linhas gerais, como foi sua infância-adolescência? Você aprendeu tudo que sabe na prática?
Eu cresci às portas de Lisboa em um bairro de barracas, onde a vida não foi, não era e nunca será fácil. Brinquei como todas as outras crianças, tive poucos recursos, mas usava-se a criatividade para de certa forma colmatar certas desigualdades. E se era feliz, eu nunca paguei para ser feliz, tudo o que me deixa mais feliz e me faz realmente bem foi me dado de graça, tudo o que sei veio da troca entre a minha vontade e teimosia aliadas a bondade de dois amigos e colegas de profissão (DJ Nervoso & DJ N.K). Eu já caminhava entre mix e remix, mas eles mostraram-me o lado de ser original, ser produtor e ir mais avante.

Você mescla sons de videogame a sonoridades africanas. Como chegou a essa receita?
É muito simples. Há uns anos os videogames tinham uma falha que, indo à pasta no seu computador onde o jogo era instalado, você tinha acesso com muita facilidade à pasta onde continha os samplers dos jogos. Ou seja, eu tinha todos os sons que o jogo reproduzia quando estava jogando. Era a forma mais humilde de nós termos samplers de forma gratuita.

Você veio do gueto, não é? Viver à margem ajudou você a fazer a música que faz?
Sim, vim do gueto. A música viveu durante mais de dez anos em comunidade fechada, até o lançamento do meu primeiro disco pela Principe Discos, em 2011. O gueto deu a esta música uma forma não dita "clean" e sem influências de outras tendências que estavam a acontecer pelo mundo e isso criou a sonoridade do kuduro de Lisboa.

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Você já falou que se sentia um imigrante no próprio país? Isso melhorou?
Sim e continuo a sentir e de certa forma não melhorou. Em Portugal não há representatividade negra na TV, na rádio ou na imprensa. Tenho esperança de que um dia isso mude, mas pelo andar das coisas ainda levará alguns longos e bons anos.

E como é a cena eletrônica em Portugal? Há uma melhor interação?
Em Portugal há dois padrões dominantes, o house e o Techno, que são os dois estilos onde há espaço de manobra para se respirar. As coisas para o lado do kuduro lisboeta ainda são vistas com alguma desconfiança, mas a pouco e pouco as coisas estão a melhorar, estamos todos a trabalhar no caminho certo para que isso mude.

É a primeira vez que você vem ao Brasil, não é? Você ouve música brasileira? Tipo o quê?
Sim, é primeira vez. Confesso que é a realização de mais um sonho. Sim, conheço o trabalho de artistas como Caetano Veloso, Roberto Carlos, Rio Negro & Solimões, Gabriel O Pensador, Racionais MC's, MC Marcinho, Tati Quebra Barraco, Beija Flor Samba, Só Pra Contrariar, Ivete Sangalo. Fico por aqui porque a lista é interminável. Cá nos subúrbios de Lisboa as comunidades africanas têm uma forte ligação ao Brasil e muito se deve ao simples fato de muitos de nós sermos fãs assíduos das novelas da Rede Globo.

Para terminar, dá para listar cinco músicas que você não vive sem?

1 - Dj N.k - MSN

2 - Dj Fofuxo - Pai Magro

3 - Dj Nervoso - Maxete

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4 - Dj N.k - Angola Zurik

5 - Dj Nervoso - E os meus Bebes

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* Colaborou Jacqueline Elise