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Saúde

Há décadas que somos cobaias de uma experiência falhada de nutrição

A gordura nunca foi o "bicho-papão" que as autoridades pintaram, mas os alimentos vendidos sob os rótulos “leve” e “baixo teor de gordura” têm sido um desastre para a saúde pública.

Por Markham Heid
02 Janeiro 2017, 5:24pm

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Vamos imaginar que queres perder peso. Quais destes alimentos escolherias: um latte com leite desnatado, ou a mesma bebida com leite integral? Uma barra de cereais de alta caloria, ou um bife com ovo a cavalo? Uma salada com um molho leve, ou a mesma salada com um molho especial de maionese de alho?

Como a maioria das pessoas, ou não sabes o que responder, ou tens muita certeza... mas estás errado. E a culpa não é tua. A culpa, segundo especialistas, é de décadas de conselhos nutricionais errados ou equivocados. Conselhos que nunca foram baseados em ciência séria e concreta.

Nos anos 80, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos da América, juntamente com uma agência hoje em dia chamada Health and Human Services, lançou um conjunto de directrizes alimentares. O livreto de 20 páginas focava-se, principalmente, em três "vilões" da saúde: gordura, gordura saturada e colesterol. Ainda assim estudos recentes garantem que gordura e colesterol, na verdade, são elementos benignos e não prejudiciais na dieta. E parece que a gordura saturada pode receber o mesmo perdão.


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"A ciência em que essas directrizes se baseavam estava errada", assegura à VICE Robert Lustig, um neuroendocrinologista da Universidade da Califórnia, São Francisco. Principalmente a ideia de que cortar a gordura da dieta trazia algum benefício para a saúde, nunca foi apoiada por nenhuma evidência real, segundo Lustig.

Em Setembro de 2016, colegas de Lustig da UCSF divulgaram um relatório incendiário, que revelava que, nos anos 60, o lobby da indústria do açúcar financiou uma investigação que ligava doenças do coração à gordura e ao colesterol, enquanto minimizava evidências de que o açúcar era o verdadeiro vilão nesta história.

Nina Teicholz, jornalista de ciência e autora de The Big Fat Surprise, diz que muita da pressão contra a gordura veio da Associação Norte-Americana do Coração (AHA em inglês), que baseava o seu caso no facto de a gordura ser duas vezes mais calórica que as proteínas e os hidratos de carbono.

"O conselho para evitar gorduras, permitiu que a indústria alimentar promovesse furiosamente alimentos de baixo teor de gordura e e alto teor de hidratos de carbono, como 'leves' ou 'saudáveis' e isso tem sido um desastre para a saúde pública" - Robert Lustig

"[A AHA] não tinha dados clínicos para mostrar que uma dieta rica em gorduras, só por si, provocava obesidade, ou doenças cardíacas", explica Teicholz. Mas, como a gordura é altamente calórica, adoptaram uma posição anti-gordura e o governo seguiu-lhes o exemplo. E claro, a investigação dos anos 60 comprada pela Associação do Açúcar, que foi publicada no prestigiado New England Journal of Medicine, pôs ainda mais lenha na fogueira do nosso medo colectivo de engordar.

Nos anos 90, quando, segundo Teicholz, dados epidemiológicos começaram a aparecer, que mostravam que uma dieta baixa em gorduras e rica em hidratos de carbono não ajudava a perder peso, ou a evitar doenças do coração, o estrago já estava feito. O público norte-americano tinha mergulhado de cabeça no que os especialistas em nutrição chamam de "fenómeno Snackwell" - uma devoção a alimentos processados, de baixas calorias e baixo teor de gordura, aqueles que as pessoas compram em saquinhos, porque acham que são saudáveis.

"Esse conselho para evitar gordura permitiu que a indústria alimentar promovesse furiosamente alimentos de baixo teor gordura e alto teor de hidratos de carbono, como 'leves' ou 'saudáveis' e isso tem sido um desastre para a saúde pública", sublinha Lustig. E as estatísticas apoiam esta afirmação. Desde que o governo norte-americano publicou as directrizes nutricionais, nos anos 80, as taxas de obesidade e doenças relacionadas com o peso, como a diabetes, mais que duplicaram nos EUA. "A diabetes infantil era quase desconhecida, agora é uma epidemia", considera Lustig.

No exterior, as autoridades de saúde seguiram o exemplo dos EUA e condenaram a gordura. Os resultados são similarmente sombrios. No começo de 2016, a organização sem fins lucrativos do Reino Unido, National Obesity Forum (NOF), publicou uma condenação intensa das políticas dietéticas e de nutrição do governo inglês.

Nesse relatório, a NOF argumenta que o conselho para cortar a gordura e o colesterol é "a raiz" das taxas crescentes de obesidade e diabetes em Inglaterra. Em declarações prestadas depois da publicação, Aseem Malhotra, cardiologista britânico que fez a consultoria para o relatório do NOF, disse: "A mudança nos conselhos dietéticos para promover alimentos de baixo teor gordura talvez seja o maior erro da história médica moderna". Além de rasgar as "políticas fracassadas", o relatório do NOF pede uma "revisão completa dos conselhos dietéticos e mensagens de saúde pública".

Num editorial recente do British Journal of Sports Medicine, a investigadora Zoe Harcombe, da Universidade do Oeste da Escócia, explica que as taxas de obesidade entre mulheres e homens britânicos subiram de 2,7 por cento em 1972, para 23 por cento e 26 por cento, respectivamente, em 1999. "Há apenas três macronutrientes", explica Harcombe à VICE, "proteína, gordura e hidratos de carbono". Quase tudo o que comes ou bebes contém um ou mais desses elementos. "E se seguires o conselho do governo para comeres menos gorduras, inevitavelmente o consumo de hidratos de carbono dispara", acrescenta. Que foi exactamente o que aconteceu com a população em geral durante os anos 80 e 90.

"Toda uma geração de profissionais de saúde aceitava - e passava aos seus pacientes - o guia do governo que dizia para evitar gordura e colesterol. Muitos ainda passam". - Nina Teicholz

Realce-se que, a última versão das directrizes dietéticas do governo norte-americano não aponta que é preciso restringir o consumo total de gordura e colesterol. Mas essa omissão é mais um passo atrás furtivo, do que um reconhecimento público do erro, considera Teicholz. Pior, acrescenta: "Quando observas o modelo nutricional actual que o governo usa para dar conta dos programas de alimentação, como o programa de almoço das escolas públicas, ele ainda se baseia em baixos teores de gordura".

Outro exemplo da persistente cruzada do governo norte-americano contra a gordura: o 2015 Dietary Guidelines for Americans, diz que leite desnatado é melhor que integral. Uma recomendação que as últimas investigações não apoiam. "Os estudos não mostram benefícios dos laticínios desnatados sobre os integrais na perda de peso, especialmente se as calorias da gordura são substituídas por açúcar", diz Walter Willett, presidente de nutrição da Harvard School of Public Health, à VICE. "Na verdade, as evidências mostram o contrário", salienta.

Willet é rápido a acrescentar que não considera que leite e queijo integrais sejam "alimentos saudáveis". Nozes, por exemplo, são uma fonte saudável de gordura, explica. Mas, se vais beber leite ou comer um iogurte, as evidências sugerem que a tua cintura pode dar-se melhor com a versão integral. Provavelmente, porque é mais satisfatória e evita que comas demasiado.

Techolz diz que é difícil exagerar os efeitos internacionais da posição pró hidratos de carbono e anti-gordura das autoridades de saúde. Toda uma geração de profissionais de saúde aceitava - e passava aos seus pacientes - o guia do governo, que dizia para evitar gordura e colesterol. Muitos ainda passam.

"A credibilidade profissional e institucional está em jogo", responde, quando questionada porque é que mais médicos e legisladores não estão a fazer barulho sobre os danos causados pelas directrizes alimentares do governo. Ela também menciona os interesses da indústria alimentar, a brecha para "grandes processos colectivos" e a vergonha de lidar com quase meio século de maus conselhos, como impedimentos para que o USDA e outras autoridades de saúde admitam que estavam errados.

No Reino Unido, a desconexão entre a ciência nutricional e as políticas alimentares do governo abriu fendas na comunidade da saúde pública. Desde a publicação do relatório, o National Obesity Forum perdeu quatro membros séniores e o resultado iniciou um debate nacional entre médicos, cientistas de nutrição e legisladores, sobre que tipo de alimentos pertencem a uma dieta realmente saudável.

"Os nossos relatórios anteriores chamaram pouca atenção, não sabíamos que este iria espalhar-se pelo Mundo", afirma David Haslam, presidente do National Obesity Forum e professor de ciência da obesidade, da Universidade Robert Gordon. Repetindo o conselho dado pelo relatório da sua organização, Haslam diz que acredita firmemente que a saúde pública melhoraria muito, se todos comessem menos hidratos de carbono refinados - coisas como produtos assados, salgadinhos, cereais matinais e outros alimentos industrializados, bem como açúcar - e comessem mais "alimentos naturais", independentemente do seu macronutriente principal.

Este último ponto - que deveríamos prestar menos atenção ao nutriente que compõe a nossa comida - é muito importante. Willet, professor de Harvard, diz que focarmo-nos apenas num conteúdo macro ou micro dos alimentos é confuso, uma maneira má de avaliar o impacto de um item na saúde.

Mas o que é uma pessoa deveria fazer então, no que diz respeita à dieta?

Jenny Knight, 30 anos, é terapeuta e mãe de dois filhos em Norman, Oklahoma, nos EUA. "Luto com o meu peso desde os oito anos de idade", salienta. Com 1,77 metro e perto de 110 quilos, ela é obesa por qualquer definição. Como muitos gordos norte-americanos, Knight já experimentou centenas de dietas que, resumindo, defendiam cortar a gordura, ou as calorias, para perder peso. Mais tarde, ou mais cedo, todas fracassaram. "Mesmo quando funcionavam, era tudo uma questão de força de vontade. Ficava com tanta fome que tremia e acabava por não conseguir continuar e ganhava o peso todo outra vez", explica.

Mas, desde Fevereiro, Knight faz uma dieta baseada em gordura, defendida por David Ludwig, professor de nutrição da Harvard. À VICE, Ludwig diz que cortar a gordura da dieta em favor de hidratos de carbono processados, pode desencadear uma cascata de mudanças metabólicas prejudiciais, que alimentam doenças como a diabetes e fazem as células de gordura do corpo trancarem - em vez de libertarem - a sua energia. Tudo isso resulta numa fome "fora de controlo", garante o especialista. Cortar mais calorias da dieta é como lançar gasolina numa fogueira.

O seu plano, que detalha no livro Always Hungry?, defende que a pessoa deve afastar-se de alimentos com muitos hidratos de carbono processados, em favor de uma dieta rica em gordura de nozes, laticínios integrais, óleos naturais e outros alimentos integrais.

Até agora, Knight já perdeu 14 quilos com o plano de Ludwig. Mas não é apenas a perda de peso que a mantém optimista. "É a única dieta que já experimentei que parece não provocar sofrimento. Não exige força de vontade. Honestamente, parece meio decadente comer coisas como chocolate amargo, manteiga de amendoim ou leite de coco e não já tenho a fome que costumava ter", revela.

A dieta de Ludwig pode ou não ser a resposta para todas as tuas preces relativas ao emagrecimento. Mas, uma coisa é certa: a gordura nunca foi o "bicho-papão" que as autoridades de saúde pintaram. "Acho que toda a gente estaria 90 por cento no caminho de uma dieta realmente saudável se cortasse os alimentos processados", garante Lustig, da UCDF. E acrescenta: "Não precisaríamos de directrizes de dieta, se nos alimentássemos com comida a sério".


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