Um psicólogo explica como o cinema retrata os transtornos mentais

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Num filme de terror clássico – Pesadelo em Elm Street, Sexta-feira 13, Shinning – é bem possível que a trama seja sobre algum transtorno mental. É uma explicação conveniente, mas imprecisa, dada a violência que está na base de todas estas histórias. No entanto, na maioria dos filmes que retratam um transtorno mental (sobretudo os filmes de terror sangrentos e violentos), para dar mais intensidade à acção, normalmente não sabemos qual é a verdadeira patologia.

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Na melhor das hipóteses é-nos dada uma descrição imprecisa e, na pior das hipóteses, é-nos transmitida uma diabolização (de forma repetida) daqueles que mais precisam de ajuda. Há pouco tempo escrevi um artigo sobre a quantidade desproporcionada de doentes mentais que a polícia abate nos Estados Unidos e muitas pessoas responderam-me: “Pois claro, são muito mais perigosos”. Qualquer pessoa que trabalhe no campo da saúde mental pode desmentir esta afirmação, mas este é o resultado do ênfase que os meios de comunicação dão à relação fictícia entre doença mental e violência.

Entrei em contacto com Danny Wedding, ex-director do Instituto de Saúde Mental do Missouri e co-autor de Movies and Mental Illness: Using Films to Understand Psychopathology, para saber mais sobre alguns destes mitos tão comuns no cinema.

VICE: Que opinião tens acerca da forma como os filmes representam os transtornos mentais?

Danny Wedding: Os filmes violentos, como é o caso, por exemplo, de Sexta feira 13, transformam as pessoas com transtornos mentais em maníacos homicidas. Estas representações não são positivas e dão uma impressão errada. No entanto, há muitos filmes importantes que retratam perfeitamente estas doenças. Cada vez é mais comum que os realizadores contratem psicólogos e psiquiatras para assessorá-los.

Podes explicar um pouco melhor a ligação entre violência e transtornos mentais?

Talvez o mito mais comum seja o de que as pessoas com doenças mentais são violentas e perigosas, embora também se saiba que uma pessoa esquizofrénica, por exemplo, está muito mais vulnerável à violência do que aqueles que a rodeiam. As pessoas com transtornos mentais, os indigentes que vemos nas ruas, eles sim, são as verdadeiras vítimas. São roubados, violados e assassinados, mas não são ladrões, violadores nem assassinos. De uma forma geral, os episódios violentos acontecem com algum familiar e não com um estranho. E, na maioria dos casos, este doente mental está sob o efeito de drogas ou álcool.

Achas que a forma como representam os psicólogos também é desajustada?

Sim, mas menos que antes. Há vários motivos recorrentes. Às vezes representam-nos como incompetentes, ou tontos. Viste o filme What About Bob?

Por acaso acho que o vi há pouco tempo. É um filme com o Bill Murray?

Exacto. Gosto muito desse filme, embora o Richard Dreyfuss interprete um psicólogo um bocado incompetente e trapalhão. Há uma grande parte de humor, mas, muitas vezes, os psicólogos são representados como ingénuos, tontos e irrelevantes. Também há o caso de Psycho, de Hitchcock, onde nos retratam como seres omniscientes, como se pudéssemos ver o lado profundo e obscuro, ver o que mais ninguém vê.

Outras vezes, em filmes como O Silêncio dos Inocentes, apresentam-nos como assassinos (o Hannibal Lecter era psiquiatra). No filme O Príncipe das Marés retratam os psicólogos como pessoas imorais. É também comum no cinema que os psiquiatras tenham relações com os seus pacientes. Em Tin Cup, o terapeuta troca sessões de psicoterapia por aulas de golf e acaba por seduzir uma jogadora profissional. Representam-nos como pessoas a quem a ética não importa, como se fossem profisisonais inúteis e não tivessem as habilidades que dizem ter.

Que filme representa melhor este mundo?

Há um filme canadiano chamado Clean, Shaven que fala sobre a esquizofrenia. Não sei se o viste, não é muito conhecido, mas é um filme que recomendo sempre que me fazem esta pergunta. Também há um filme mais recente chamado Guia para um final feliz, que retrata muito bem o que é o transtorno bipolar. Viste As horas? É um filme sobre a Virginia Woolf. Não há a menor dúvida de que a Virginia Woolf sofria de um transtorno bipolar. Foi muito bem retratado.

Achas que nos últimos anos os filmes evoluíram neste aspecto?

Sim. O Ron Howard fez um trabalho espectacular em Uma mente brilhante. Ron é um realizador extraordinário. O filme dá-nos uma perspectiva muito empática de John Nash, um homem brilhante. A personagem tem alucinações visuais, quando a maioria das pessoas com esquizofrenia paranóica tem alucinações auditivas, mas Ron Howard tomou a liberdade de mudar algumas coisas, porque é muito mais criativo, vivo e poderoso mostrar uma alucinação visual.

Disseste que há outros mitos nos filmes. Podes explicar quais são os mais recorrentes?

O primeiro é a suposição de que tudo advém de um trauma. Os filmes sugerem que se alguém desenvolve uma doença mental é porque alguma coisa horrível lhe aconteceu no passado, provavelmente durante a infância. As três faces de Eva, e outros filmes que falam de transtornos dissociativos, muitas vezes insinuam que alguém sofreu um abuso físico ou sexual quando era criança. Talvez tenhas visto o Robin Williams em O Rei Pescador. Representou maravilhosamente um homem com sintomas de esquizofrenia. Mas só desenvolve esta doença quando a sua namorada é assassinada num restaurante, acontecimento que normalmente provoca um transtorno de stress pós traumático.

Não podemos tornar-nos esquizofrénicos através de uma só experiência. A verdade, é que há muitas pessoas que desenvolvem problemas mentais sem terem sofrido qualquer trauma. Outro mito é que a culpa é do pai esquizofrénico e que se alguém desenvolve um transtorno mental a culpa é dos pais, que não o trataram bem. Ou então, que o amor basta para curar este tipo de transtorno. Acho que o amor é importantíssimo e ter uma família que cuide de ti e te apoie é crucial para poder superar um transtorno mental, mas o amor sozinho não cura a esquizofrenia.

Qual foi o filme que mais te indignou?

Um filme antigo com o Jack Nicholson: Shinning. Neste filme, o protagonista transforma-se num assassino que quer matar a mulher e a filha. Em Pesadelo em Elm Street, Freddy Kruger é um paciente que tem um transtorno mental e cuja mãe também esteve num hospital psiquiátrico. Estas são as representações mais desajustadas. Em quase todos os filmes os transtornos mentais estão associados à violência e, de certa forma, à sexualidade. Ou seja, os doentes mentais não só matam pessoas, também as violam.

Taxi Driver é um filme muito violento, mas sempre admirei a transição de Travis Bickle em direcção à loucura. Na maioria dos filmes essa transição é muito rápida.

É um dos melhores filmes de todos os tempos. Scorcese é um excelente director. Acho que Taxi Driver é um retrato muito fiel dos transtornos mentais. A maioria dos transtornos mentais não são óbvios e têm um começo lento e gradual. É provável que a esquizofrenia comece durante a adolescência e se manifeste completamente depois dos 20 anos. Outras doenças, como o Alzheimer, podem começar lentamente, depois de chegar aos 60. Mas há alguns transtornos que começam de repente. Sabes o que é o transtorno de conversão?

Não.

Vejamos o exemplo da cegueira histérica. Um caso clássico seria uma mulher que vê o seu filho ser atropelado e depois fica cega. É examinada por oftalmologistas, optometristas, especialistas e neurologistas, mas ninguém encontra nenhuma razão para a sua cegueira, embora ela seja real. Assume-se que, de alguma maneira, é a forma que o seu cérebro encontra para apagar o acontecimento.

Que outras coisas podem provocar transtornos mentais na vida real?

Existem tantos transtornos mentais, que é como perguntar: Qual é a principal causa das doenças? Há muitas coisas que provocam transtornos mentais. Sabemos que a genética tem um papel importante. A probabilidade de que um filho se suicide é quatro vezes maior se algum dos seus pais tiver cometido suicídio. O stress também é um factor importante, assim como as experiências traumáticas. Vimos muitos casos de soldados com transtornos mentais depois de voltarem do Iraque. Uma das razões pelas quais desenvolveram estes transtornos é porque viveram um trauma. As causas são muitas. São histórias que costumam dar material interessante para fazer um bom filme.

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