Entretenimento

O apelo peculiar dos chinelos de peixe na pandemia

Como tie-dye, patins e “vestidos de morangos”, chinelos em formato de peixe se tornaram uma nova tendência de compras inesperada.
Bettina Makalintal
Brooklyn, US
MS
Traduzido por Marina Schnoor
13.8.20
four pairs of feet posed in a circle while wearing coddies classic fish flip-flops
Foto cortesia da Coddies.

Algumas semanas depois do começo do lockdown, “compras de isolamento” convenceram as pessoas a fazer algumas “escolhas estranhas”, como forma de bolo em formato de ovelha, látex líquido ou uma caixa de $60 de massa de cookie, como os leitores contaram pra VICE em março. Enquanto a pandemia seguia, as compras alimentadas pelo tédio para as pessoas com o luxo de ter renda sobrando também continuaram. Na parte prática do espectro, calças de moletom deram lugar para “vestidos de cochilo” e o revival dos shorts de ciclista; equipamentos de exercício continuam com alta procura; e acessórios de máscara e óculos bloqueadores de luz azul ganham fôlego como mudanças de estilo de vida.

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Mas algumas compras de isolamento continuam sendo simplesmente bobas. Pessoas estão fazendo tie-dye em tudo. Como resultado da popularidade em ascensão nas redes sociais, patins estão esgotados no mundo todo, e o TikTok especificamente catapultou o “vestido de morangos” de $490 da estilista Lirika Matoshi para tamanha fama na internet que o vestido teve que ser feito no Animal Crossing para impedir as pessoas de comprar versões falsas. Enquanto isso, outros estão surtando com chinelos de plástico que fazem parecer que você enfiou o pé num peixe inteiro, com os dedos saindo pela boca dele. 

“Sandália? Já era”, escreveu Laura Bradley do Daily Beast em julho. “Estamos no verão dos ‘Fish Flops’.” E parece que é mesmo — em várias redes sociais, as pessoas estão exibindo seus chinelos de peixe.

Vários vendedores na Amazon e Wish oferecem chinelos de peixe, como Zing Tsjeng da VICE Reino Unido descobriu no começo do ano, mas a marca mais conhecida vendendo o calçado é a Coddies, uma empresa de calçados diferentões cujo produto marca registrada é o “Fish Flip Flop”. Os chinelos vêm numa variedade de espécies, incluindo o clássico peixinho dourado e a cavala prateada. (Apesar de Bradley e outros usaram “fish flops” para se referir a chinelos como os da Coddies, Fish Flops é outra empresa que vende pantufas de pelúcia, tamancos, galochas e chinelos com estampa de peixe.)

Jack Bennet, um aficionado por trocadilhos com peixes e que assina seus e-mails com “Flounder [linguado] & Director”, começou a Coddies em abril de 2018 inspirado em calçados que ele viu numa viagem para a Tailândia. Quando era adolescente, Bennet vendia raças raras de galinhas de estimação, mas ele queria fazer uma marca de calçado que permitisse que as pessoas se expressassem livremente. Agora, Bennet descreve a Coddies como “calçados divertidos, únicos e confortáveis — exatamente o que precisamos quando estamos amontoados feito sardinhas”. (Mas não são só peixes: A empresa também vende calçados em formato de banana e repolho.)

Segundo Bennet, que não pode fornecer números específicos, a Coddies inicialmente viu uma queda nas vendas no começo da pandemia, mas o interesse vem crescendo desde então. Para Bennet, Coddies não são só confortáveis para ficar em casa ou andar pelo quintal, mas também podem melhorar o humor das pessoas. Se você vai ficar de chinelo em casa, por que não usar um calçado engraçado?

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“2020 não está sendo ano muito bom, e as pessoas estão procurando algo divertido para animar o dia delas e das pessoas ao redor”, ele disse. “É muito difícil alguém não sorrir quando vê nossos calçados!”

Foi exatamente por isso que a designer gráfica Jennifer Norwood comprou um par de chinelos de peixe no começo de julho. Ela estava procurando chinelos para usar em casa quando “finalmente foi vítima” da propaganda da Coddies que ela viu no Instagram algumas vezes. “Sim, loucura da quarentena + alguns drinques + compras por impulso me levaram a isso”, disse Norwood. “O apelo é que eles são totalmente ridículos. Eles me fazem rir… uso os chinelos em casa quase todo dia para minha própria diversão. Mal posso esperar uma oportunidade de usar eles para sair!”

Faz sentido —  considerando as circunstâncias globais — que os hábitos de compra das pessoas tenham dado uma guinada estranha. Humanos precisam se sentir no controle, e a pandemia tirou isso de nós. “Pesquisas mostram que quando controle é tirado de você em um domínio, você tenta exercer isso em outros”, disse Colleen Kirk, professora de marketing do Instituto de Tecnologia de Nova York, focada no papel das emoções e propriedade psicológica em comportamento do consumidor. E outro domínio pode ser compras.

“Por exemplo, se nossos meios de socialização e diversão estão indisponíveis agora, podemos estar mais inclinado a comprar coisas que são mais divertidas e frívolas do que antes”, ela disse. “Além de nos deixar felizes, essas compras dão a ilusão de controle num mundo onde não temos mais tanto.” E é aí que entra a obsessão por tie-dye, vestidos de morangos e chinelos de peixe.

Com uma necessidade aumentada de estímulo, jovens têm mais chance de ser atraídos por itens diferentes, disse Kirk. Talvez por isso muitas dessas tendências bobas de compras vêm do TikTok, onde 69% dos usuários têm de 13 a 24 anos, como mostrou uma pesquisa de março de 2019. Segundo Kirk, produtos bizarros podem funcionar como um jeito de explorar novos produtos e experiências, e experimentando algo novo, podemos nos sentir “competentes e bem com nós mesmos”.

Em abril — quando aparentemente todo mundo estava tentando fazer café dalgona em casa, dando festas no PowerPoint e assando pão — Terry Nguyen da Vox explorou as “microtendências” da quarentena. “Há uma mentalidade coletiva cultural da quarentena se desenvolvendo em plataformas como o TikTok, stories do Instagram e Zoom, permitindo que microtendências surjam e desapareçam ainda mais rápido que antes”, ela escreveu, concluindo que a natureza participativa social dessas tendências ajuda a lidar com a solidão.

Mesmo que tendências específicas tenha mudado e que muita gente tenha cortado o número de encontros pelo Zoom agora, a ideia ainda é verdade. Quando se trata das tendências de consumo durante a pandemia, disse Kirk, “Compartilhar essas tendências com os outros pode aumentar um senso de conexão social e ajudar a reduzir a distância psicológica entre nós”. Claro, as pessoas também seguiam tendências quando não estávamos na pandemia, mas com uma necessidade maior de conexão, além do prazer instantâneo de comprar algo novo e engraçado, e o fato de que muita gente ainda está isolada, não é surpresa que esse cérebro de pandemia nos arraste para essas novas tendências estranhas.

Mas você não precisa de uma desculpa para comprar chinelos de peixe. Está nervoso? Vai pescar o seu.

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