análise

Os jovens descobriram que sair à noite já não é assim tão espectacular

Não deveria ser surpreendente que os nascidos entre os atentados do 11 de Setembro e a crise financeira mundial sejam um pouco mais austeros e cautelosos que a geração anterior.

Por Harry Cheadle
17 Junho 2016, 11:00am

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Onde quer que vás, os millennials estão a ultrapassar os limites do convencional e a desafiar as regras: quase elegem políticos, usam hoverboards que, basicamente, são apenas Segways e escrevem artigos de opinião a transbordar de auto-elogios. O Mundo é agitado e os jovens estão a assumir o comando. Um novo exemplo: a nossa geração é a pioneira a admitir que sair à noite não é fixe.

"São a melhor geração...de pessoal enfiado no sofá". É assim que o New York Post descreve os jovens num dos artigos mais incríveis alguma vez escritos. Do que é que nos acusam? De passar mais tempo a ver televisão e agarrados ao telefone que os nossos antecessores, a Geração X; evitamos a vida social em carne e osso e "preferimos passar uma noite tranquila em casa".

Nem sequer somos suficientemente cool para nos embebedarmos. "Uma sondagem levada a cabo pela Heineken em 2016 revela que, quando os jovens se aventuram em sair, 75 por cento bebem com moderação". O jornal avança alguns motivos que explicam este aparente estado de sonolência permanente dos millennials, incluindo as declarações de um neurologista, que afirma que algumas das explicações se podem encontrar no facto de os casos de esgotamento nos jovens estarem a aumentar e que a vida nocturna nas grandes cidades é demasiado cara.

Mesmo os que não estão permanentemente cansados e esgotados evitam as formas tradicionais de socialização, como ir a um qualquer bar obscuro beber shots à espera que algo aconteça. Terá isto tudo a ver com as redes sociais? E as saídas amorosas? O que é feito delas? "Também há aquela cena do 'netflix e relaxar', não sei... é uma coisa que está na moda, não?", diz um jovem ouvido pelo Post.

Poderíamos apresentar vários argumentos geracionais para explicar o porquê de os jovens preferirem ficar em casa; ao fim e ao cabo, não deveria ser surpreendente que os nascidos entre os atentados do 11 de Setembro e a crise financeira mundial sejam um pouco mais austeros e cautelosos que a geração anterior. É preciso recordar que essa geração era tão decadente e estava tão alienada da realidade que, para eles, a flanela era uma moda e a sua série de televisão favorita era sobre seis pessoas que passavam a vida num café e fodiam entre eles de vez em quando.

Os millennials, ao contrários dos hedonistas depravados de Friends, que tinham macacos como bichos de estimação, são austeros e evitam os riscos. Duas características que não ligam muito bem com transformar os sábados à noite em domingos de manhã. Se tivermos em conta que os jovens têm graves problemas financeiros, é lógico que não queiram gastar 100 euros com amigos, para acabarem a regressar a casa descalços e passarem o dia seguinte agarrados à cabeça.

Ou então, talvez seja porque agora os millennials já incluem pessoas nos trintas, que vêem cada vez mais próximo o dia da reforma e não estão dispostas a desperdiçar o fim-de-semana a meter tudo o que lhes oferecem pelo nariz acima nas casas de banho dos sítios onde vão dançar, ou a falarem sobre o assassinato de JFK durante sete horas seguidas.

Mas, agora a sério, o que esta tendência absolutamente real demonstra é que os millennials conseguiram decifrar o código secreto. Durante centenas de anos, os jovens passaram grande parte das suas vidas a sair, o que se traduz em beber até cair, dormir com desconhecidos, acordar no meio do campo, ou tudo isto ao mesmo tempo. As gerações anteriores têm sempre a tendência para olhar de soslaio para os mais jovens e a garantirem que, no seu tempo, as drogas eram menos "venenosas" e que a prática do coito ao ar livre era menos descarada.

"Porque sair é caro, há demasiada gente, cheira mal, os concertos são uma merda e os bares cada vez estão piores".

De vez em quando, passam pelo campo e riem-se com nostalgia, porque sabem que a sua fase de insensatez já passou e, agora, o que querem é juntarem-se com os amigos mais próximos em volta de uma fogueira a discutir os episódios da sua série favorita. As noites mais loucas acontecem quando um deles se lembra de levar umas "ervas venenosas" para criar ambiente.

Mas os jovens - se acreditas no que diz o artigo do Post - estão a saltar todas essas merdas, todas essas noites que dormes nem sabes bem onde. Porque sair é caro, há demasiada gente, cheira mal, os concertos são uma merda e os bares cada vez estão piores. Sabes o que é bem melhor? Ver televisão deitado na cama. Já experimentaste? Podes vestir roupa cómoda, mandar vir a comida que te apeteça, comer com as mãos e dormir quando te der na real gana. Antigamente, as pessoas preocupavam-se com as secas, a fome e os gajos com espadas que podiam saquear a cidade. Era bem pior.

Não subestimes os luxos mais simples, como desfrutar de um copo de vinho, ter um tecto sobre a cabeça e um ecrã que te mostra tudo o que possas imaginar. Por isso, no próximo sábado, fica em casa. Compra uma garrafa de vinho decente, ou uma dessas cervejas artesanais armadas ao pingarelho. Mete um concerto de Prince a bombar, ou faz uma maratona da tua série preferida. Ou então, que diabo, comporta-te como um verdadeiro senhor idoso e lê um livro. Vai dormir quando estiveres cansado.

Acorda com energia pela primeira vez na tua vida adulta. Vai ao jardim. Se não tiveres ido para a festa na noite anterior, vais surpreender-te com a quantidade de sítios onde podes ir e o quão agradáveis as pessoas podem ser.


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