Música

Greg Anderson Fala Sobre a Volta do Goatsnake, Sunn O))) e o que Vem Depois da Colaboração com Scott Walker

Não tem nada mais foda do que voltar às raízes. Conversas sobre filhos e impostos substituíram papos sobre música e arte. Todo mundo engordou um tanto. O mundo mudou, você mudou, e as prioridades coletivas de antes agora não passam de notas de rodapé. Pergunte a qualquer uma das zilhões de bandas no bonde-da-volta-pra-ganhar-grana e verá que um retorno digno e não um esquema Grandes Sucessos é quase impossível de rolar.

O Goatsnake talvez seja uma exceção. Os integrantes da formação clássica Greg Anderson e Pete Stahl tocaram juntos novamente em 2010 durante um show no Roadburn, tirando a poeira e teias de aranha pra tocar uns sons que não rolavam há mais de sete anos. Mas em vez de fazerem o caminho típico da turnê nos EUA, festivais e tudo mais, que basicamente é o que toda banda ressurreta faz, o Goatsnake se trancou em casa e passou quase cinco anos trabalhando em novas composições. O resultado é o disco Black Age Blues, sua primeira série de canções inéditas em 15 anos, a ser lançado em LP em 2 de junho pela Southern Lord. Ouça a faixa-título do disco, e baixe-a junto com “Elevated Man” no iTunes. Faça a pré-compra do disco no Bandcamp ou na loja do Goatsnake.

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Com o novo disco chegando, pegamos o guitarrista, integrante do Sunn O))) e chefão da Southern Lord Greg Anderson para falar sobre o disco novo, deixar as origens para trás e o futuro do Sunn O))). Confira:

Noisey: O Goatsnake está inativo há quase uma década, vocês nunca terminaram nem nada, só não estavam mais tocando. Imagino que muito disso seja por conta do Sunn O))). Estou certo?
Greg Anderson:
Mais ou menos. Não sou só eu, todo mundo anda bem ocupado. Todos têm família e estão mais velhos. Mas o Sunn O)))… É, tem muito a ver comigo, seja a banda ou minha gravadora, ou minha família. [Risos] Então o Goatsnake nunca tomou essa decisão de acabar porque a gente curte muito tocar juntos e somos todos bons amigos. Se tivermos que fazer isso, faremos. Fomos convidados pra tocar no Roadburn em 2010, e a banda já não tocava há seis ou sete anos. Isso meio que serviu de catalisador pra gente se juntar. E assim que entramos ali e começamos a tocar novamente, lembramos como aquilo era divertido. Daí meio que continuamos a partir dali, tocando vez ou outra aqui e ali. Quanto ao disco, é que eu não queria que a banda virasse um tributo de si mesma. Tudo que temos tocado escrevi lá pelo final dos anos 90, e fico muito honrado que as pessoas ainda queiram ouvir o material antigo. Mas pra manter as coisas interessantes, pensei que tínhamos que compor coisas novas. De certa forma, foi meio que uma experiência. Passamos por tanto, e fazia tanto tempo que não compúnhamos nada, era hora de testar e ver se conseguíamos criar uma música juntos. Não fazíamos isso desde 1999 [risos].

Quanto ao disco novo, qual a era a fonte de criatividade? Começou com seus riffs, de onde veio o efeito bola de neve da parada?
Bom, foi coisa minha mesmo e do baterista, Greg. Ele insistia em me levar pro estúdio, porque já fazia um tempo. Eu tive meu terceiro filho e rolou aquele lance do Scott Walker com o Sunn O))), então quase cheguei pra ele e disse que não ia rolar. Mas eu tinha um monte de ideias pra riffs novos, então me comprometi a ir lá e tentar. Logo que chegamos, larguei o primeiro riff pra ele e a parada rolou. Amo como ele toca bateria, amo tocar com aquele cara, somos uns nerdões de música e passamos metade do ensaio só falando de som [risos]. Tem uma ligação verdadeira ali, nisso de sermos fãs de música, e isso transparece quando a gente toca. Foi divertido, tranquilo e bacana.

Daí Pete Stahl se envolveu, e acho que ele estava interessado porque não era só uma parada sludge lerda. Era mais animadão, e sei que ele é esse tipo de cara. Fazia sentido pra ele e colou, daí ele chegou com umas letras muito massa e umas melodias de voz logo. Daí em diante tudo foi rolando, nem pensávamos nos sons antigos. Só coisa nova. E fizemos isso por alguns meses, na época não tínhamos um baixista.

Começou com nós três trabalhando em cima da parada. Eventualmente chamamos o Scott Renner pra tocar, e foi engraçado porque quando chamamos ele pra vir aqui, o bicho parou pra estudar nossos outros discos e a gente mandou algo tipo “nem vamos tocar isso, só o material novo” [risos]. Então acho que ele ficou meio confuso, ou surpreso. “Ah, essa banda aqui tem um legado e eles só vão tocar coisa nova”. Muitas vezes ele queria tocar umas paradas antigas, e eu respondia que só rolaria som novo [risos].

Pra mim o que importou mesmo foram todas essas ideias novas e eu não queria embaçar o embalo das músicas novas. E estava pensando no geral, se conseguirmos isso, será algo inspirador pra gente, e o catalisador para tudo que podemos fazer no futuro. Ao invés de só entrar numas de “opa apareceu um show massa na Polônia. Vamos tirar a poeira dos sons velhos!” [Risos] Agora curtimos tocar juntos sem nada em vista, só por tocar mesmo, como era no começo. Então pra mim foi como fechar um ciclo.

Uma das características mais marcantes do Goatsnake pra mim é a voz do Pete. Me fale de como foi ouvi-lo pela primeira vez, quando você pensou “acho que quero começar a tocar com esse cara”.
[Risos] Bom, o Pete é um dos meus vocalistas favoritos há muito tempo. Eu era um puta fã do Scream, e sempre achei que ele era um tremendo vocalista. Vi eles tocando nos anos 80 e achei ótimo. Quando o Scream acabou e ele montou o Wool, eu era um puta fã. E a banda que tive nos anos 90, Engine Kid, me deu a chance de que tocasse bastante com os caras. Na real, até organizei um show pro Wool em Seattle, num lugar bacana chamado Oddfellows Hall. Sempre achei a voz dele excelente e adorava sua energia, especialmente com o Scream.

Por volta de 95 ou 96, o Wool veio tocar em Seattle. Falei com o Pete, contei pra ele que estava pensando em morar em Los Angeles porque precisava de alguma mudança, e ele falou “cara, isso seria animal! Quando você chegar lá a gente dá um rolê!”. Um dos motivos que me levou a me mudar para Los Angeles foram o baixo e bateria do The Obsessed; eles tinham terminado e o Wino havia voltado pra Costa Leste [dos EUA], então queriam alguém pra tocar. Sam Velde fez a ponte, já que era amigo do Greg e do Guy, o baixista original deles. “Um amigo meu tá vindo morar aqui e quer começar algo novo também”, daí eles falaram “ah, sacamos a banda, isso pode ser interessante”.

Daí começamos a tocar juntos, e foi animal logo de primeira, mas precisávamos de um vocalista. Na época, tocávamos bem lento e era meio sludge, pirávamos em Eyehategod e St. Vitus e Pentagram, então rolava tudo muito devagar e com afinação baixa e muito sludge. Meio que decidimos todos que seria mais legal ter um cara cantando limpo em cima daquilo do que alguém gritando. Essa era a nossa missão, achar alguém com muita malemolência que pudesse cantar. E todos éramos bem amigos de Pete, e naquela época o Wool tinha acabado, mas pensamos “ah, é pesado demais, ele não vai curtir”. Gravamos umas coisas, mostramos pra ele e o bicho respondeu “cara, isso é ótimo”, e ele criou uns lances também e deu certo. Era uma dinâmica muito massa com um som pesadão, aí você espera ouvir um cara mais agressivo, gutural, raçudo, ou se esgoelando mesmo. Mas aí rolava aquela voz doce e melodiosa que tem mais a ver com soul do que com doom ou sei lá o que. [Risos]

Voltar e dar continuidade a um legado é complicadaço. Quem você acha que mandou bem fazendo isso?
Tenho um exemplo perfeito: o Magma. Vi a banda tocar, e se liga, faz pouco tempo que curto eles. Conhecia, mas nunca tinha visto. Ano passado, um amigo e eu estávamos sem fazer nada e ele disse “você já viu esses lances do Magma?” e eu respondi “nem manjo muito a banda”. Daí ele me mandou uns vídeos deles dos anos 70 que eram de arrepiar. Comprei uns discos dos caras e fiquei meio obcecado e achei tudo foda. Acabou que o baterista do Goatsnake também é um puta fã de Magma, e eles vinham tocar aqui, o que era raridade. O baterista do Goatsnake, Greg, viu os caras em 1999 e disse “não tem como descrever, tem que ver”. Não quero parecer babaca, mas já vi muitos shows e tem vezes que não aguento um inteiro [risos]. Era noite numa segunda-feira quando os vi tocando, e eu tinha tanta coisa pra fazer em casa nos outros dias, estava muito cansado. Mas foi inacreditável. Fiquei colado na banda o tempo todo, e eles tocaram por duas horas.

O líder da banda já tem quase 70 anos e destrói na bateria, um monstro. E a banda toda era mais velha, foi fenomenal. Nunca vi uma banda tão coesa. Nem manjo os discos deles, não sei que outros discos fizeram depois de 1999. Foi engraçado porque meio que implorei pra um amigo meu que meio que conhecia eles lá de Chicago: “Cara, você tem que ver esse show”. Acabou que ele foi, e ele disse depois “estou muito feliz de ter ido, foi incrível”. Provavelmente um dos melhores shows que já vi na vida. É algo a qual se deve aspirar, e chegar nesse nível é incrível.

O Goatsnake planeja outras datas ou só uma série rápida de shows?
Bom, temos aí o Maryland Deathfest, nossa primeira vez na costa leste. Um objetivo pessoal meu é tocarmos em Nova York antes do fim do ano. Com os horários de todos, infelizmente, não poderemos fazer uma grande turnê, mas tocaremos o quanto pudermos.

O último disco que você gravou com o Sunn O))) com certeza é algo difícil de se superar, contando com um dos maiores vocalistas de todos os tempos. O que o futuro reserva para o Sunn?
Vamos entrar em estúdio em julho para gravar umas coisas novas e ver o que acontece. Mas é uma tarefa meio intimidadora. Pra gente, o motivo pelo qual não fazíamos nada desde 2009 e Monoliths and Dimensions era que esse disco foi muito trabalhoso. Colocamos muita energia e esforço neste disco, e estou muito orgulhoso do que fizemos, mas desde então rolou uma parada do tipo “e agora?” E não é como se sempre estivéssemos compondo juntos, já que todos moram tão longe. A essa altura, Stephen está em Paris e a formação dos últimos anos com Attila nos vocais e Tos nos teclados… Eu sou o único que mora nos EUA [risos]. Nós só não nos reunimos tanto assim pra compor. Então esse tem sido um dos desafios.

A colaboração com Scott Walker foi algo que nos deixou impressionados por termos tido a oportunidade de fazer. Ainda não entendi direito o que foi aquilo [risos]. Toda vez que penso nisso ainda fico chocado, mas a oportunidade que rolou foi tipo “bem, eis um lance bacana pra se fazer depois daquele disco”. Mas pra mim foi um jeito legal de voltar a tocar ou fazer coisas novas. Tudo gravado ali foi composto por Scott. Não teve nada criado por nós. Muito da forma de tocar veio da gente, mas neste verão vai ser a primeira vez que iremos nos juntar pra compor desde 2007 ou 2008. Estou ansioso, amo tocar com Stephen e criar pro Sunn O))). É muito diferente do Goatsnake, e gosto de criar nos dois. É muito legal e gosto da oportunidade de lidar com dois demônios tão diferentes.

Dito isso, o Sunn O))) já não é uma dupla desde Grimmrobe; a partir dali, sempre houve um elenco rotativo. Depois do Scott, teria alguém mais que você gostaria de trabalhar junto?
Nós meio que não funcionamos assim. Tinha uma listinha pro Monoliths and Dimensions, tipo “criamos isso aqui juntos, aqui estão alguns nomes que seria interessante ter em faixa tal”. E sinceramente, muita gente na nossa lista não deu certo ou nem respondeu [risos]. Engraçado que Scott foi uma dessas pessoas, Stephen e eu curtíamos muito o som dele e os discos The Drift e Tilt. Tínhamos um amigo em comum que nos ligava a Scott, e tentamos por aí, mas não deu em nada. Então ele não curtiu ou não recebeu o recado. Mas ele recebeu! [Risos]

O que explica porque isso é tão surreal, ainda mais como recebemos a notícia. Ouvimos de um amigo nosso que trabalhava pra ATP, algo tipo “e essas demos do Scott Walker?” e a gente disse “hein? Do que você tá falando?” e ele disse “é, ouvi falar que tão rolando demos do Scott e Sunn O)))”. Pensamos que era zoeira, mas ele disse ter ouvido aquilo de fontes confiáveis que haviam ouvido a parada. Então deixamos tudo de lado, e eventualmente descobrimos que ele tinha ouvido o que havíamos mandado do Monoliths, mas tinha suas próprias ideias e começou a compor pensando em nós. “Ao invés de colaborar com vocês, vou criar algo com vocês em mente”. Fiquei com a impressão de que seríamos a banda de apoio do disco dele, até que entramos no estúdio e começamos a conversar e trabalhar com ele. Sua visão era diferente em que era um disco colaborativo com nosso nome ali no meio, ao invés de servirmos de apoio.

Qual o show que mudou sua vida?
Em 1985, eu era metal total e comecei a curtir metal underground. Esbarrei no Kill Em All na biblioteca da cidade, o que é doideira porque eu morava bem nos subúrbios de Seattle. Um amigo meu da 8ª série me mostrou o som e eu falei na hora “que porra é essa? Isso é loucura!”, não acreditava no que era aquela música, e isso me colocou em uma jornada pra descobrir o máximo que pudesse sobre música underground ou qualquer coisa remotamente parecida com Motörhead ou Slayer ou Venom ou Metal Church. Era isso que eu curtia, basicamente, metal.

Tinha essa casa noturna em Seattle chamada Gorilla Gardens, e descobri o lugar, onde uma banda de Portland chamada The Wild Dogs tocou lá, acabei comprando o disco dos caras porque eles pareciam com o Metallica [risos]. Tinha sangue e umas paradas na capa, que eu achei massa. Mas eles não soavam como Metallica, nem eram tão pesados ou legais. Mas pude ver a banda tocar.

Comprei o ingresso e fui no show, com duas bandas de abertura. Uma se chamava Malfunction, a outra era o The Accüsed, e não fazia ideia do que se tratava porque eu era um metaleirinho indo ver o show do Wild Dogs. O Malfunction tocou e foi louco porque eram uns caras com visual glam, com robes e quimonos tocando rápido pra cacete um tipo de barulho. Daí pensei “isso foi demais! Nunca vi nada assim”. Daí veio o Accüsed e nunca tinha visto ninguém tocar rápido daquele jeito, nem gente como eu ali no palco surtando, nunca tinha visto ninguém pogar ou fazer mosh. Nem sabia o que era isso, então pirei demais. Era loucura e não acreditava como aquilo tudo era foda.

Naquela época o Accüsed deixou de ser uma banda de hardcore pra tocar speed metal, tocando rápido pra cacete com influências metálicas. Nunca tinha ouvido nada tão rápido com um vocalista surtando daquele jeito. Foi isso, e foi engraçado porque literalmente depois deles veio a banda principal e era tudo tão forçado e teatral. Fui junto com um amigo de infância e nós dois nos olhamos e dissemos “vamos embora!”. Pegamos o ônibus pra casa, que levava uma hora, mas tínhamos visto algo que não teria como ser superado e era isso que importava pra mim. Quanto mais rápido melhor, e quanto mais cru, mais eu tinha que ter.

Acabei vendo aquela banda várias vezes depois daquele dia. Eu os seguia e o guitarrista meio que me apadrinhou e me fazia umas cópias em cassete, tipo “você tem que ouvir isso!”. Ele me mostrou Poison Idea, English Dogs, Discharge, me fez curtir essas paradas todas e foi incrível. Achei que não existia outro jeito; você é inferior a quem está no palco, e eles estão acima de você. Você era sortudo se conseguia um autógrafo depois do show. Era assim que parecia funcionar pra mim e tudo bem. Quando vi o The Accüsed, não teve essa diferença. Você podia subir no palco, pular em cima da galera e eles curtiam! [Risos] Ele acabou copiando essas fitas pra mim e pro meu amigo e eu pirei tanto com isso, mudou tudo pra mim. Passei a me envolver mesmo com música underground, e é assim desde então.

Tradução: Thiago “Índio” Silva

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