Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.
Há anos que a “rapariga solteira” sofre de uma crise de relações públicas. Uma crise que é óbvia desde os tempos de Joana d’Arc, passando por Isabel I de Inglaterra, até às quatro temporadas de Miranda. Naturalmente, deixámos de ser perseguidas como bruxas más, mas, ainda assim, a solteirice feminina não é propriamente muito lucrativa, não é verdade? Continua a ser do género a coitadinha da Jennifer Aniston, ouvir Shania Twain e comer mousse de chocolate de olhos fechados. Aos olhos da cultura popular, estamos todas a tentar subir o rio sem remos.
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Mas, atenção, estar solteira pode ser muito bom. Ontem à noite, depois de fazer desaparecer uma mousse de chocolate, lavei as minha lágrimas de gin e acabei a gritar com a escuridão. Apercebi-me que estar na casa dos vintes é o melhor momento para não estar numa relação. Esta não é a altura indicada para ver o House of Cards do princípio ao fim, ou para limpar o mijo de outra pessoa da tampa da sanita. Este é o momento de te embebedares na rua com umas bebidas light e caíres da parte de trás de uma vespa, enquanto os teus ossos ainda têm a capacidade de voltar ao sítio.
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Estar solteira não tem de ser uma sucessão de brunches só de raparigas, onde os homens são o único tema de conversa; ou estar realmente interessada em copos com capacidade suficiente para uma garrafa de vinho inteira; ou passar o dia de São Valentim sozinha num fast-food a partilhar um hambúrguer com o teu espelho de maquilhagem. Em vez disso, pode significar momentos de pura diversão com os teus amigos, sem te preocupares com aquele monte de sapatos que um gajo deixou aos pés da tua cama.
Aqui tens um guia para aproveitares da melhor maneira, o que muitos consideram ser uma situação negativa.
DEIXA DE ESTAR EM NEGAÇÃO

A primeira regra é seres honesta. O rapaz das pizzas sabe que vives sozinha, por isso deixa de gritar, “Já chegou!”, para um apartamento vazio quando ele toca à campainha. Estás solteira e isso não é um problema; não precisas de dar explicações, nem a ti, nem a ninguém.
Outras coisas que deves evitar: prometer fidelidade à tua “irmandade”, citar a Beyonce como se ela fosse a Gloria Steinem e dizer coisas do estilo, “O crescimento pessoal é impossível quando tens um namorado, sabes?”. Ouviste o aviso sonoro? É culpa tua. Cada vez que dizes, “adoro estar solteira”, com uma voz frágil, algures no Mundo mais uma tablete de chocolate desaparece sem deixar rasto.
Os teus amigos estão a mentir – os homens não se sentem intimidados por ti. Simplesmente não encontraste o homem certo. E não o vais encontrar ao desperdiçares o teu tempo livre a navegar entre páginas de descontos e vídeos do YouTube. O chocolate não tem a capacidade de praticar a milenária arte do cunnilingus, por isso deixa de dizer a toda a gente que pode ser melhor do que sexo. Estás a deixar todos numa situação incómoda e muito preocupados contigo.
Vai lá para fora e diverte-te. Ao contrário das tuas tias, não estou a dizer que o teu útero está a ficar fora da validade mais depressa que uma pêra abacate madura; estou a dizer-te que, antes de começares a mandar vir, ou a reclamar que vais ser uma velha solteirona, é melhor lembrares-te dos contraceptivos, eles andam aí por uma razão: para que seja possível conhecermos uma pessoa na discoteca, irmos para a cama com ela e depois desaparecermos ao encontrarmos uma colecção de cotão no seu umbigo. Tudo isto sem medo de que a sua semente esteja a germinar dentro de nós.
SEXO CASUAL

Uma das vantagens de ser uma solteira heterossexual é a forte probabilidade de que a pessoa que queres levar para a cama, também te queira levar a ti. Isto significa que és livre para degustar uma enorme variedade de pilas. Mas, fiquem já avisadas: em qualquer grande buffet existe sempre aquela coisa que, por alguma razão, ninguém quer no prato. Como aquelas saladas russas cheias de maionese com muito mau aspecto. Faças o que fizeres não ponhas uma dessas na boca.
Uma das principais regras de andar por aí a saltar de nenúfar em nenúfar, é aceitar que não és muito boa nisto do sexo casual. Se ser promíscua te faz sentir esquisita ou triste, não forces a situação, a não ser que te apeteça conter o choro a cada noite nos braços de um estranho.
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Ao chegares a este ponto, o próximo passo é encontrares um parceiro sexual semi-consistente. É aconselhável escolheres alguém extremamente inapropriado e bastante lento. Pensa num DJ em part-time, num barman… em australianos. Pensa que este estilo de homens tem um quarto horrível, cheio de móveis em segunda mão e camas sem lençóis. Será o equivalente a praticar sexo na esquina de um beco sem saída.
Quando estiveres na casa-de-banho pronta para uma depilação de emergência com a gilete da tua companheira de casa, pára e pensa. Faz-te a seguinte pergunta: vou ter um orgasmo esta noite? Se achas bastante improvável, tens de despachá-lo imediatamente, porque estás a arruinar o feminismo para todas as mulheres com o teu terrível, conciliatório, sexo sem orgasmo. Ainda pior, se estão a convencer-te a não usar preservativo para este tipo de sexo. É o caminho para mereceres todas as mazelas que irás sofrer futuramente.
OS ENCONTROS
Esta palavra, só por si, pode provocar arrepios na espinha, não é verdade? Infelizmente, não existe nenhuma maneira estilosa de dizer que tens encontros casuais. A verdade é que vais atirar barro à parede na esperança que pegue. A maior parte das pessoas com quem terás encontros às cegas serão aborrecidas, ou terão aquele defeito que é imperceptível na foto de perfil, como um andar estranho, ou um entusiasmo exacerbado pela acupuntura.
Em relação às aplicações virtuais para conhecer homens, não te incomodes em parecer irónica e distante. O Tinder é como a cocaína: toda a gente finge odiá-lo, mas usam-no compulsivamente todos os fins-de-semana. Deixa de disfarçar. Não deixes os teus braços de fora da fotografia, eventualmente, ele vai ter de os ver. E não ponhas uma foto de perfil com um grupo de pessoas. Nada grita mais alto “Não saias comigo!”, quando és aquela pessoa indeterminada num grupo de seis raparigas.
Quando as coisas começam a correr bem, apercebes-te de que sair com muita gente pode ser, logisticamente, bastante intenso. Dá-te a ti própria um momento de descanso com a ajuda de um engate à antiga. Apostar nos pais das outras pessoas é, sem dúvida, uma boa e inofensiva opção. Ou então, em pessoas cujo trabalho seja realmente tentar conquistar-te, como os que querem convencer-te a teres um cartão de crédito no meio da rua. Mas tem cuidado até onde levas esta brincadeira: não me interessa quão inchado ficou o teu ego a caminho de casa, tu não podes ir para a cama com o rapaz da revista Cais (a não ser que queiras muito).
OS CASAIS

Qualquer desvio do caminho previamente traçado de passar a noite a ver televisão de pijama, é considerado algo radical para a maior parte dos casais da tua vida. O apetite que tinham para viver aventuras foi trocado por longas conversas sobre plantas de interior.
Então, quando aqueles dois amigos, juntos há anos, te convidam para o que parece ser um evento promissor, não sejas ingénua. Lembra-te que estas pessoas são, com regularidade, umas grandes mentirosas. Não podem – nem querem – ver que os seus interesses são inversamente proporcionais aos da tua vagina.
Às vezes, os casais passam a maior parte do tempo a tentar arranjar-te encontros com alguém solteiro. Este tipo de pessoas quer fazer-te a cama. Não querem ver-te de boca aberta a olhar para todo o lado até o sol nascer. Querem ir para casa descansados, acabar na cama com aquele tipo de sexo que nem precisas de lavar os dentes antes. E querem que tu faças o mesmo, porque não querem “estar preocupados contigo”.
Lembra-te, toda a gente sabe que “estou preocupado contigo” é código para “não estou feliz com o meu relacionamento”. E quem vai lá estar, pronta para varrer os cacos da relação falhada, quando o namorado encontrar outra que lhe lave a roupa branca? És tu. O que nos leva até…
A IMPORTÂNCIA DE TER OS AMIGOS CERTOS

Fotografia via Flickr/ Khord08.
Os “melhores amigos” são brutais. São perfeitos para ajudar nas mudanças, para ouvir as tuas queixas constantes e para avisar-te que tens espinafres nos dentes. No entanto, são dispensáveis quando o que queres é levar a tua avante. A tua melhor amiga está numa relação de cinco anos. Já tem a carrinha familiar estacionada na garagem da vida. A tua promessa de uma festa de arromba não a faz vibrar demasiado.
Não, o que realmente precisas são as amigas da noite. Aquelas com um entusiasmo perturbador, secretamente competitivas e maquilhadas com brilhantes e flores nos cabelos. Fundamentalmente, são aquele tipo de amigas que detestas, mas que partilham coca contigo e com as quais vais andar alegremente de mão dada num festival de Verão. Engasga-te nos seus brilhantes, namorisca com os seus amigos mais atraentes e mostra o umbigo, mulher! Antes que seja demasiado tarde.
Esta aliança é por puro interesse. Não interessa que não tenham nada em comum, já que o mais importante é fazer símbolos de paz e corações com as mãos durante as selfies. O melhor é que os teus novos amigos também não gostam de ti e isso é perfeito, porque se os trocas às 23h30 por um gajo que estava a tocar djambé, eles pouco se vão importar.
AMOR PRÓPRIO

Estar solteira é um dom, porque significa que podes fazer coisas muito irritantes, como deixar um prato sujo à porta do teu quarto para que quando vás à casa-de-banho a meio da noite o possas pisar. Podes entupir o chuveiro com cabelos, ou podes por o tampão sem teres de te esconder. Podes ser tão badalhoca quanto te apeteça no teu próprio espaço, já que não o partilhas com um homem, cuja ideia de feminilidade está baseada nos exemplos dados pela sua mãe.
Além disso, quando estás solteira, tens todo o direito de te sentires nos píncaros orgásmicos do amor próprio. Só Deus sabe o tempo que precisaste para aceitares esse amor, por isso desfruta-o enquanto podes. Parafraseando, eu tenho a certeza de que na Bíblia pode ler-se algo do estilo: não podes amar o teu vizinho até te amares a ti mesma. Ou então, aprende a amar-te para que possas instruir o teu vizinho a amar-te com mais ternura (para deixar tudo mais claro, estou obviamente a falar de masturbação).
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Muitos dos orgasmos durante a tua vida solteira são tão fabulosamente ineficazes que custa-me compreender o alarido criado à sua volta. Perante uma paisagem tão serena é mais provável que adormeças acariciando-te como uma sílfide, do que te leves ao êxtase com a cara contra a cabeceira da cama. Mas não o banalizes. Não deixes que a tua relação com a masturbação se torne tão básica que adormeças durante o acto e acordes somente para ter uma discussão contigo mesma, porque as coisas já não são tão intensas como antes.
Dito isto, não sejas aquela gaja que leva as coisas demasiado longe. Ninguém vai querer ouvir sobre as experiências que tiveste sozinha com o teu corpo. O teu vibrador pode ser mais latejante do que as veias de um culturista – e pode ter custado muito mais do que o teu robô de cozinha -, mas não fiques viciada de forma pouco saudável no teu amigo vibratório. Não lhe dês um nome e nem fales dele como se fosse um hóspede que tens em casa, porque, caso contrário, vais destruir qualquer relação que possas vir a ter com um pénis a sério. Ah! Não o laves e seques com o pano da cozinha, isso é uma falta de respeito.
OS MOMENTOS QUE PASSAS SOZINHA SÃO DIVERTIDOS

Neste momento deves estar, provavelmente, encantada com a tua própria companhia – ou, no mínimo, deverias estar. Pensa lá bem: não existe ninguém que tenha tanto em comum contigo, como tu. Tu és a maior. Tu és a melhor. Ninguém cozinha como tu e o teu cabelo tem volume. Tu és tão tu.
Carpe diem mulher, porque quando menos esperares vais ser obrigada a ouvir os sonhos de outra pessoa, a ver se os seus dentes estão em condições e terás de aguentar aquela tosse chata que lhe dá durante a noite. Estás condenada a conhecer alguém e a apaixonares-te tão estupidamente que vais passar os próximos cinco anos a poupar dinheiro para abrirem uma conta conjunta. Um dia alguém vai perguntar-te quais são os teus planos para o fim-de-semana e a maior parte deles vão envolver um chouriço e milhares de coisas novas e inventivas que podes fazer com ele. E não estou a falar de coisas sexuais, mas sim gastronómicas.
Há muito mais coisas nesta vida do que simplesmente acordar com o cheiro do mesmo cabelo todos os dias. A tua energia para experimentar coisas novas, estranhas e emocionantes vai desvanecer-se com o tempo, por isso tens de saber usá-la, enquanto dura, da melhor maneira possível, e isso está nas tuas mãos. Tenta ver a situação como se ganhasses a lotaria, mas em vez de ganhares dinheiro, ganhas uma fonte finita de juventude, beleza e audácia. Tens agora uma vantagem sobre aquela contundente analogia: gasta o dinheiro antes que a tua família te diga para fazeres alguma coisa acertada com ele.
Acorda a quilómetros de distância da tua casa com um “adulto” que ainda anda de skate. Sinceramente, continua a usar a palavra bué. Pinta o cabelo de louro durante um tempo, vê o Mundo através dos olhos de outra pessoa. Namorisca com homens mais velhos em bares luxuosos e deixa-os pagar o cocktail. Apanha gonorreia. Come mousse. Faz as duas coisas ao mesmo tempo. Podes fazer aquilo que te apeteça, porque és jovem e solteira e a tua única responsabilidade é teres de pagar as contas do telemóvel que estragaste. Faz-te à vida e joga ao faz de conta, antes que fiques presa no purgatório da tal conta de banco conjunta para sempre.
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