Esta fotografia diz tudo. Sempre que percorremos as ruas da cidade encontramos casas abandonadas. Com a crise, há que arranjar formas alternativas de viver. Aqui na VICE recomendamos a okupa. Okupas são casas abandonadas cujas portas, com um pouco de engenho e imaginação, facilmente estarão abertas.
A acção de okupar encontra-se numa área legal cinzenta. Ou seja, se as janelas ou as portas estiverem abertas, é-te permitido entrar e ficar por lá à vontade, até que o proprietário te intimide a sair. Segundo a lei portuguesa, se não saíres, estás a cometer o crime de violação de domicílio e as próximas paredes que verás serão as paredes sujas da cadeia.
Para facilitar a entrada numa casa abandonada, há que se ser esperto. Veste-te com um colete reflector e capacete para pareceres um trolha. O povo nunca desconfia quando vê trolhas a trabalhar nas casas. Depois de superada essa etapa, deves limpar o local, abrir as portadas e mudar as fechaduras. Mas, ao mesmo tempo, se houver um cadeado a impedir a entrada da casa, não te esqueças de substituí-lo por outro. Normalmente, os cadeados estão presos a uma corrente, portanto depois de cortar a corrente e entrar, não te esqueças de uma nova para mostrar que não “invadiste” a casa. O proprietário que tem a chave do cadeado antigo pode sempre arranjar outra forma de aceder à casa, através do jardim ou de outra porta.
Quando finalmente estiveres dentro de casa, verifica se existe água ou luz. Com certeza, internet e TV Cabo não existirão lá dentro. Se és daqueles que ainda tem dinheiro para TV Cabo, deixa a okupa para os que não têm e fica mas é em casa a ver a Oprah na SIC Mulher. Se não houver água ou luz, verifica nas respectivas caixas que se encontram ao lado da porta ou na cozinha. Se mesmo assim não conseguires, estás lixado. Se conseguires sobreviver sem luz e água, tudo bem. Se não, sai e procura outra casa. Aqui no Porto não faltam.
Se as casas estiverem realmente abandonadas, as probabilidades do proprietário te encontrar são poucas, mas, ao mesmo tempo, tens de estar ciente que a vida de okupa não é permanente, nem é para todos. É um estilo de vida alternativo para pessoas que gostam de viver em conjunto e sem alguns dos confortos que tomamos por garantidos.
A VICE mostra-te alguns dos sítios disponíveis para okupar no Porto e as devidas artimanhas para entrar nos edifícios.
Rua de São Miguel, Sé: No centro do Porto, a cinco minutos dos Clérigos e com estacionamento gratuito à porta de casa! Não há fechaduras, logo a melhor maneira é empurrar a porta e entrar. Fá-lo de manhã cedo para pareceres trabalhador. Não partas a porta: se o proprietário te levar a tribunal, terá provas de que invadiste a casa.
Praça da República, Cedofeita: A norte dos Aliados, com estação de metro a cinco minutos, em frente ao Pingo Doce e com o exército ao lado para te proteger. Como está bastante exposta será mais difícil forçar a entrada. Se tens dinheiro para consertar janelas, parte uma a meio da noite, entra e, no dia seguinte, arranja a janela para que não haja vestígios. Não há muita gente, mas passam muitos carros à noite, portanto tem cuidado.
Rua de Miguel Bombarda, Cedofeita: Situada no meio de umas das ruas mais populares do Porto, ao lado de galerias de arte, bares e restaurantes. Tem quatro andares, logo há quatro maneiras de entrar. No lado direito há uma espécie de muro que dá para o primeiro andar. Tenta abrir as persianas e analisa a situação. Podes tentar pela porta, mas talvez dê demasiada cana. Esta é uma das casas em melhores condições, portanto vale a pena arriscar um pouco mais a entrada. Se partires algo, como sempre, conserta-o.
Rua do Professor Jaime de Sousa, Cedofeita: Situa-se num lugar muito calmo, portanto é melhor tentar entrar quando as vizinhas idosas forem ao supermercado comprar fruta. Olha para a esquerda da foto — a janela está partida e tem um painel de madeira a tapar o buraco. Fica mesmo atrás do Centro Comercial Bombarda, mas não te esqueças das vizinhas. Não queiras chatear os vizinhos da tua okupa. Eles podem facilmente denunciar-te ao proprietário do edifício ou à bófia.
Esquina entre a Rua do Almada e Rua da Fábrica, Baixa: Mesmo ao lado dos Aliados e dos bares e cafés da zona dos Clérigos. Tem uma loja por baixo, que daria uma óptima galeria de arte ou um cafezinho. Mas presta atenção, há polícias por perto, portanto tenta só durante a noite. O prédio inteiro está abandonado, mas a melhor forma de entrada é através da loja. A porta não está muito segura. Depois de já estar tudo limpo, abre as portas e transforma a loja num espaço social para o pessoal. Okupar é para a comunidade e, além disso, é uma forma de legitimizar a tua okupa.
Esquina entre a Rua de Miguel Bombarda e Rua de Adolfo Casais Monteiro, Cedofeita: Esta casa não está em muitas boas condições, mas é fácil de lá entrar. Há duas portas, a principal e a da garagem. Vais encontrar um cadeado, por isso já sabes o que deves fazer se quiseres entrar.
Avenida da Boavista, Boavista: Esta não é qualquer casa: fica a dois passos da Casa da Música e, além disso, não faltam maneiras para entrar. Mesmo que não haja luz ou água, é uma das casa mais bonitas da Boavista e peço desculpa por esta fotografia não lhe fazer justiça. De ambos os lados da casa há dois grandes portões com um jardim enorme atrás. As janelas da frente estão partidas e não há nada a tapá-las, tal como não há cadeados nem fechaduras. Não percebo porque está desocupada. Talvez haja alguns sem-abrigo que lá dormem de vez em quando, mas é mesmo um cantinho apetecível na artéria mais longa do Porto.
Rua de Costa Cabral, Antas: Só existe um cadeado para proteger a casa. A porta não está muito segura, é só arrancar a corrente e dar um empurrão. Está fora do centro, mas não se pode dizer que haja falta de transportes! O autocarro pára em frente à porta e leva-te à Baixa em menos de 15 minutos.
Rua do Infante Dom Henrique, Ribeira: A entrada parece difícil: tens de subir pelo cano da água ao lado da varanda. Depois, basta entrar pela janela e descer para abrir a porta aos restantes okupas que ficaram de fora. Vai ser necessário fazer uma limpeza, mas isso pode-se sempre pedir à mãezinha para ajudar. É melhor entrar à noite quando não há tantos turistas pela Ribeira, mas como está ao lado do Palácio da Bolsa tens que ter cuidado com os polícias.
Aqui fica o registo de algumas das possíveis melhores okupas no Porto. Não se esqueçam da regra mais importante: escondam os vossos vestígios. Tudo o que se partir tem de ser substituído, senão, em vez de viverem numa okupa com os vossos amigos, vão viver numa cadeia com um gajo frustrado chamado Nando que já não vê uma mulher há séculos. Diverte-te!
Nota: Se forem detidos/ficarem feridos/alguém for atrás de vocês, a culpa não é da VICE. Nós não queremos que infrinjam a lei, apenas que a contornem.
A vossa cidade também está repleta de casas abandonadas, perfeitas para okupas? Contribuam para o Guia VICE para Okupas Wannabe, enviem as vossas sugestões para geral@vice.pt.