Guia VICE para Tascos e Tabernas: Baca Belha

Em tempos, toda a Gália esteve dominada por romanos. Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses ainda resistia aos invasores. Tal como, séculos depois, toda a cidade de Vila Real parecia estar dominada por restaurantes de

fastfood

e discotecas onde se bebiam bebidas brancas. Toda? Não! Um estabelecimento na zona histórica resistia ainda ao facilitismo, com vinho do garrafão e moelas à mesa.

É assim que chegamos ao nome Baca Belha — ao contrário da aldeia de Asterix, que até hoje ainda não se sabe o nome. E se o pequeno gaulês se valia da poção mágica para combater os romanos, os clientes do Baca Belha não deixam por copo alheio o tinto. Embora as esquisitices do tempo tenham levado a que também haja branco ou cerveja, houve uma regra que não se diluiu com o tempo: mão direita é penálti. E quem falha penálti tem a pila murcha!



A clientela é composta principalmente por adeptos da boa pinga: de um lado, reformados de nariz vermelho que são mestres da sueca, do outro, estudantes (muitos deles de Erasmus) que procuram uma borracheira lowcost. Quando os dois grupos interagem, há sempre sabedoria a ser trocada. “Cowboy”, um cliente habitual cujo anonimato teremos de preservar (até porque não sabemos a sua verdadeira identidade), é o exemplo máximo da troca de saber entre gerações. De cigarro na mão e junto à lareira (aqui não há extractor de fumo nem lei de tabaco que entre, que “nunca ninguém morreu por se fumar aqui dentro”, dizem os experientes) o Cowboy ensina os mais novos a partir nozes com o dedo, mostra a pistola, chama-os carinhosamente de “filhos da puta”, explica a falta de tomates daqueles que bebem o vinho traçado com gasosa, fala da importância do respeito e no fim explica o que são contas à moda do Porto. Para quem não sabe, as tais contas à moda do Porto são aquelas em que cada um paga o seu, sendo o senhor Alberto a fazer as contas num guardanapo (sim, ainda há quem saiba fazer contas de dividir à mão).



O senhor Alberto, que ainda não foi apresentado neste texto, é o empregado de balcão/cozinheiro/tasqueiro/taverneiro de serviço. Com uma barriga que indica que grande parte das febras que cozinhou foi comida por ele, faz da velocidade a sua principal arma do serviço, grelhando deliciosas alheiras em tempo recorde. Como uma casa não se aguenta sozinha, a sua mãe, dona Perpétua também dá uma ajuda ao balcão. Esta senhora é um óptimo exemplo para todos os malandros que recebem o rendimento mínimo, de que Paulo Portas fala dia sim, dia não. Com idade mais que suficiente para estar na reforma e com uma bronquite crónica, a dona Perpétua não deixa de encher copos de vinho e tirar minis do frigorífico, sempre com a preciosa ajuda do seu andarilho. Por vezes o Cowboy também dá uma mãozinha, quando o serviço está apertado e se sucedem as caralhadas das mesas cheias de fome ou “com sede”.



E afinal o que se come no Baca Belha? De tudo um pouco, porque afinal os transmontanos sempre se mostraram pouco esquisitos na arte da taina. No balcão nunca faltam os ovos cozidos, havendo a hipótese de os temperar com pimenta, sal ou metê-los à boca e depois mamar um gole de vinho para empurrar. Se não se chegar muito tarde à taverna, ao lado dos ovos podem estar uns belos rissóis de carne e camarão e/ou uns bolos de bacalhau. Até aqui a nutricionista que vos manda comer iogurtes naturais sem sabor pode estar descansadinha: afinal há peixe e legumes. O pão também não falta, seja ele de hoje ou ontem, fresco ou descongelado. Conhecedor do provérbio “em casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem razão” e também da facilidade com que a vinhaça leva à confusão, o senhor Alberto tem sempre regueifa, baguete ou carcaças (aqui com o nome “moletes”). E para não se comer o pão seco, é raro o dia em que faltem as moelas com o seu molho bem picante. Não só é bom a puxar para mais um copo como também é incomparável o gesto de chupar os dedos salpicados de molho.



Para os que não gostam de moelas (também conhecidos por “coninhas” segundo a terminologia da clientela), há vários queijos, todos eles com aspecto tosco, como diziam na publicidade do Limiano. Depois, dependendo dos dias e da borracheira de alguns clientes (são eles que vão ao talho fazer as compras), pode haver alheira, morcela, entrecosto, febras, joelho e coisas de género. Para serem comidas com as mãos e com pão, porque, afinal, os talheres são para meninas.



Quem leu isto tudo e pensa que há falta de higiene no Baca Belha que se desengane já. As casas de banho são a parte mais moderna da casa e, quando os petiscos vão para a mesa, esta é imediatamente coberta por toalhetes de papel. Além de higiénicos, são o local ideal para marcar o resultado do jogo da sueca. Quem quiser jogar terá que se familiarizar com conceitos como “renúncia” (batota em que um jogador tem carta no mesmo naipe que está na mesa mas joga outra), “embaralhar” (acto de misturar as cartas de forma aleatória) ou “macete” (batota durante o “embaralho” na qual as cartas são juntas de forma propositada). Afinal se em Roma é para se ser romano, onde se resiste é para se ser resistente, seja aos hambúrgueres, seja ao português do século XXI.

Quem ficou com vontade de conhecer o local, que pegue em 5 euros e vá ao Baca Belha. Garanto que sai de lá fisgado e de barriga cheia!
Onde encontrar o Baca Belha? Morada: Rua de São Dinis (Vila Velha), nº 24, 5000 Vila Real Telefone: 259 322 508 Especialidades: moelas; bacalhau frito; petiscos; Características: casa típica centenária; Dia de descanso semanal: não tem.

Conhecem um sítio que serve petiscos de trás da orelha e um tintol de deixar Baco invejoso? Contribuam para o Guia VICE para Tascos e Tabernas, enviem as vossas sugestões para geral@vice.pt.

Videos by VICE

Thank for your puchase!
You have successfully purchased.