Uma história visual da folha de maconha

O papel da cannabis em textos religiosos arcaicos até a renascença botânica da Era Vitoriana.
24 April 2017, 3:03pm

A folha da maconha, com seu formato icônico, cheio de linhas retas e ranhuras, é provavelmente o símbolo botânico mais conhecido do mundo. A fama pictórica tem muito a ver com a ascensão da cultura " stoner" nos últimos cinquenta anos, claro, mas também aos incontáveis artistas antigos e medievais que a retrataram em suas ilustrações científicas e religiosas.

Assim como seus irmãos maconheiros, esses doidões ancestrais eram fascinados pela beleza simples da folha da maconha. No entanto, é difícil rastrear esses tributos visuais até seu primeiro exemplar porque, acredite se quiser, o consumo da cannabis precede a escrita.

A Cannabis sativa, mais conhecida como cânhamo, vem sendo cultivada por humanos pelos últimos 12.000 anos, e evidências arqueológicas sugerem que as propriedades recreativas, medicinais, e psicoativas da maconha são conhecidas há pelo menos metade desse tempo (um lembrete: o cânhamo e a maconha são diferentes variedades da Cannabis sativa; aquele é cultivado para fins industriais, enquanto este possui um nível maior de tetrahidrocanabinol, também conhecido como THC, o que o torna adequado para os usos medicinal e recreativo).

O caractere chinês para a palavra cânhamo —pronunciado como Má — existe há milhares de anos e representa duas plantas secando sob o teto de uma cabana.

De acordo com algumas fontes, incluindo o livro de Michael Backes, Cannabis Pharmacy , essa pintura rupestre datada da era neolítica (ocorrida entre 10.000-5.000 A.C) descoberta na costa de Kyushu, no Japão, representa uma folha de cannabis, o que faz dela a mais antiga representação da erva já descoberta. No entanto, o verdadeiro significado dessa pintura primitiva cabe apenas à especulação, embora seja importante notar que o cânhamo já era cultivado pelos japoneses naquela época.

Da mesma forma, existem debates quanto ao fato da deusa egípcia Seshat ser uma possível padroeira da erva, visto que ela é frequentemente retratada com uma folha de sete pontas sobre a cabeça.

Considerando que Seshat é a protetora do conhecimento, sabedoria e dos escribas, é tentador concluir que ela só possui poderes quando está chapada a ponto de uma folha de maconha se materializar acima de sua cabeça. No entanto, esse mesmo símbolo poderia ser uma representação de uma estrela ou de outro tipo de planta, então é melhor não se empolgar até que a própria Seshat esclareça o seu significado.

A deusa asiática Magu, também conhecida como Donzela do Cânhamo, foi sempre associada à cannabis. A deusa é muitas vezes retratada carregando amostras botânicas, como nesta pintura intitulada "Retrato da Imortal Magu", datada do século 12, época na qual a dinastia Song dominava a China.

As primeiras ilustrações científicas da cannabis começaram a ser circuladas entre os naturalistas do Império Bizantino. O cânhamo foi descrito no Dioscórides de Viena, um luxuoso manuscrito científico escrito por volta de 515 d.C em homenagem à uma princesa, identificada por um título em grego e por notas em árabe rabiscadas nas margens do livro.

O Zakarya Qazvini, um polímato persa escrito no século 13, também inclui o cânhamo entre suas ilustrações botânicas (a cannabis pode ser vista no painel superior, acima da couve-flor e do abrótano).

A inclusão das versões fêmea e macho da Cannabis sativa no Les Grandes Heures d'Anne de Bretagne, uma obra influente escrita para a duquesa Ana da Grã-Bretanha no começo do século 16, cimentou ainda mais a reputação da erva como uma cultura industrial e erva medicinal.

Cannabis macho e fêmea no Grandes Heures of Anne of Brittany. Crédito: Jean Bourdichon / Bibliothèque nationale de France

A partir deste momento, a maconha começou a marcar presença em compêndios de botânica ilustrados, entre eles o tomo elaborado pelo médico Leonhard Fuchs em 1542, o De Historia Stirpium Commentarii Insigne ( Comentários Notáveis Sobre a Históra das Plantas).

Artistas botânicos do Iluminismo, como o gravurista alemão Jacob Sturm, ilustraram versões ainda mais sofisticadas da planta, com cada uma de suas partes rotulada cuidadosamente. Esta é uma página do manuscrito científico Deutschlands Flora in Abbildungen (A Flora Alemã em Imagens), escrito por Sturm em parceria com seu pai, o naturalista Johann Georg Sturm.

No The Flora Homoeopathica (Plantas Homeopáticas), as qualidades medicinais da Cannabis sativa são descritas com diligência.

Essa ilustração feita em 1885 pelo professor alemão Otto Wilhelm Thomé é um ótimo exemplo da tendência realística que dominou as ilustrações botânicas na virada do século XX.

Esta página retirada do Köhler's Medizinal-Pflanzen (Plantas Medicinais do Köhler), uma série de ilustrações médicas produzida entre 1883 e 1914, se aproxima da hoje popular imagem da folha da maconha.

Além de extremamente interessante, observar a evolução da cannabis através das lentes dos artistas que a representaram é uma forma de compartilhar as maravilhas dessa planta com as futuras gerações.

Isso mostra que no plano de fundo da história, por trás de todas as guerras épicas e impérios amaldiçoados, os maconheiros sempre vagaram o mundo tranquilamente em busca de iluminação, aventura e lanches para matar a larica.

Tradução: Ananda Pieratti