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Puelche Mistura Cumbia Digital e Música Folclórica Argentina em 'Sauco Brujo'

Nascido e criado na Patagônia, o produtor Roque Ferrari, aka Puelche, lançou seu novo EP pela gravadora brasileira Frente Bolivarista.

O Daniel Lucas, da Frente Bolivarista, continua na sua expedição virtual pela América Latina em busca de novos sons. Dessa vez, o brasileiro desbravou o território dos nossos hermanos argentinos e encontrou o produtor Roque Ferrari, que nasceu na Patagônia, mora em Buenos Aires e atende pelo codinome Puelche - seu novo trampo, Sauco Brujo, saiu hoje (19) pela label brasileira.

A música do Puelche é lotada de referências da sua terra natal, da cidade onde vive e dos colegas que o ajudaram nessa empreitada, como o Pedro Canale do Chancha Via Circuito e o Lisandro Sosa do Frikstailers. Ele trocou um ideoa por email, falando sobre o passado, as influências e o novo disco. Vem com a gente:

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THUMP: Vamos começar com o seu background. Quando você começou a ouvir música eletrônica e o que você gostava de ouvir na época?
Puelche: Eu comecei a ouvir música eletrônica (se a gente entender música eletrônica como dance music) tipo… Quando eu comecei a sair pra dançar, com 17 anos. Fitas cassetes e CDs de compilação com mp3 ruins do Café del Mar e todo tipo de hit que tocava nos anos 2000, na MTV ou no rádio.

Eu nasci em San Martin de los Andes… Uma vila pequena em Neuquen, Patagônia, Argentina. 40 mil pessoas [moram lá]. Todo tipo de onda nova ou referências foram trazidas por turistas ou amigos que viviam em Buenos Aires ou cidades maiores.

Música eletrônica sempre foi relacionada com festas pra dançar ou algo assim. Naquela época, eu ainda gostava mais de rock e hip hop.

Quando você começou a produzir e como sua música soava?
Comecei a produzir com o computador quando terminei o colégio e me mudei pra Buenos Aires, em 2007. Eu tinha 18 anos quando eu passei a usar o FruityLoops, porque era de graça ou alguém tinha me dado uma versão gratuita. E era muito engraçado (risos), era tipo um lo-fi super digital e um dembow/reggaeton esquisito que, pra minha surpresa, era mais futurista do que eu imaginava. Algum dia eu vou postar essas faixas de graça (risos), acho que o Blaze Kidd ia gostar. Aí eu comecei a aprender mais e a me interessar mais por softwares e plug-ins e fazer beats, sequências… Passei a usar o Reason, a fazer batidas de hip hop. O Roquefeller nasceu assim e milhares de outros samples também.

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Pois é, você tem esse outro projeto chamado Roquefeller - como ele se diferencia do seu som como Puelche?
Como te disse, é basicamente meu alter ego beatmaker, quando eu comecei a fazer música. E às vezes o processo criativo é bem parecido com o Puelche… Às vezes são os synths, os samples, sempre a bateria. Eu gosto de bateria meio bate-cabeça, ou ritmos, mas sempre de um jeito mais suave. São meus dois projetos solo, mas obviamente estão relacionados, como se fossem primos ou coisa assim (risos). Acredito que a cor e, claro, a pesquisa são o que definem e diferenciam os dois trabalhos.

Como você descreve seu som? E por que escolheu o nome Puelche?
Puelche nasceu sem pensar. As primeiras faixas foram produzidas de um jeito muito parecido com o Roquefeller, com bateria e samples. Acho que eu precisava de outra forma de me expressar. Eu sempre relacionei o Roquefeller com a minha vida na cidade e com as influências do hip hop. Comecei a samplear folclore argentino e latino-americano pras fitas de batida desse projeto, então acho que o Puelche estava lá também, tomando forma silenciosamente.

O nome Puelche veio depois de meses pensando nisso. Basicamente, "puelche" significa "povo do leste" em mapudungun [língua dos Mapuches]. Os pehuelches, parte da cultura tehuelche, foram os primeiros habitantes de San Martin de los Andes e da região da Patagônia. Mas [puelche] também é um tipo bem conhecido de vento que vem das montanhas mais altas e dos vales. É pra ser quente e silencioso, mas em San Martin é muito forte. Eu gostei muito do significado, da presença.

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Acho que Puelche é resultado de vários e vários álbuns, desde a MPB brasileira, música folclórica peruana, ritmos colombianos… E claro, folclore argentino, muito inspirador. Ao mesmo tempo, eu tava ouvindo e dançando muito com o movimento zizek aqui em Buenos Aires, e tive uma oportunidade ótima de conhecer pessoas como o Pedro Canale (do Chancha Via Circuito) que me encorajou de verdade a continuar produzindo com o Puelche.

Quais são suas influências?
Então, samples e ritmos latino-americanos e essa nova onda de cumbia digital e folclore de raíz digital foram muito inspiradores pra mim. Puelche é [a mistura de] todos esses novos sons latinos mixados com texturas de um beatmaker, samples dos anos 1970, sons de vinil, baixo e sintetizadores… Pelo menos é isso que eu acho (risos)! Realmente veio do coração. Passei por maus momentos com a moça que eu amava e isso foi uma grande inspiração. Acho que também tem um tipo de mistério que as florestas e selvas latinas guardam, aquele sentimento profundo e mágico.

As influências foram Mercedes Sosa, Jaime Torres, Chimizapagua, El Polen (com quem eu fiz um refix que é de graça no meu EP), Horacio Guarani, Atahualpa Yupanqui, Chancha Via Circuito, El Remolon, Frikstailers, Los Jaivas, Tom Jobim, Caetano Veloso e muitos outros músicos como. As pinturas da Paula Duro (como referência de arte contemporânea), pinturas de Russeau, Diego Rivera, Julio Escamez. Google Earth por me deixar viajar pelo mundo (risos) e o planeta Terra em si. Soa meio clichê, mas é verdade.

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**Além da **Frente Bolivarista, você já trabalhou com outro selo?
Eu nunca estive em outro selo, então a Frente é o meu primeiro. Estava procurando alguma gravadora ou alguém que se interessasse pelo Puelche, e alguns amigos que estão trabalhando com labels latino-americanas me disseram que a Frente estava surgindo e queria fazer tudo certinho. O Daniel Lucas da Frente também parecia muito interessado no Puelche e essa confiança foi o que me convenceu a trabalhar com ele. Então aqui estou eu. :)

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Não podemos classificar a música latino-americana como uma única coisa, mas você acredita que tem algo em comum entre os ritmos e gêneros que nasceram aqui?
Boa pergunta… Eu gosto muito de analisar e aprender com a história, e a música teve, tem e sempre terá um grande papel nela. Mas pra ser conciso, acho que obviamente tem coisas em comum, e é difícil de colocar em palavras pra mim, mas… O mistério, as religiões, as tradições ancestrais e rituais dedicados à comida, ao tempo, à comunicação com algo, com a mãe natureza, os animais e as árvores, as estrelas. Tudo isso é muito profundo e significativo e influente. Claro que também podemos adicionar "temperos" da cultura, como a mutação dos ritmos, a escravidão dos africanos e como a globalização contribuiu ou não pra misturar todas as ondas, instrumentos e tradições musicais.

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Pode contar um pouquinho mais sobre o álbum e a história por trás dele: o nome do disco, quando e onde você o gravou?
O nome é Sauco Brujo, que também é uma das músicas do EP, e convenientemente é a primeira faixa que eu lembro de ter feito para o Puelche. "Sauco" é uma fruta nativa da Patagônia, com uma cor violeta/azul bem forte e escura (as pessoas de San Martin fazem um suco delicioso com ela). E "brujo" é o espanhol de "bruxo". Então é como se fosse uma árvore de sauco encantada.

O EP tem seis faixas, e uma delas é o refix de "Mi Cueva", da banda peruana dos anos 1970 El Polen. Comecei a gravar no verão de 2012, acredito, e todas as faixas foram produzidas entre 2012 e 2013. Em 2013 comecei a trocar emails com o Pedro [Canale] sobre o EP e ele foi muito útil no processo, como um curador, conversávamos sobre as músicas por email. No mesmo ano comecei a falar com o Lisandro Sona, do Frikstailers, que depois de ouvir o EP ele disse que queria mixar tudo DE GRAÇA. Foi uma honra trabalhar com ele. O processo foi beeeeeeeem longo porque ele teve muito trabalho e muitas viagens com a própria banda, e vivendo no México. Bom, acho que [Puelche] nasceu como um projeto gratuito, sem interesses, deadlines… Então deixei a ansiedade de lado e continuei fazendo outros projetos também. Eu realmente amo fazer música.

E agora estamos aqui. Terminei [Sauco Brujo] no começo desse ano e agora estamos lançando. Eu tô muito feliz. Embora eu seja pouco conformista e queira sempre mudar ou refazer as coisas (considerando que eu terminei as gravações em 2013), acho que é um trabalho muito legal e, como eu disse, tô feliz da vida.

Você pode comprar o EP Sauco Brujo pelo Bandcamp da Frente Bolivarista

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