Ilustração por Kelsey Wroten

Como crescer numa família poliamorosa fez de mim uma melhor pessoa

Quando era pequeno morava com o meu pai, a minha mãe, o companheiro da minha mãe e, durante um tempo, com a mulher do companheiro da minha mãe.

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04 Junho 2015, 7:38am

Ilustração por Kelsey Wroten

Este artigo foi originalmente publicado na VICE UK.

Poucos símbolos culturais têm tanto peso na sociedade como o núcleo familiar "tradicional". Já se sabe, dois pais heterossexuais, dois filhos, um cão e uma boa casa na cidade. Não me interpretem mal, não existe nada de errado com este modelo. A questão é que eu cresci num ambiente completamente diferente.

O meus pais praticam o poliamor, um termo que partilha a sua origem entre o grego e o latim e que designa os relacionamentos românticos não monogâmicos, com o consentimento de todas as pessoas envolvidas. Quando era pequeno morava com o meu pai, a minha mãe, o companheiro da minha mãe e, durante algum tempo, com a mulher do companheiro da minha mãe. A minha mãe chegou a ter quatro homens em simultâneo. O meu pai também tinha as suas mulheres, o que significa que fui criado no meio de uma rede interligada de adultos que preservavam as relações não exclusivas, mas com compromissos que poderiam durar anos, ou mesmo décadas.

A primeira vez que me explicaram a situação tinha cerca de oito anos. O meu irmão, na altura com quatro anos, perguntou o porquê de James, o companheiro da minha mãe, passar tanto tempo connosco. "Porque eu amo-o", disse a minha mãe, com toda a naturalidade. "Bem, isso é bom", disse o meu irmão, "porque eu também o amo".


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A verdade é que era tudo bastante simples. Em retrospectiva, o que mais me maravilhava na nossa situação era como tudo parecia tão esmagadoramente normal. Muitas vezes penso que gostava de que tivesse sido mais emocionante. Ter apanhado os meus pais no meio de uma orgia movida a anfetaminas, pessoas com o rabo de fora, freiras e aves de capoeira. Mas não. A minha família era disfuncional. Como outra qualquer.

Nunca critiquei os meus pais por terem outros companheiros. Costumávamos ir todos juntos ao cinema, ou passar férias num barco. O facto de haver mais adultos em casa do que o habitual traduziu-se em mais amor e apoio e mais olhos que zelavam pela nossa segurança. O meu pai e James não sentiam ciúmes um do outro, não existia essa presença do macho alfa a marcar o seu domínio. Eles eram bons amigos.

Lembro-me da primeira vez que James me repreendeu. Tinha oito anos e, inadvertidamente, comecei a correr em direcção a uma rua com muito trânsito. Ele conseguiu agarrar-me, levou-me até ao passeio e gritou comigo por não ter olhado para um lado e para o outro. Lembro-me de pensar, "Ahhh, ou seja, este adulto também pode disciplinar-me". Não foi preciso muito tempo para compreender que, afinal, tinha mais um adulto a olhar por mim, disposto a evitar que eu fosse esmagado pelas rodas de um carro e que, no fundo, a situação em que me encontrava era positiva.

"Como seria possível eu contar a toda a gente que a minha mãe tinha quatro namorados?".

Tive sorte de viver num ambiente relativamente agradável em casa, porque a escola era um pesadelo. Era gago e gostava especialmente de baladas dos anos 80. Contar a alguém como era a minha família dava-me direito a levar uma tareia. Uma vez os putos chungas da minha escola (com um elevado sentido de patriarcado) implicaram com um miúdo quando souberam que era o pai que tomava conta da casa.

Como seria possível eu contar a toda a gente que a minha mãe tinha quatro namorados? Eu só tinha um amigo (se fossem mais teriam interferido com o meu caminho espiritual centrado no estudo das enciclopédias de Star Wars e com o meu deleite nas minhas primeiras incursões pelo onanismo) que estava ao corrente da história da minha peculiar família e, quando lhe contei, limitou-se a encolher os ombros.

A nossa comunidade eclesial, no entanto, descobriu o acordo feito pelos meus pais. Nós morávamos muito perto da paróquia da igreja anglo-católica de Londres e, embora nunca tivéssemos mentido sobre a dinâmica da minha família, não andávamos propriamente pela rua a contar a toda a gente. James era designado como "um amigo da família" e isto ainda funcionou durante um tempo. Mas acabámos por ser expulsos. Alguém andava a investigar a página (LiveJournal) da minha mãe na Internet e o rumor de que a minha família era poliamorosa propagou-se.

A maior parte das pessoas tentou compreender a situação, mas nem todas foram capazes. Uma família em concreto sentiu-se tão afectada que proibiu os seus filhos de brincar connosco. O assunto piorou quando alguém chamou os serviços sociais, vinculando os relacionamentos poliamorosos com o abuso de crianças, o que causou um sem fim de visitas constantes de assistentes sociais a nossa casa. Lembro-me perfeitamente de estar sentado no chão da sala com os meus bonecos e tentar convencê-los de que meus pais não me estavam a fazer nada de mal.

Hoje em dia, quando menciono o facto de que os meus pais praticam o poliamor, as reacções variam entre a estranheza e a admiração, mas, a maior parte, reage de forma positiva. Outros sentem-se ameaçados, mas, em seguida, baixam a guarda quando lhes digo que não pretendo criticar as suas relações monogâmicas.

Ao fazer o balanço da minha vida, acho que a educação que me foi dada nesse ambiente fez de mim uma melhor pessoa. Tive a oportunidade de falar com adultos de origens muito distintas, fossem os companheiros dos meus pais ou os companheiros dos companheiros. Vivi com gays, heteros, bi, transexuais, escritores, cientistas, psicólogos, adoptados, pessoas ricas e pessoas pobres. Crescer neste meio tão variado contribuiu para ampliar a perspectiva que tinha do Mundo e para forjar a minha personalidade.

Nunca invejei os meus amigos com pais monogâmicos. Uns viviam com dois, ou só com um progenitor, outros com padrastos, com avós, ou com tias ou tios, logo, a minha situação não era assim tão estranha. Acho que não devem existir muitas diferenças na maneira de como uns pais monogâmicos ou uns poliamorosos lixam a vida dos filhos. Bons pais são aqueles que o são, independentemente do número. Felizmente, os meus eram incríveis.

E eu não acho que as relações poliamorosas sejam melhores do que as monogâmicas. São simplesmente diferentes, mas gostava que não fossem tão estigmatizadas. Apenas 17 por cento das culturas humanas praticam a monogamia estrita, enquanto as restantes englobam uma mistura de relacionamentos. Não existe uma família tradicional.

"Perguntam-me muitas vezes se ter tido pais poliamorosos alterou a minha maneira de pensar o amor como um homem adulto e a resposta não é simples".

No seu livro Sex at Dawn, o escritor Christopher Ryan explica que a monogamia remonta apenas à época da revolução agrícola. Antes disso, vivíamos em pequenas comunidades que partilhavam os seus pertences (alimentos, abrigo, ferramentas, etc.). Após a chegada da revolução agrícola a monogamia começou a desenvolver-se, como resultado da preocupação pela perpetuação da espécie e do sistema para herdar bens materiais.

De acordo com o escritor, o comportamento romântico que os seres humanos têm actualmente é de um carácter puritano desnecessário. "Têm uma visão vitoriana e ultrapassada da sexualidade humana, em que o desejo está vinculado aos direitos de propriedade", descreve. O século XX testemunhou o regresso às nossas raízes poliamorosas, consequência da revolução sexual e do feminismo e, também, por uma maior independência económica das mulheres. E parece que esta tendência vai continuar a crescer.

Perguntam-me muitas vezes se ter tido pais poliamorosos alterou a minha maneira de pensar o amor como um homem adulto e a resposta não é simples. Ter crescido num ambiente poliamoroso fez-me ver a monogamia como algo estranho e anti-natural. É possível amar mais do que um amigo, ou um familiar, de cada vez, por isso a ideia de que somente podes amar o teu companheiro é chocante. Encontro-me na casa dos vintes e tenho inclinação para ter múltiplas companheiras (embora isto se deva mais à minha libido que a uma convicção filosófica). Não me considero poliamoroso, mas estou aberto a manter relações com várias mulheres, ou só com uma.

Passamos grande parte da nossa vida em sofrimento e a lutar; o resto é amor e uma boa pizza. Para um fragmento do tempo cósmico que passamos neste minúsculo grão de areia a que chamamos Terra, não podemos simplesmente aceitar que o amor é amor, seja entre as raças, entre as pessoas do mesmo sexo, ou entre mais de duas pessoas? A discriminação do amor é uma doença do coração e para isso já temos as pizzas.

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