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Tecnologia

As Visual Novels são apenas videojogos pornográficos e aborrecidos

Mas também há substância e sentimento.

Por Luke Winkie
25 Agosto 2013, 9:30am



As Visual Novels são como livros de aventuras que jogas no teu computador. Se as tuas aventuras não tiverem nada a ver com mulheres ciganas, pode ser que tenhas sorte e que leves com gráficos de cenas pornográficas (já explico isto melhor). Geralmente, nestes jogos, a tua personagem é um gajo pensativo e stressado, que tem um papel importante em qualquer liceu, hospital ou castelo a que pertença. A história manda-o interagir com uma cambada de esquisitóides, a maior parte raparigas anime a dar para o sexy. Raparigas essas pelas quais te vais apaixonar. Vais vê-las nuas, pelo menos uma vez durante as mais de 50 mil linhas de diálogo. As Visiual Novels também podem ser adaptadas para gays ou inseridas num mundo de fantasia sensual. Podem ser queridinhas e românticas ou completamente libidinosas. Não esquecendo que podem ser também muito sombrias — com conteúdos de pedofilia, violações, corpos deformados ou com tudo isto ao mesmo tempo.

Provavelmente, nunca jogaste Visual Novels. Até porque a grande parte destes jogos é criada e lançada no Japão. Apesar de algumas tentativas, esta moda nunca conseguiu dar o verdadeiro salto para o mundo ocidental. Aqueles que dominam a língua inglesa e que queiram jogar este tipo de jogos têm de puxar pela criatividade. E é aqui que a correria aos sites de tradução como o Fuwanovel começa. Este é um dos maiores sites fora do Japão dedicado às Visual Novels. É mantido pela Aaeru, uma rapariga australiana de 28 anos, que entrou na área após ter jogado uma versão traduzida da Visual Novel Little Busters. Uma vez que os japoneses não estão nada interessados em explorar novos mercados, os ocidentais que querem jogar estes jogos dependem de pessoas como a Aaeru, que sabem japonês e que têm vontade em reescrever jogos inteiros. “Sei que há pessoas que desejam imenso jogar estes jogos, mas que não podem por causa das barreiras linguísticas”, disse-me a Aaeru. “É por isso que quero ajudar a minha comunidade ao dedicar algum do meu tempo a traduzir o que posso.”

Ela confessou-me também que 99 por cento das Visual Novels estão ainda por traduzir e que uma tradução bem feita demora, em média, um ano. Toda esta actividade é ilegal. Ao reescreveres um jogo da autoria de outra pessoa e ao disponibilizá-lo para download gratuito, estás a desrespeitar os direitos de propriedade intelectual. Pode até nem interessar no que diz respeito àqueles jogos mais sombrios, mas a Aaeru recebeu, recentemente, uma carta da MangaGamer, uma empresa de tradutores profissionais que trabalham directamente com os autores japoneses. Parece que a companhia não apreciou muito a tradução que a Aaeru fez de um jogo bastante popular, o Da Capo III.

Não estava nos planos da MangaGamer traduzir o jogo para inglês. O problema é que, uma vez que a companhia-mãe da empresa é possuidora dos direitos, tem direito a anular as traduções dos fãs. Este parece, no entanto, um estranho modelo de negócio, que leva as corporações a processar os consumidores mais aficionados dos produtos que desenvolvem.

“É um tópico de grande tensão entre os fãs. As opiniões dividem-se.” Foi isto que me explicou a Aaeru quando lhe perguntei se as pessoas estavam zangadas por estas companhias inviabilizarem as traduções amadoras. “Há quem acredite que se compraste o jogo, deves ter a oportunidade de o melhorar e de partilhar essas melhorias com os outros. Mas também há quem não acredite nesses direitos. Há quem defenda que se deve promover, antes, as acções comerciais locais. Algo com que discordo completamente. Sei que ajudar as pessoas não é, de todo, errado.”

Então, o que é que está realmente em jogo aqui? Não são apenas jogos pornográficos a dar para o esquisito? Se passares algum tempo na base de dados da Visual Novels, vais encontrar muita obscenidade, mas também encontras a emoção que gostarias de ter num romance normal. A Aaeru acha que sim, claro. “É muito difícil para alguém que tenha jogado um jogo destes manter a opinião de que são apenas pornográficos”, disse-me ainda. “Actualmente, encontras personagens tão reais que é impossível não ficares caidinho por elas. O sexo é apenas uma pequena parte destes jogos, talvez uns três por cento, da mesma forma que os filmes de Hollywood também têm curtas cenas de sexo.”

Queria acreditar nela, por isso resolvi sacar a Visual Novel Season of the Sakura. Foi lançada em 1996, foi traduzida para inglês em 2002 e, aparentemente, é a melhor Visual Novel de todos os tempos. Pareceu-me óptima para começar. A minha personagem era uma estrela de beisebol do liceu, rodeado por raparigas anime. Cliquei durante horas nos diálogos e praticamente o que era exigido de mim era fazer avanços a estas raparigas. Havia também muita comédia japonesa previsível, mas saudável. Comecei a gostar disto da mesma forma que curti o OC. Falei com as raparigas calminhas, com as marronas, com as desvairadas, com as que usam óculos e, apesar de isto soar redutor, elas representavam personagens reais com personalidade. Depois de algumas horas, senti que estava mesmo a conhecer estas pessoas.

No final do jogo, para aí umas dez horas depois, dei de caras com uma cena de sexo com a rapariga com a qual a minha personagem fantasiava mais e com uma divertida (mas desconfortável) tradução em inglês. Esta é, infelizmente, a paga, a razão pela qual os jogadores aguentam até ao fim. Até Aaeru admitiu que o propósito destas cenas de sexo é apenas divertir, não acrescentam nada à narrativa do jogo. É pena, porque leva algo que poderia ser muito bom para o campo do erotismo. É como chegarmos ao fim de um bom romance e o último capítulo ser este: “Oh sim, acabaram todos com um grande tesão. Tão querido.” Claro, há jogos que são feitos exclusivamente para a pornografia. Mas tens de te perguntar quantas pessoas procuram as versões soft.

Para contrabalançar todos os elementos negros, esquisitos e pouco saudáveis, há também muita seriedade e doçura. Apesar de tudo, a Season of Sakura é, basicamente, sobre amor juvenil. É um jogo tonto, mas talvez seja esse o objectivo. Há personagens que dizem “amo-te” ao jogador. Estarão estes jogos a tentar estabelecer um romance com os jogadores? A Aaeru acha que sim. “É propositado e é esse o porquê de as Visual Novels serem tão espectaculares. Não há nada disto, em qualquer outro meio.”

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