Estas mães venezuelanas viram os seus filhos ser assassinados
Foto: Luis Cobelo
crime

Estas mães venezuelanas viram os seus filhos ser assassinados

Todos os anos, milhares de pessoas são assassinadas no país. Falámos com algumas das mulheres que perderam os seus filhos.
26 January 2017, 11:23am

Este artigo foi originalmente publicado na VICE México .

Todos os anos, dezenas de milhares de pessoas são assassinadas na Venezuela. Caracas não é apenas a capital do país, mas também a capital com o recorde de homicídios no Mundo. Em 2015, foram quase quatro mil assassinatos, numa cidade de cerca de três milhões de pessoas. Segundo estatísticas oficiais do governo, 18 mil pessoas foram assassinadas naquele mesmo ano em todo o país, enquanto o Observatório de Violência venezuelano, uma organização independente, afirma que o número ficou perto dos 28 mil.

Muitas dessas mortes resultam de assaltos, raptos, guerras de gangs e, por vezes, de violência policial. Desde 2014, os venezuelanos têm saído à rua regularmente para protestarem contra a violência (entre outras coisas que infestam o país, como a hiper-inflação e a corrupção). E, frequentemente, os próprios protestos também acabam em violência.

Pensar na taxa de assassinatos na Venezuela é preocupante, mas, principalmente, abstracto, por isso decidi visitar mulheres venezuelanas cujos filhos foram assassinados. Falaram-me sobre o seu sentimento de perda, enquanto eu fotografava as suas casas.

ALBIS

Albis Hernández era mãe de Esteban, um estudante de 17 anos que foi baleado e morto por um polícia. Esteban regressava da escola com um amigo, na mota deste e os dois vestiam o uniforme escolar.

No caminho, uma padaria da vizinhança foi assaltada e o dono disse à polícia que os ladrões eram dois rapazes. Quando os agentes gritaram para que eles parassem a mota, o amigo de Esteban assustou-se e acelerou.

Um dos polícias disparou e acertou em Esteban nas costas. Morreu no local. O dono da padaria confirmou mais tarde que Esteban e o amigo não eram os rapazes que tinham assaltado o estabelecimento.

CONSUELO

Richard Alexander morreu com um tiro na cabeça quando se dirigia ao supermercado. A sua mãe, Consuela Palacios, não tem ideia da razão pela qual o filho foi morto.

Tudo o que sabe é que uma dupla de homens o atacou com tacos de basebol e que a luta acabou com um tiro - talvez dois, não tem a certeza. O corpo foi encontrado dois dias depois, num terreno baldio perto do supermercado.

GLORIA

Quando tinha nove anos, Omar foi apanhado no meio de um tiroteio quando regressava a casa da escola. A sua família mora num dos bairros mais perigosos da cidade de Petare, região metropolitana de Caracas, onde gangs de jovens entre os 15 e os 20 anos, fortemente armados, ditam as regras.

Omar e a mãe estavam prestes a subir para o minibus escolar, no preciso momento em que um começou um tiroteio entre grupos rivais. Gloria estava a segurar a mão do filho e sentiu o peso do corpo quando ele caiu. Foi atingido por uma bala perdida.

MARÍA DEL CARMEN

Os filhos de María Del Carmen, Ronnie e Jorge, foram assassinados por um gang do bairro onde moravam com a mãe. Agora, as suas fotos estão penduradas na parede da nova casa. María teve de se mudar depois de os criminosos ameaçarem matar o seu terceiro filho.

Ela diz que os filhos não estavam envolvidos em nada de ilegal. Queriam apenas sair do local, mas foram impedidos. Hoje, é responsável pela criação da filha de um dos filhos assassinados.

MARÍA HELENA

Três filhos e um sobrinho de María Helena foram assassinados. O seu filho, Wilmer, levou um tiro na cara aos 39 anos, quando esperava um autocarro. Foi apanhado no meio de um tiroteio entre gangs rivais. O mesmo aconteceu com o seu filho de 20 anos, Yender. Foi baleado três vezes e morreu no hospital dias depois.

Quando a sua filha Eliana tinha 12 anos, foi baleada na cabeça e morreu à porta de casa. O sobrinho de María Helena, Erasmus, morreu devido a uma bala perdida, aos 20 anos.

OLGA

Julián Julián, apelido JJ, foi assassinado quando lhe tentaram o carro. A mãe, Olga, diz que JJ "era um dos bons". Um veterinário que morreu aos 29 anos.

Um dia, ao almoço, saiu para comprar um frango assado. Ao voltar ao carro, viu um homem a aproximar-se com uma arma na mão. O indivíduo tentou levar o carro e JJ, aparentemente, fez um gesto de que ele não gostou. O criminoso disparou cinco vezes sobre ele e fugiu do local sem levar o carro.

YNGRIS

O filho de Yngris, William, foi assassinado numa festa de rua, por alguém que Yngris tem a certeza que era o namorado de uma famosa modelo venezuelana.

William tentou separar uma altercação entre o assassino e um amigo seu e foi morto por isso. O criminoso fugiu do país e nunca foi apanhado.

JENETH

Bassil, o filho de Jeneth, tornou-se um símbolo dos protestos de 2014 contra a falta de acção do governo para parar a violência e a hiper-inflação. Durante um desses protestos, no dia 12 de Fevereiro, Bassil foi atingido por uma bala da polícia em pleno centro de Caracas.

Jeneth só soube

da morte do filho

 horas depois, quando o caso se tornou

notícia internacional

.

CARMEN

Durante um protesto contra o governo e contra a violência, em San Christóbal, em Fevereiro de 2014, o filho de Carmen, Jimmi Vargas, foi atingido por balas de borracha e gás lacrimogéneo, que fizeram com que caísse do telhado onde estava. O golpe na cabeça foi fatal, mas enquanto estava caído no chão, ainda vivo, a Guarda Nacional supostamente continuou a disparar balas de borracha sobre ele.

A última notícia que Carmen teve do filho foi uma mensagem de texto, que dizia: "Mãe, fazes-me o lanche? Estou a ir para casa".