As mudanças climáticas transformaram as geleiras bolivianas em bombas-relógio
Geleira na Bolívia, próximo de La Paz. Novo estudo sugere que, por causa do aquecimento global e da pobreza, lagos glaciais da Bolívia se tornaram sério risco para os habitantes do país. Crédito: Flickr/misssharongray

As mudanças climáticas transformaram as geleiras bolivianas em bombas-relógio

Novo estudo sugere que, por causa do aquecimento global e da pobreza, lagos glaciais da Bolívia se tornaram sério risco para os habitantes do país.
25.10.16

Quando pensamos no derretimento das geleiras, a América do Sul é talvez o último lugar que vem à mente. Na Bolívia, porém, as geleiras tropicais dos Cordilheira dos Andes estão ameaçadas devido ao agravamento das mudanças climáticas. Como resultado, muitas comunidades rurais agora correm o risco de sofrer com enchentes repentinas e a privação de água potável.

Um novo estudo, publicado na The Cryosphere, uma revista científica dedicada à pesquisa de água congelada na Terra e em outros planetas, encontrou evidências de que as enchentes porventura causadas por lagos glaciais de água descongelada poderiam ser catastróficas para as vilas nas montanhas da Bolívia. As descobertas salientam o quão pouco sabemos a respeito desse fenômeno no país e, de quebra, ressaltam a importância de dedicar mais recursos para o entendimento dos efeitos das mudanças climáticas em todo o planeta.

Geleira e lago próximos às aldeias de Pelechuco e Agua Blanca, na região Apolobamba, no nordeste da Bolívia. Crédito: Simon Cook.

O artigo é um dos primeiros a medir alterações glaciais significantes nos Andes, e seus autores acreditam que suas descobertas podem prever quais lagos oferecem maiores riscos às comunidades rurais.

"Conversamos com um líder de comunidade que nos relatou um acontecimento presenciado por seu pai: a enchente de uma das geleiras", diz Simon Cook, autor principal do estudo e conferencista na Universidade Metropolitana de Manchester, na Inglaterra. "Acontece que a enchente não foi documentada, não está em nenhum artigo científico, e não foi registrada localmente. Trata-se de uma dessas coisas que as pessoas simplesmente veem."

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Quando as geleiras diminuem, muita coisa pode acontecer. A água descongelada, que fornece força hidrelétrica e irrigação para as comunidades locais, pode desaparecer. Algo entre 2,3 milhões de residentes urbanos que habitam La Paz e El Alto, por exemplo, recebem cerca de 15% de sua água das geleiras, de acordo com o estudo. Um perfil das mudanças climáticas na Bolívia, publicado no New York Times, em 2009, especulou que El Alto, a segunda maior cidade do país, poderia se tornar "o primeiro desastre urbano causado pelas mudanças climáticas".

Vista de La Paz, Bolívia. Crédito: Simon Cook.

Outra consequência do derretimento das gelerias é a formação de "lagos proglaciais", criados quando a água é barrada por escombros ou rochas. Esses lagos não apresentam perigo por si só. Quando deslocados em decorrência de avalanches ou deslizamentos, porém, eles podem atingir toda uma vila. Se o acesso às estradas for bloqueado pelos escombros, as comunidades podem ficar semanas sem resgate e auxílio no desastre.

Em Huaraz, no Peru, um lago glacial chamado Palcacocha se rompeu e inundou a cidade em 1941. Estima-se que 5.000 pessoas morreram. "É mais ou menos como jogar uma bomba em uma piscina", afirmou Cook. Por meio de imagens de satélites, coletadas pelo Geological Survey dos Estados Unidos entre 1968 e 2014, a equipe identificou 25 lagos que podem apresentar risco às comunidades rurais. Cook e seus colegas mapearam "centenas" de lagos na Bolívia. Seus diagnósticos foram baseados no fato de os lagos estarem localizados acima das aldeias, estradas e demais infraestruturas, e sua proximidade das geleiras ou montanhas.

Os Andes bolivianos. Crédito: Simon Cook.

Entre 1986 e 2014, as geleiras bolivianas se tornaram 43% menores enquanto a temperatura dos Andes aumentou 0,7°C em 50 anos. A geleira mais icônica do país, chamada Chacaltaya, foi manchete em 2009 depois que os cientistas descobriram que 80% de sua superfície diminuiu desde 1982. Ela tinha 18.000 anos de idade e desapareceu num piscar de olhos, muito tempo antes da previsão de seu desaparecimento por completo.

A situação das geleiras bolivianas tem sido negligenciada na literatura científica, de acordo com Cook. A Bolívia é um dos países mais pobres da América do Sul e, como nação em desenvolvimento, está particularmente vulnerável aos efeitos das mudanças climáticas. Aproximadamente 60% do país vive abaixo da linha da pobreza.

"Muitas pesquisas são feitas sobre como grandes cidades, como La Paz – de certa forma, distantes das montanhas –, serão afetadas. Se você de fato vive nas montanhas, sofrerá em dobro. Você não somente está exposto à ameaça de uma enchente explosiva, mas também a alterações no fornecimento de água", acrescentou Cook.

Os pesquisadores esperam que seus resultados sejam considerados mais amplamente na Bolívia e por ONGs que trabalham com questões de recursos aquíferos em nações em desenvolvimento da América do Sul. Pelo menos, Cook espera que o estudo possa oferecer um alerta a respeito dos perigos das enchentes causadas pelos lagos glaciais.

"É a nossa chance de montar todo o quebra-cabeças."

Tradução: Amanda Guizzo Zampieri