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“Vou Tocar para as Garotas”, Diz Valesuchi, Única Atração Feminina do Sónar SP

A produtora chilena que toca em São Paulo no dia 28 de novembro falou sobre machismo, influências e emoções transcendentais — tudo por meio da música.
Divulgação

Saída do underground chileno, Valentina Montalvo Alé, de 27 anos, começa a borbulhar para fora da cena que ela mesma considera "pequena". Depois de ter participado da turma do Red Bull Music Academy de 2014, Valesuchi vai lançar um EP por um grande selo (ainda não revelado) em 2016, e faz sua segunda visita ao Brasil — depois das férias de infância que passou com os pais na Bahia, a produtora vem do Chile para tocar no Sónar São Paulo no dia 28 de novembro.

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Leia: Onde Foi Parar a "Música Avançada" do Sónar Barcelona?

Na sua descrição do Soundcloud, entre a palavra "saudade" (em português, mesmo) e o artista DãM-Funk, escolhe referências tão variadas quanto pode permitir sua diversa formação musical. Influenciada tanto pela cultura tradicional da América Latina quanto pelo house de Detroit, Valesuchi conquistou seu espaço na cena do Chile e logo chamou atenção do resto do mundo, tendo tocado ano passado no Sónar Barcelona. Agora, aqui no Brasil, ela será a única mulher a se apresentar na versão paulistana do festival, dividindo palco com titãs como o Chemical Brothers.

Antes da vinda ao país, a produtora falou com o THUMP sobre sua admiração pela cultura brasileira e experiências transcendentais que teve com a música – de perder o medo ao encarar uma plateia de festival e manter contato espiritual com seu falecido irmão.

THUMP: Como você se interessou por música eletrônica em particular?
Valesuchi: Essa vai ser uma resposta totalmente despreparada (risos). Eu lembro de estar no carro dos meus pais, e ver o meu irmão mais velho implorar para eles colocarem uma fita no rádio. Não sei se era uma mixtape ou um álbum de música eletrônica, mas lembro que foi naquele momento que eu entendi que aquilo era uma vibe totalmente diferente de música. Tinha um padrão, mas não tinha a estrutura típica que eu conhecia, não tinha vocais. Eu lembro de ficar imediatamente interessada, virar pro meu irmão é perguntar: "O que é isso?". Devia ter uns 10 anos.

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E como você começou a produzir sua própria música?
Esse irmão de quem eu te falei era meu único irmão, e ele faleceu em 2003. Ele gostava muito de música, tinha muitos turntables e, quando morreu, todas as coisas deles passaram pra mim. Eu sempre gostei de música, mas quando comecei a brincar com as máquinas dele, eu me tornei mais interessada na ideia de fazer música. Aquele momento foi muito difícil, mas muito interessante ao mesmo tempo. Foi muito triste, mas fazer música e permanecer conectada ao meu irmão por meio dela foi muito importante pra mim. Ele tinha um duo com um amigo que cantava em algumas faixas, e eu e ele continuamos tocando as músicas por alguns anos. Eu meio que substitui meu irmão, continuei tocando porque o projeto deles era muito bom. Ele faleceu, mas a música dele não.

"As mulheres estão cansadas de ficar um passo atrás dos homens. Quando nós entendermos que podemos fazer tudo o que quisermos – de verdade, nós PODEMOS fazer TUDO o que quisermos – as coisas vão mudar."

Então foi assim que você entrou na indústria?
Sim! Meu irmão era mais velho que eu, então alguns de seus amigos me convidaram pra tocar e comecei a me tornar parte da cena. Comecei a trabalhar como DJ e a fazer música, mas não mostrei pra ninguém por uns 10 anos.

Existe uma grande cena de música eletrônica em Santiago?
Não muito. Se você vai ao Creamfields ou algo do tipo, aquilo é grande, sabe? Oito mil pessoas, 10 mil pessoas. Mas a cena da qual participo é uma cena mais underground. É muito interessante e está crescendo, mas eu não diria que é grande. Você vê mais ou menos as mesmas pessoas em todas as festas. Talvez em Buenos Aires ou São Paulo vocês tenham uma proporção diferente, mais pessoas, mas aqui em Santiago é algo muito underground.

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Você acha que artistas da América Latina deviam dar mais apoio uns aos outros?
Com certeza! É difícil não comparar nossa cena de música eletrônica à da Europa, apesar de ser uma indústria totalmente diferente. Eu acho que não nos informamos o bastante sobre o que está acontecendo em outras cidades, mas estamos muito longes um do outro. Um voo de Santiago até São Paulo dura cinco horas, já é um voo longo. Eu acho que poderíamos ter mais trocas entre nossas cenas, mas acho que está melhorando, é só uma questão de tempo.

Você acha que há traços chilenos e/ou sul-americanos na sua música?
Sim! Principalmente porque meu pai é do Equador, e ele me ensinou muito do que eu sei sobre música. Ele me ensinou muita coisa típica, como, por exemplo, os "boleros tradicionales", e um cantor muito bom do Equador chamado Julio Jaramillo. Eu acho que a América Latina como um todo apresenta um sentimento de nostalgia, em suas letras, suas melodias. Não é só festa e comemoração. Música chilena tem muito disso, e são emoções das quais eu trato na minha música. Eu não gosto de emoções super felizes. Eu odeio melodias bobas, muito alegres. Não gosto dessa vibe. Eu gosto de emoções profundas em minha música, e a América Latina tem muito disso, por causa das ditaduras e música de resistência. Eu acho que é muito importante tomar isso como uma identidade.

Saída do underground chileno, Valentina Montalvo Alé, de 27 anos, começa a borbulhar para fora da cena que ela mesma considera "pequena". Depois de ter participado da turma do Red Bull Music Academy de 2014, Valesuchi vai lançar um EP por um grande selo (ainda não revelado) em 2016, e faz sua segunda visita ao Brasil — depois das férias de infância que passou com os pais na Bahia, a produtora vem do Chile para tocar no Sónar São Paulo no dia 28 de novembro.

Leia: Onde Foi Parar a "Música Avançada" do Sónar Barcelona?

Na sua descrição do Soundcloud, entre a palavra "saudade" (em português, mesmo) e o artista DãM-Funk, escolhe referências tão variadas quanto pode permitir sua diversa formação musical. Influenciada tanto pela cultura tradicional da América Latina quanto pelo house de Detroit, Valesuchi conquistou seu espaço na cena do Chile e logo chamou atenção do resto do mundo, tendo tocado ano passado no Sónar Barcelona. Agora, aqui no Brasil, ela será a única mulher a se apresentar na versão paulistana do festival, dividindo palco com titãs como o Chemical Brothers.

Antes da vinda ao país, a produtora falou com o THUMP sobre sua admiração pela cultura brasileira e experiências transcendentais que teve com a música – de perder o medo ao encarar uma plateia de festival e manter contato espiritual com seu falecido irmão.

THUMP: Como você se interessou por música eletrônica em particular?
Valesuchi: Essa vai ser uma resposta totalmente despreparada (risos). Eu lembro de estar no carro dos meus pais, e ver o meu irmão mais velho implorar para eles colocarem uma fita no rádio. Não sei se era uma mixtape ou um álbum de música eletrônica, mas lembro que foi naquele momento que eu entendi que aquilo era uma vibe totalmente diferente de música. Tinha um padrão, mas não tinha a estrutura típica que eu conhecia, não tinha vocais. Eu lembro de ficar imediatamente interessada, virar pro meu irmão é perguntar: "O que é isso?". Devia ter uns 10 anos.

E como você começou a produzir sua própria música?
Esse irmão de quem eu te falei era meu único irmão, e ele faleceu em 2003. Ele gostava muito de música, tinha muitos turntables e, quando morreu, todas as coisas deles passaram pra mim. Eu sempre gostei de música, mas quando comecei a brincar com as máquinas dele, eu me tornei mais interessada na ideia de fazer música. Aquele momento foi muito difícil, mas muito interessante ao mesmo tempo. Foi muito triste, mas fazer música e permanecer conectada ao meu irmão por meio dela foi muito importante pra mim. Ele tinha um duo com um amigo que cantava em algumas faixas, e eu e ele continuamos tocando as músicas por alguns anos. Eu meio que substitui meu irmão, continuei tocando porque o projeto deles era muito bom. Ele faleceu, mas a música dele não.

"As mulheres estão cansadas de ficar um passo atrás dos homens. Quando nós entendermos que podemos fazer tudo o que quisermos – de verdade, nós PODEMOS fazer TUDO o que quisermos – as coisas vão mudar."

Então foi assim que você entrou na indústria?
Sim! Meu irmão era mais velho que eu, então alguns de seus amigos me convidaram pra tocar e comecei a me tornar parte da cena. Comecei a trabalhar como DJ e a fazer música, mas não mostrei pra ninguém por uns 10 anos.

Existe uma grande cena de música eletrônica em Santiago?
Não muito. Se você vai ao Creamfields ou algo do tipo, aquilo é grande, sabe? Oito mil pessoas, 10 mil pessoas. Mas a cena da qual participo é uma cena mais underground. É muito interessante e está crescendo, mas eu não diria que é grande. Você vê mais ou menos as mesmas pessoas em todas as festas. Talvez em Buenos Aires ou São Paulo vocês tenham uma proporção diferente, mais pessoas, mas aqui em Santiago é algo muito underground.

Você acha que artistas da América Latina deviam dar mais apoio uns aos outros?
Com certeza! É difícil não comparar nossa cena de música eletrônica à da Europa, apesar de ser uma indústria totalmente diferente. Eu acho que não nos informamos o bastante sobre o que está acontecendo em outras cidades, mas estamos muito longes um do outro. Um voo de Santiago até São Paulo dura cinco horas, já é um voo longo. Eu acho que poderíamos ter mais trocas entre nossas cenas, mas acho que está melhorando, é só uma questão de tempo.

Você acha que há traços chilenos e/ou sul-americanos na sua música?
Sim! Principalmente porque meu pai é do Equador, e ele me ensinou muito do que eu sei sobre música. Ele me ensinou muita coisa típica, como, por exemplo, os "boleros tradicionales", e um cantor muito bom do Equador chamado Julio Jaramillo. Eu acho que a América Latina como um todo apresenta um sentimento de nostalgia, em suas letras, suas melodias. Não é só festa e comemoração. Música chilena tem muito disso, e são emoções das quais eu trato na minha música. Eu não gosto de emoções super felizes. Eu odeio melodias bobas, muito alegres. Não gosto dessa vibe. Eu gosto de emoções profundas em minha música, e a América Latina tem muito disso, por causa das ditaduras e música de resistência. Eu acho que é muito importante tomar isso como uma identidade.

Como funciona o seu processo de produção? Você precisa se inspirar antes ou começa mexendo nas máquinas?
Eu sempre tenho uma "desculpa". Ou eu estou tentando trabalhar com um novo sample, ou estive trabalhando muito com ritmo e vou tentar desenvolver umas melodias, sabe? E eu sempre começo de um bpm. Dependendo do meu humor no dia, por exemplo, eu começo trabalhando com faixas mais lentas, e vejo onde isso dá.

Como foi a experiência de tocar no Sónar Barcelona?
Foi incrível. Foi de longe a experiência musical mais interessante que já tive. Num cenário como aquele, você não pode estar mais assustada, mas, ao mesmo tempo, você não pode estar mais confiante. É muito louco, porque eu estava com muito medo. Uma hora antes de tocar, eu fui para o backstage e comecei a correr, tentando me acalmar. Minha cabeça estava me matando. E no momento que eu subi no palco, eu olhei para o público e percebi que não tinha que temer nada. A música começa a tocar e você percebe que aquele momento tem a ver com a música, não com você. É uma experiência coletiva. Aquele foi o melhor dia da minha vida. Eu sabia que naquele momento eu tinha que confiar na música, e penso nisso sempre. Foi uma experiência espiritual pra mim.

Então suas expectativas estão altas para o Sónar Brasil.
A expectativa é uma inimiga, mas estou muito animada pra tocar aí. Mas não sei se eu estaria tão relaxada para o Sónar Brasil se eu não tivesse tocado em Barcelona, porque me disseram que o público será duas vezes maior no Brasil! E é num palco só, o mesmo palco do Chemical Brothers. É loucura! Mas depois daquela experiência, eu confio na música. Eu estou mais confiante quanto a técnica e gostar do que eu faço, mas não sei se "expectativa" é a palavra certa pra definir como eu me sinto sobre tocar em São Paulo. Se não fosse o Sónar, se fosse só um set, estaria feliz do mesmo jeito, porque só a ideia de tocar em outro país da América do Sul já é incrível. Ainda mais o Brasil, porque sou muito fã de música brasileira.

Mesmo? De que artistas você gosta?
Sim! Eu gosto de Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Os Mutantes... Assisti aquele documentário chamado Tropicália, é muito interessante.

Você já veio ao Brasil?
Quando eu era criança, fui pra Bahia com a minha família. Eu tive até uma infecção no ouvido porque passei muito tempo no mar (risos). Eu também lembro que muitas moças baianas beijavam minha testa o tempo todo. Elas eram tão legais!

O que você acha de ser a única mulher a tocar no Sónar?
É uma pena. Quer dizer, ao mesmo tempo eu me sinto muito bem e honrada – quer dizer, se tem apenas uma mulher, que bom que sou eu (risos) – mas é uma pena. Eu acho que as mulheres estão cansadas de ficar um passo atrás dos homens. Quando nós entendermos que podemos fazer tudo o que quisermos – de verdade, nós PODEMOS fazer TUDO o que quisermos – as coisas vão mudar, eu acho. Mas espero que o show seja legal pras mulheres. Não ligo pro que os homens vão pensar – homens sempre estão dando a opinião deles o tempo todo. Vou tocar para as garotas. Talvez algumas meninas que não acham que elas podem fazer música ou ser DJs se inspirem. Especialmente garotas de países como os nossos. Claro, se você está na Europa, é tudo mais fácil, mas a nossa cultura é muito mais machista. Mas temos que abraçar isso e fazer o que podemos.

Você já sofreu algum preconceito por ser uma artista feminina?
Como uma mulher, na vida, todos os dias. Mas não muito na indústria musical. Eu trabalhei com cinema, e era muito pior. Era ridículo de tão machista. Eu trabalhava com pós-produção e era um ambiente muito masculino, porque era muito técnico. Eu era a única mulher trabalhando lá. Eles me viam como uma secretária pra eles, e eu era a coordenadora de pós-produção, tinha muito trabalho! Então, quando eu entrei para a área musical, melhorou muito. Eu nunca me senti descriminada aqui.

Isso é ótimo, porque ouvimos muitas histórias de caras que tentam ensinar as mulheres a mexer com as máquinas delas.
Isso é um grande problema masculino. Eu lembro que, na faculdade, os caras sempre estavam competindo pra ver quem sabia mais. E como mulher, eu me sentia mais livre pra trabalhar porque eu tinha permissão pra não saber, pra perguntar. E hoje em dia, com a internet, você tem que saber de tudo. Eu odeio isso! Por que eu tenho que conhecer todos os filmes, todos os produtores, todos os DJs? Tanto faz. Você sabe o que sabe, faz música com o que sabe, e isso é ótimo.

Que artistas femininas você gostaria que tocassem no Sónar?
Bom, pensando no Sónar... Tem uma DJ dinamarquesa muito incrível que eu vi tocando em Barcelona, a Courtesy. Também adoraria ver a Juana Molina, da Argentina. Eu não sei se ela cabe muito em música eletrônica, mas ela é incrível, o show dela ao vivo é doido. Ela canta, ela toca guitarra, ela é tipo uma rainha elfa. Em Berlim, eu vi a Lena Willikens, e ela é uma DJ muito boa. Então essas três.

Na sua descrição do Soundcloud, você cita DãM-Funk como uma inspiração. Ele tem muita influência na sua música?

(Risos) Eu gosto muito dele e respeito muito o que ele faz, mas aquilo está lá porque quando fui preencher a aplicação para entrar para a Red Bull Music Academy, me perguntaram como a última faixa que eu tinha produzida soava. Era "Golosynth", primeira música do meu EP homônimo, e eu sentia que aquela faixa era algo que o DãM-Funk escutaria se ele estivesse de coração partido, dirigindo ao pôr-do-sol (risos). Então aquilo é apenas uma citação, mas eu gosto muito dele, da positividade dele. Pros seus fãs, ele é como um líder espiritual.

Tem uma gravação do terremoto mais recente do Chile, também. Por que você gravou?
Eu estava visitando uma amiga minha, ex-vizinha. Ela tem 97 anos, é uma mulher incrível. Ela foi a primeira pilota mulher de avião no Chile, a irmã do marido dela foi a última esposa do poeta surrealista Andre Breton, e ela é uma professora de sufismo, então ela é uma baita personagem! Toda vez que a visito eu gravo nossa conversa, porque ela é muito inteligente, e eu estava lá quando o terremoto começou. Aí eu editei e subi a faixa porque soava muito bem. As pessoas de países que não tem terremotos não entendem, mas som é uma dimensão muito interessante e assustadora de um terremoto. Tudo é tão alto! É louco.

Qual o próximo passo da sua carreira?
Eu estou trabalhando em um EP, pode ser que ele seja lançado por um grande selo mas não tenho certeza ainda, então não posso te contar (risos). Eu estive trabalhando muito com a Red Bull Music Academy aqui do Chile e vão sair coisas muito legais de lá, entre esse e o ano que vem. Além disso, só continuar fazendo música.

A Valesuchi está no Facebook // Soundcloud // Twitter.

Sónar SP @ Espaço das Américas, no próximo dia 28 de novembro. Ingressos: R$ 550 (inteira), R$ 275 (meia). Compre aqui.

Siga o THUMP nas redes Facebook // Soundcloud // Twitter.

Como funciona o seu processo de produção? Você precisa se inspirar antes ou começa mexendo nas máquinas?
Eu sempre tenho uma "desculpa". Ou eu estou tentando trabalhar com um novo sample, ou estive trabalhando muito com ritmo e vou tentar desenvolver umas melodias, sabe? E eu sempre começo de um bpm. Dependendo do meu humor no dia, por exemplo, eu começo trabalhando com faixas mais lentas, e vejo onde isso dá.

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Como foi a experiência de tocar no Sónar Barcelona?
Foi incrível. Foi de longe a experiência musical mais interessante que já tive. Num cenário como aquele, você não pode estar mais assustada, mas, ao mesmo tempo, você não pode estar mais confiante. É muito louco, porque eu estava com muito medo. Uma hora antes de tocar, eu fui para o backstage e comecei a correr, tentando me acalmar. Minha cabeça estava me matando. E no momento que eu subi no palco, eu olhei para o público e percebi que não tinha que temer nada. A música começa a tocar e você percebe que aquele momento tem a ver com a música, não com você. É uma experiência coletiva. Aquele foi o melhor dia da minha vida. Eu sabia que naquele momento eu tinha que confiar na música, e penso nisso sempre. Foi uma experiência espiritual pra mim.

Então suas expectativas estão altas para o Sónar Brasil.
A expectativa é uma inimiga, mas estou muito animada pra tocar aí. Mas não sei se eu estaria tão relaxada para o Sónar Brasil se eu não tivesse tocado em Barcelona, porque me disseram que o público será duas vezes maior no Brasil! E é num palco só, o mesmo palco do Chemical Brothers. É loucura! Mas depois daquela experiência, eu confio na música. Eu estou mais confiante quanto a técnica e gostar do que eu faço, mas não sei se "expectativa" é a palavra certa pra definir como eu me sinto sobre tocar em São Paulo. Se não fosse o Sónar, se fosse só um set, estaria feliz do mesmo jeito, porque só a ideia de tocar em outro país da América do Sul já é incrível. Ainda mais o Brasil, porque sou muito fã de música brasileira.

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Sim! Eu gosto de Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Os Mutantes… Assisti aquele documentário chamado Tropicália, é muito interessante.

Você já veio ao Brasil?
Quando eu era criança, fui pra Bahia com a minha família. Eu tive até uma infecção no ouvido porque passei muito tempo no mar (risos). Eu também lembro que muitas moças baianas beijavam minha testa o tempo todo. Elas eram tão legais!

O que você acha de ser a única mulher a tocar no Sónar?
É uma pena. Quer dizer, ao mesmo tempo eu me sinto muito bem e honrada – quer dizer, se tem apenas uma mulher, que bom que sou eu (risos) – mas é uma pena. Eu acho que as mulheres estão cansadas de ficar um passo atrás dos homens. Quando nós entendermos que podemos fazer tudo o que quisermos – de verdade, nós PODEMOS fazer TUDO o que quisermos – as coisas vão mudar, eu acho. Mas espero que o show seja legal pras mulheres. Não ligo pro que os homens vão pensar – homens sempre estão dando a opinião deles o tempo todo. Vou tocar para as garotas. Talvez algumas meninas que não acham que elas podem fazer música ou ser DJs se inspirem. Especialmente garotas de países como os nossos. Claro, se você está na Europa, é tudo mais fácil, mas a nossa cultura é muito mais machista. Mas temos que abraçar isso e fazer o que podemos.

Você já sofreu algum preconceito por ser uma artista feminina?
Como uma mulher, na vida, todos os dias. Mas não muito na indústria musical. Eu trabalhei com cinema, e era muito pior. Era ridículo de tão machista. Eu trabalhava com pós-produção e era um ambiente muito masculino, porque era muito técnico. Eu era a única mulher trabalhando lá. Eles me viam como uma secretária pra eles, e eu era a coordenadora de pós-produção, tinha muito trabalho! Então, quando eu entrei para a área musical, melhorou muito. Eu nunca me senti descriminada aqui.

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Isso é um grande problema masculino. Eu lembro que, na faculdade, os caras sempre estavam competindo pra ver quem sabia mais. E como mulher, eu me sentia mais livre pra trabalhar porque eu tinha permissão pra não saber, pra perguntar. E hoje em dia, com a internet, você tem que saber de tudo. Eu odeio isso! Por que eu tenho que conhecer todos os filmes, todos os produtores, todos os DJs? Tanto faz. Você sabe o que sabe, faz música com o que sabe, e isso é ótimo.

Que artistas femininas você gostaria que tocassem no Sónar?
Bom, pensando no Sónar… Tem uma DJ dinamarquesa muito incrível que eu vi tocando em Barcelona, a Courtesy. Também adoraria ver a Juana Molina, da Argentina. Eu não sei se ela cabe muito em música eletrônica, mas ela é incrível, o show dela ao vivo é doido. Ela canta, ela toca guitarra, ela é tipo uma rainha elfa. Em Berlim, eu vi a Lena Willikens, e ela é uma DJ muito boa. Então essas três.

Na sua descrição do Soundcloud, você cita DãM-Funk como uma inspiração. Ele tem muita influência na sua música?

(Risos) Eu gosto muito dele e respeito muito o que ele faz, mas aquilo está lá porque quando fui preencher a aplicação para entrar para a Red Bull Music Academy, me perguntaram como a última faixa que eu tinha produzida soava. Era "Golosynth", primeira música do meu EP homônimo, e eu sentia que aquela faixa era algo que o DãM-Funk escutaria se ele estivesse de coração partido, dirigindo ao pôr-do-sol (risos). Então aquilo é apenas uma citação, mas eu gosto muito dele, da positividade dele. Pros seus fãs, ele é como um líder espiritual.

Tem uma gravação do terremoto mais recente do Chile, também. Por que você gravou?
Eu estava visitando uma amiga minha, ex-vizinha. Ela tem 97 anos, é uma mulher incrível. Ela foi a primeira pilota mulher de avião no Chile, a irmã do marido dela foi a última esposa do poeta surrealista Andre Breton, e ela é uma professora de sufismo, então ela é uma baita personagem! Toda vez que a visito eu gravo nossa conversa, porque ela é muito inteligente, e eu estava lá quando o terremoto começou. Aí eu editei e subi a faixa porque soava muito bem. As pessoas de países que não tem terremotos não entendem, mas som é uma dimensão muito interessante e assustadora de um terremoto. Tudo é tão alto! É louco.

Qual o próximo passo da sua carreira?
Eu estou trabalhando em um EP, pode ser que ele seja lançado por um grande selo mas não tenho certeza ainda, então não posso te contar (risos). Eu estive trabalhando muito com a Red Bull Music Academy aqui do Chile e vão sair coisas muito legais de lá, entre esse e o ano que vem. Além disso, só continuar fazendo música.

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