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A vida extremamente perigosa dos ativistas das redes sociais que estão denunciando os narcos mexicanos

Arrobas anônimas denunciam na internet os crimes do narcogoverno que estabeleceu uma ordem de medo, silêncio e terror no nordeste mexicano.
01 February 2016, 3:30pm
Ilustração por Matt Rota; fotos cortesia de Valor Por Tamaulipas

Matéria original da edição colombiana da Revista VICE.

Escrevi para o Administrador — o único nome que tenho para minha fonte, já que não sei sua verdadeira identidade — para confirmar se ele havia tido tempo de ler algumas perguntas que mandei para seu servidor criptografado de e-mail. Eu não esperava muitas respostas. No passado, ele tinha respondido principalmente com "por razões de segurança..." e negado meus pedidos de entrevista. Em outras ocasiões, ele respondia de modo seco e sem rodeios. Raramente minha fonte oferecia o tipo de resposta que os jornalistas procuram para escrever uma boa história.

A história que eu estava procurando era sobre ele, o admin da página Valor Por Tamaulipas (VxT). Uma figura anônima cuja cabeça está a prêmio — 600 mil pesos mexicanos, cerca de R$ 130 mil — por ter causado mais danos a grupos criminosos como Los Zetas e o Cartel do Golfo com uma página no Facebook que o próprio exército mexicano. Apesar dos cartéis contarem com armamentos pesados, como lançadores de foguete, metralhadoras calibre 30 e até monstruosos "tanques narcos" blindados para aguentar qualquer ataque, os relatos de atividades criminosas transmitidos na página com 615 mil seguidores são um ataque direto à reputação deles, e suas tentativas de controlar o público através de medo e intimidação.

Todo tuíte e cada postagem drenam sangue dos narcos, um pouco de cada vez.

Mas dessa última vez que procurei o Administrador, a resposta dele não foi negativa ou positiva...

VxT: Aconteceu uma coisa e eu tenho muito com que lidar agora. Vou ver o que posso fazer.

Perguntei o que tinha acontecido. Um SDR*? Um sequestro? Um assassinato de alto nível em algum lugar da região? Talvez em Ciudad Victoria ou Nuevo Laredo? Todos esses cenários em potencial são assustadoramente frequentes para ativistas como ele. Mas ele respondeu:

VxT: Eles mataram Miut3.

Os detalhes cercando o caso são obscuros — duas vans brancas teriam chegado à clínica Tierra Santa na cidade de Reynosa por volta das 11 da manhã de 15 de outubro de 2014. A Doutora María Del Rosario Fuentes tinha acabado seu turno quando os dois veículos chegaram. Ela não teve tempo de protestar quando homens armados saltaram dos veículos e a arrastaram, junto com outro médico e uma enfermeira, para as vans. Outra versão dos eventos relatada pela mídia, e aquela que o Admin parece acreditar, é que Fuentes estava indo para seu trabalho no departamento médico de uma maquiladora (fábrica têxtil) quando foi sequestrada. Mas o resultado foi o mesmo: os agressores (provavelmente membros do Cartel do Golfo) pegaram os celulares das vítimas e viram que o perfil no Twitter da Dra. Fuentes era Felina (@Miut3). Felina era perigosa para os cartéis: uma ativista incansável, a usuária do Twitter denunciava sequestros, tiroteios, mortes e várias atividades ocorrendo na região de Reynosa. Ela já tinha trabalhado com o Valor por Tamaulipas, mas passou a atuar de maneira independente. Pouquíssimas pessoas conheciam a identidade dela, talvez nem os criminosos... até aquele momento.

Na mesma noite, o médico sequestrado com Fuentes foi libertado. Ele diria depois às autoridades que ela provavelmente "não voltaria".

Às 5h06 do dia seguinte, o primeiro tuíte chegou:

@Miut3: AMIGOS E FAMILIARES, MEU NOME VERDADEIRO É MARÍA DEL ROSARIO FUENTES RUBIO. SOU MÉDICA, HOJE MINHA VIDA ACABOU.

Isso foi publicado da conta de Fuentes, hackeada por seus sequestradores. Dois minutos depois...

@Miut3: DEVO DIZER A VOCÊ PARA NÃO COMETEREM O MESMO ERRO QUE EU, VOCÊS NÃO VÃO CONSEGUIR NADA, NA VERDADE O OPOSTO, HOJE PERCEBI QUE

@Miut3: ENCONTREI A MORTE EM TROCA DE NADA @Bandolera7 @civilarmado_mx @ValorTamaulipas ELES ESTÃO MAIS PERTO DO QUE VOCÊS PENSAM.

O tuíte final dizia: #REINOSAFOLLOW FECHEM SUAS CONTAS NÃO COLOQUEM SUAS FAMÍLIAS EM PERIGO COMO EU FIZ, IMPLORO SEU PERDÃO.

Duas fotos estavam linkadas à postagem: numa a Dra. Fuentes aparecia resignada contra um fundo escuro, quase impossível de ser reconhecida; na outra, o corpo dela estava no chão — seu rosto ensanguentado, suas mãos na cabeça e seus olhos abertos e sem vida.

Mas isso não era prova suficiente para as autoridades. Ela não estava oficialmente morta, apenas "desaparecida". As autoridades ainda não encontraram o corpo dela para verificar o homicídio.

17 de outubro de 2014.

VxT: Ela era uma camarada, uma pessoa que colaborou dois anos comigo no Responsabilidad por Tamaulipas. Ela tinha minha afeição e meu respeito.

RR: E vocês continuavam em contato?

VxT: Por que você acha que a perda dela dói tanto? Ela não me conhecia, pelo menos nunca compartilhei minha identidade com ela. Mas eu sabia quem ela era, a escolhi para me ajudar com o VxT, depois a afastei para protegê-la. Mas isso se mostrou uma decisão ruim, isso a deixou mais perto de pessoas que não eram confiáveis.

RR: Sinto muito. Os riscos dessa vida são grandes, mas ninguém merece morrer por fazer a coisa certa.

VxT: Ela era uma criança, uma filha. Ela era uma pessoa muito especial para sua família. Sei que eles vão sentir a falta dela. Eu vou sentir a falta dela, terrivelmente.

RR: Você vai poder ir à cerimônia, ao velório? Considerando sua segurança.

VxT: Não. Em qualquer caso, ainda não acharam o corpo dela. Os criminosos estão com ele.

RR: Desculpe perguntar, mas você acha que há alguma chance de encontrá-la?

VxT: Na área é comum cozinhar [derreter com ácido] as vítimas. Não sei o que vai acontecer.

Mesmo para um colombiano de meia-idade, alguém que viveu os dias do genocídio político da União Patriótica e da violência causada por Pablo Escobar, é difícil entender como é viver no estado de Tamaulipas, no México. O nordeste do país, na vizinhança dos EUA, é um lugar que lembra um filme de faroeste: a poeirenta Sierra Madre, os planos áridos cheios de cactos e as terras por onde corre o Rio Bravo até o Golfo. Também é uma terra de foras da lei.

A história recente do tráfico de drogas mexicano e suas guerras é tão longa e complexa que mais parece um épico. Isso contém, necessariamente, uma boa dose de especulação, já que os historiadores não documentam o que acontece dentro das organizações criminosas. Mas é algo mais ou menos assim: desde os anos 90, o Cartel do Golfo opera em Tamaulipas com foco no tráfico de cocaína sendo apoiado por Los Zetas, um grupo de mercenários com treinamento militar que servia como seu braço armado. Quando o líder do cartel, Osiel Cárdenas, foi preso em 2003, a hierarquia da organização se partiu, apresentando uma oportunidade para o Cartel de Sinaloa — o maior do México, liderado por Joaquín "El Chapo" Guzmán — de avançar da Costas Oeste em direção ao Golfo.

A guerra entre os cartéis do Golfo e Sinaloa causou o aumento da força e da influência dos Los Zetas. Osiel Cárdenas foi extraditado para os EUA em 2007, o que o impediu de continuar comandando a organização da prisão, e os Los Zetas começaram a realizar as tarefas geralmente reservadas ao cartel. O rompimento violento entre Los Zetas e o Cartel do Golfo atingiu o clímax em 2010. "Esse foi o período dos ataques com granadas, dos enfrentamentos entre os homens armados de cada grupo", me disse outro ativista da região, @MrCruzStar, por Skype, como se estivesse consultando um livro de história. Desde então, o estado se dividiu em várias facções e a violência se tornou uma característica permanente.

Os locais mexicanos falam de postos de controle nas estradas e até nos limites das cidades, com homens armados conferindo as identidades dos motoristas — e seus celulares — negando a entrada de qualquer pessoa do território oponente. Famílias foram separadas, algumas pessoas tiveram que fugir de suas casas porque algum parente, mesmo distante, era de áreas controladas por um cartel rival.

"Os que não saíram enfrentaram as consequências: parentes desaparecidos, sequestros, tortura e execuções", lembra o Administrador. A mídia também lembra os tiroteios, os desaparecimentos e os ataques com metralhadoras e granadas.

Um caso que atingiu o coração dos ativistas foi o assassinato de La Nena de Laredo, María Elizabeth Macías, autora do blog Nuevo Laredo em Vivo, cujo corpo sem cabeça foi encontrado numa manhã de 2011 na cidade de onde ela tirava seu pseudônimo. Ao lado dela estava um cartaz que dizia: "Sou La Nena de Laredo e estou aqui por causa dos meus relatos...". Um ano depois, na mesma cidade, dois ativistas foram pendurados numa ponte depois de serem torturados e executados. Um cartaz preso em um dos corpos dizia: "Isso vai acontecer com todos os agitadores da internet. Cuidado... Estamos atrás de vocês, sinceramente Z". O "Z" é uma abreviação para Los Zetas.

Apesar dessas mortes, no dia 1º de janeiro de 2012, alguém criou uma página no Facebook chamada "Valor por Tamaulipas". Naquele momento, surgia o Administrador. Ele era mais um ativista entre aqueles que denunciavam as gangues. Na página, o Administrador registrava desaparecimentos, anotava as SDRs (abreviação de situaciones de riesgo, em português situações de risco) que ocorriam diariamente na cidade, e listava vários negócios que lidavam com os criminosos. O Administrador é parte de um grupo de usuários do Twitter, como @Agente_Rey, @Bandolera7 e @MrCruzStar, que vem denunciando os crimes em Reynosa desde 2010.

O Administrador não quer ser um herói, muito menos um mártir. Por isso, como todos os outros ativistas, ele mantém sua identidade em segredo. Tudo que ele quer é deixar o desespero, o medo e o silêncio para trás. Ele quer ajudar as pessoas, e sente que precisa espalhar a realidade da vida em Tamaulipas, um estado que prova até onde pode ir a selvageria dos cartéis. Segundo o Administrador, vários tiroteios, desaparecimentos (4.875 entre 2011 e 2014), mortes de pessoas inocentes e postos de controle montados pelas gangues são situações registradas desde 2010. Os militares, ele aponta, também tomaram partes das cidades em certos momentos, mas isso parece ter tido pouco efeito sobre a situação em Tamaulipas, um lugar onde a passagem de certos tipos de vans causa medo nos pedestres. Nas palavras do Administrador, isso é "o perfeito narcogoverno que vocês (colombianos) conseguiram evitar por 20 anos".

O Administrador não foi o primeiro a criar uma página assim, ou a atacar publicamente os narcos, mas se tornou o mais popular entre seus pares. A página decolou. Ela já contava com mais de 200 mil seguidores depois do primeiro ano, com postagens diárias listando os últimos desaparecimentos, onde tiroteios aconteciam, ou quais áreas evitar por causa do aumento das atividades criminosas. Segundo alguns ativistas com quem falei, seus relatos se tornaram mais importante que as notícias de TV para os locais. Ler as últimas postagens da página antes de sair de casa pode salvar sua vida.

Quando ele começou, os cartéis pareciam quase contentes com a ideia da página. Eles queriam alguém para informá-los sobre os movimentos dos rivais, segundo o Administrador. Ele diz que recebeu várias mensagens de pessoas associadas aos cartéis pedindo que ele cooperasse. Ele se recusou a ajudá-las, bloqueando todo mundo ligado ao tráfico e não respondendo nenhuma mensagem.

"E foi aí que os problemas começaram", diz o Administrador.

No começo as ameaças eram moderadas, mas se intensificaram rapidamente. Num espaço curto de tempo, contas fantasmas começaram a escrever para ele dizendo que queriam "seus olhos como chaveiros". A maior ameaça ocorreu no meio de 2013: um panfleto distribuído pelo submundo do crime da Ciudad Victoria oferecia 600 mil pesos por qualquer detalhe da identidade do Administrador do Valor por Tamaulipas, ou informações sobre seus pais, irmãos, filhos ou parceiros. "Isso é apenas liberdade de expressão", dizia o panfleto, "mas em troca você receberá um bom dinheiro para calar a boca desses palhaços que se acham heróis". Um número de telefone, e a segurança de que a identidade do delator seria mantida em segredo estavam incluídas, assim como a garantia de que o dinheiro seria entregue para qualquer um que passasse as informações.

Segundo uma nota que ele publicou na época, o Administrador mandou sua esposa e filhos para os EUA por segurança. Aí continuou com suas postagens.

Vidas inocentes foram perdidas durante a campanha contra ele. Em maio de 2013, um casal foi sequestrado porque os criminosos, provavelmente Los Zetas, alegavam que os dois eram parentes do Administrador. Não eram, ele disse em outra mensagem. Depois culpou os sequestradores pela morte de um parente do casal sequestrado.

No mesmo ano, o Administrador se retirou temporariamente pela primeira vez, fechando suas contas do Facebook e Twitter. Ele tinha recebido outra ameaça. "Eles me mandaram um vídeo de uma mulher sendo espancada, e você podia ouvir a voz de um homem dizendo que isso aconteceria com qualquer um que continuasse a me ajudar. Eles cortavam a cabeça dela naquele vídeo. Que sentido fazia manter uma página para ajudar outros a evitar os riscos quando você se torna o próprio risco?". Foi então que aconteceu o sequestro de Fuentes...

Ele confessou que, no passado, esse tipo de ataque lhe causava ataques de pânico. Eles não conseguia andar calmamente pela rua, estava sempre olhando por cima dos ombros, temendo quem pudesse estar atrás dele. Ele teve que tomar remédios para acalmar os nervos e sua própria mortalidade estava sempre pesando em sua mente. Às vezes ele achava impossível continuar com essa vida dupla. Agora ele diz que está "calejado". Com um fardo tão pesado, ele fala frequentemente com Deus, mas há poucas pessoas com quem ele pode se abrir sobre sua verdadeira vida cotidiana.

RR: Seus parentes sabem que você é o admin da página? O que eles acham?

VxT: O único parente que sabe, logo de cara me disse que eu era o responsável por tudo que acontecesse com a minha família. Foi tudo o que ele disse, mas, pelo menos, continua falando comigo. Não tem sido fácil, mas não estou aqui para reclamar ou desaprovar nada. Estou vivo, por enquanto, e todo dia que estou aqui é um dia no qual superamos o mal.

O Administrador não fala muito sobre si mesmo. Menos ainda desde o desaparecimento de Felina. "Não é aconselhável se expandir [sobre] isso", ele me disse quando perguntei sobre seus gostos, se ele assistia TV, o que gostava de comer, sobre seu dia a dia. "Sei que isso te interessa, mas esses fatos entregam muita informação sobre mim. Eu costumava assistir TV, eu costumava fazer muitas coisas. Não tenho mais tempo. Trabalho muito, e isso dificulta gerenciar a página como eu deveria".

Não há como dizer o que o Administrador come no café da manhã, o que ele faz para viver, que rota ele pega para voltar do trabalho toda noite. Nada. Fora sua insatisfação com o governo e os políticos atuais, uma das poucas coisas sobre as quais ele fala abertamente é sua rotina de leitura: aproximadamente 100 mensagens nas redes sociais e no seu e-mail todos os dias. Outros ativistas, como @Agente_Rey e @MrCruzStar, disseram não receber mais de uma dúzia de dicas por semana, o que mostra o tamanho da popularidade do VxT.

O Administrador examina cuidadosamente toda a informação que recebe. Ele verifica se aqueles que informaram desaparecimentos são familiares próximos do desaparecido, e se os detalhes das histórias são consistentes. Às vezes, ele pede mais informação para se certificar que tudo se "encaixa", porque, segundo o Administrador, os criminosos tentam às vezes passar informações falsas. Ele também diz que, em algumas ocasiões, o governo e seus agentes, esperando que ele cometa um deslize e revele sua identidade, também enviam dicas falsas.

Quanto à sua personalidade, tudo que pode ser dito é que suas respostas traem uma certa paranoia, abastecida pelas ameaças e ataques que chegaram perto de revelar sua identidade. Uma dessas tentativas foi em março: um e-mail, "que parecia uma notificação real do Facebook", roubou sua senha e ganhou temporariamente o controle de duas outras páginas dele (Esperança para Tamaulipas e Valor por Huasteca). Ele me garantiu que o ataque não conseguiu ter acesso a informações pessoais ou aos seus informantes.

A paranoia é inerente, e faz parte de sua natureza. Ele acredita que Fuentes foi identificada e ameaçada antes de seu sequestro: ele baseia isso no fato de que, alguns dias antes do desaparecimento, Fuentes recebeu ameaças do usuário @Garzalaura142, que mandou mensagens em tom similar aos últimos tuítes publicados em sua conta.

Ele também tem a certeza fanática de que o governo é tão ruim quanto os cartéis, se não em termos de atividade criminal, pelo menos em ignorar as realidades de Tamaulipas. Mesmo tendo poucas pistas para apoiar essa teoria, ele diz que o governo começou uma estratégia de controle das redes sociais, onde o Ministério do Exército e Marinha (Semar) e o Ministério da Defesa Nacional (Sedena) monitoram ativamente a internet. Ele faz isso parecer uma grande conspiração. Uma visão compartilhada por outros enfrentando os cartéis online.

Hoje, o Administrador duvida até mesmo de alguns de seus colegas ativistas, e suspeita que muitos têm laços com o governo. "Eles agem a favor do governo", afirma. "Eu publico os detalhes de uma pessoa desaparecida, e esses ativistas ligam para a família e oferecem apoio do Instituto de Apoio às Vítimas, mas em troca preciso retirar a postagem original". Ele acrescenta: "Fico louco pensando que Muit3 morreu no meio dessa estratégia de controle das redes sociais do governo".

Rafale Luque, da Secretaría do Gobierno, disse o seguinte sobre o envolvimento do governo com ativistas da internet:

"O governo não tem uma posição sobre os ativistas das redes sociais. Não os condenamos nem os aplaudimos. Não sabemos se eles foram ameaçados, como eles afirmam, porque eles não deram queixa às autoridades apropriadas.

"Quanto a se eles ajudam ou não, acho que essa é uma questão inconclusiva. Para muitos, eles são úteis. Para outros, eles não ajudam em nada, porque podem distorcer a verdade, exagerar os fatos e dar alertas que muitas vezes são injustificados... Na verdade, quando eles dizem algo assim, no dia seguinte os repórteres do Grupo de Coordinación de Tamaulipas tendem a expô-los como equivocados.

"Em outras palavras, parece que as redes sociais já foram infiltradas por grupos criminosos, e é por isso que esses ativistas perderam tanta credibilidade... Não temos nenhum contato com eles, nem eles tentaram entrar em contato conosco. Parece que eles têm uma mentalidade focada em atacar os três níveis do governo federal, além das forças federais e estaduais do Grupo de Coordinación de Tamaulipas, que combate o crime e a insegurança."

Os que visitam a página Valor por Tamaulipas no Facebook podem sentir que as postagens são impessoais. Crimes que geralmente provocariam ultraje são descritos com profissionalismo imparcial. O Administrador tem consciência disso: "Tenho medo de me tornar desumanizado, de começar a ver esses crimes como a norma. E isso é o que mais me preocupa, mais que qualquer stress que a página possa provocar".

Outras vezes, ele teme que possa estar causando mais danos que bem com suas postagens.

@MrCruzStar: Posto de gasolina La Cucaracha atacado em #SanFernando. Professora morta, seu filho foi ferido junto com outros clientes. #Reynosafollow sem relação com o crime organizado.

@MrCruzStar: 2 mortes, atiradores prenderam professora e um trabalhador, atearam fogo neles. Seu filho e um cliente se queimaram. #SanFernando #ReynosaFollow #Tamaulipas

Esses dois tuítes foram postados em junho de 2013, dois dias depois de o Valor por Tamaulipas ter afirmado que o posto La Cucaracha era de propriedade de um homem que lavava dinheiro para Los Zetas. No sábado seguinte, o posto foi atacado. Gradualmente, outros ativistas revelaram que o posto em questão não pertencia mais àquela pessoa, mas a uma mulher sem nenhuma relação com o tráfico de drogas ou Los Zetas. Foi essa mulher que morreu no ataque.

@LaTecolotita: O que @ValorTamaulipas vai fazer agora? Como você vai se justificar? Uma morte provocada pela sua estupidez.

Nos dias seguintes no Twitter, outras pessoas protestaram contra a irresponsabilidade do Administrador por publicar informação falsa. Ele tentou se defender, mas com a perda de vidas inocentes pesando sobre ele, seus comentários o fizeram parecer insensível e incapaz de confrontar o que aconteceu.

O Administrador não recuou. Ele publicou uma longa mensagem na qual afirmava que não seria intimidado, que continuaria fazendo a coisa certa apesar das consequências, e que suas informações sempre eram verificadas da melhor maneira possível. As reações negativas, ele disse, provavam quão fundo seus relatos — e de outros cidadãos — podiam ferir os criminosos. "Então a questão é: devemos manter o silêncio ou continuar?", escreveu.

Ele já considerou silenciar em várias ocasiões. No final de 2014, o Administrador anunciou que passaria sua página para outra pessoa. Outro admin anônimo tomaria seu lugar, talvez alguém com contatos dentro do governo e do Sedena, alguém que poderia passar as informações para as autoridades e encorajá-las a agir. Os seguidores da página ficaram divididos, mas isso não importou: a transição nunca aconteceu.

O Administrador continua na linha de fogo, apesar de saber poucos casos em que suas ações salvaram diretamente a vida de alguém; apesar do risco crescente de se juntar às fileiras de blogueiros e ativistas executados em Tamaulipas; e apesar de não acreditar que há uma solução imediata para o conflito em seu país.

VxT: O que me fez voltar? Percebi que a página não era minha, ela pertencia aos informantes. Eu não podia tirar algo que não pertencia a mim deles. O governo já está copiando o modelo do VxT para informar e receber pistas. Eles publicam e recebem informação mais rápido que eu. Então não vou precisar me retirar, vou lentamente me tornar obsoleto. E prefiro que isso aconteça naturalmente. Por isso não vou parar a página.

RR: Então você acha que está fazendo diferença?

Não consigo deixar de imaginar um suspiro profundo, olhos escuros, o rosto de um homem desconhecido sorrindo tristemente ao ler a pergunta...

VxT: Não tenho certeza disso.

Traduzido do inglês por Marina Schnoor

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