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Histórias de gente que encheu a cara e acordou em outro país

Acredite, é mais comum do que parece.
9.9.16
Foto por Jamie Lee Curties Taete.

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE UK.

Muita gente já acordou em lugares estranhos depois de uma noitada. Vinte anos atrás, esses lugares estranhos podiam ser "Scarborough" ou "dentro de uma caçamba de lixo". Agora, que passagens aéreas se tornaram mais acessíveis e a facilidade com que você consegue marcar um voo pelo celular, esses lugares podem ser "Reykjavik" ou "um país que só fui descobrir o nome depois de usar o filtro de localização do Snapchat".

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Mês sim, mês não temos notícia de algum cara que saiu para tomar uma cerveja e acabou embarcando muito louco num voo para outro país. Ele acorda no outro dia e posta a "aventura" no Twitter ou Facebook. Um site isca de clique qualquer dá seu selo de aprovação ("Jovem bebe demais e acaba em SALZBURGO") e a história desaparece, dando lugar a outro causo parecido no mês seguinte.

Seria essa uma nova tendência? Deveríamos batizar isso como um nome próprio como "ressaca aérea" ou "Castigo Divino"? Difícil dizer. Mas para ilustrar como incidentes assim são comuns, entrei em contato com quatro de vários caras que já passaram pela situação (em graus variados: alguns acordaram em outro país, outros em microestados numa ilha) para saber como eles chegaram a nesse ponto.

"NÃO PODE SER TÃO RUIM ASSIM"

Uma noite dessas, meu amigo e eu decidimos rodar os bares de Chelmsford [Essex, Inglaterra]. Depois de muitos drinques, perdi meu amigo de vista e estava vendo os ônibus de shuttle passarem. Os ônibus levavam diretamente para o Aeroporto Stansted por menos de £10 [cerca de R$ 40]. Naquele momento, achei uma boa ideia comprar uma passagem de último minuto pelo celular, esperando acabar num lugar menos frio, cinza e chuvoso que Chelmsford. Eu podia ter escolhido vários lugares, mas meu destino foi Barcelona.

Depois de embarcar no voo, cair no sono e acordar, percebi a seriedade da decisão que tinha tomado. Eu só tinha uma garrafa de água vazia, a roupa do corpo, minha carteira e meu celular comigo.

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Saí do avião cheirando a Jägerbomb e pós-barba da noite anterior, e liguei para os meus pais. Meu pai achou melhor eu passar alguns dias lá, então marquei o voo de volta para três noites depois e passei os dias seguintes explorando Barcelona, conversando com pessoas e curtindo o clima e a comida. Chegando no hotel, eu lavava minhas roupas no chuveiro.

No geral, a viagem me ensinou a aproveitar minha própria companhia e não me preocupar com que os outros iriam pensar. Afinal de contas, se a experiência não matar você ou fazer com que você seja preso, não pode ser tão ruim assim, né? E esse é meu lema agora.

– Alex, Inglaterra

FUGITIVO DESCALÇO

Comecei essa história numa pequena cidade portuária francesa chamada Beaulieu-sur-Mer. Eu e dois colegas de trabalho saímos do trampo na noite de sexta e fomos direto para a praia, passando pelo Carrefour para comprar algumas brejas. Consigo lembrar do que aconteceu na praia, até pegarmos as toalhas e colocar nosso lixo na lixeira. Estávamos falando de passar uma noite em Mônaco, num clube que tínhamos ouvido falar, o La Rascasse, mas achei que isso nunca ia acontecer porque estávamos muito bêbados para chegar lá.

Depois disso, perdi a noção do que aconteceu.

Cerca de seis horas de apagão depois, acordei num hospital no topo de um penhasco com vista para o Porto de Mônaco. Os enfermeiros disseram que a polícia tinha me deixado lá, e eu insisti que tinha que ir embora porque precisava entrar no trabalho às 8h. Lembro de tentar ir embora enquanto os enfermeiros ameaçavam chamar a polícia, dizendo que eu não estava sóbrio o suficiente para voltar para a França.

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Eu estava bem, fora os joelhos ralados e um calombo enorme na testa. Minhas roupas estavam num saco plástico no chão — só deus sabe onde meus sapatos foram parar — então assim que os enfermeiros saíram, me vesti, pulei a janela e corri confuso e descalço ladeira abaixo, tentando achar uma estação de trem. Quando cheguei até a rua principal, uma garota que eu conhecia do trabalho me chamou do outro lado da rua. Eram umas 6 da manhã; ela tinha passado a noite fora e disse que me viu no La Rascasse. Ela perguntou se eu estava bem e apontou a direção da estação, mas também tirou uma foto minha e achou hilário que o soro ainda estava pendurado no meu braço. Mesmo assim, consegui chegar no trabalho a tempo.

– Sam, Austrália

UMA PÉSSIMA IDEIA

Tom e seu amigo Daniel, com a natureza da Tasmânia ao fundo (foto da Tasmânia por Jörn Brauns, via).

Eu tinha uns 17 anos e estava com meu melhor amigo, o Daniel. A gente já estava muito louco naquele ponto, e a maioria dos outros amigos tinham tomado a decisão responsável de voltar para casa. A gente costumava pegar o ônibus NightRider para voltar para casa naquele tempo, e em algum momento alguém deu a ideia de pegar o próximo voo para Melbourne. Então, em vez de ir para casa, pegamos o ônibus para o aeroporto. Aí só lembro de acordar quando estávamos desembarcando no frio congelante da ilha da Tasmânia.

Com o que sobrou do nosso dinheiro, compramos bonés numa loja de lembranças, entramos num campo de golfe e alugamos um carrinho, ficando com menos de $10 [R$ 32] para comida. Não jogamos nenhum buraco; só ficamos passeando e discutindo que tipo de idiota éramos.

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Voltamos para casa exaustos e desidratados. Acho que nunca me arrependi tanto na vida.

– Tom, Austrália

ESQUECERAM DE MIM NA DESPEDIDA DE SOLTEIRO

Jordan na despedida de solteiro, antes de dar merda e ele acabar em Zurique.

Eu estava no final de semana de despedida de solteiro do meu cunhado em Munique, na Alemanha. Compramos um pacote de €20 [cerca de R$ 70] por uma noite num clube e o hotel me deu uma pulseirinha com o endereço e informações, então achei que não precisava me preocupar com o celular e a carteira naquela noite, então deixei tudo no hotel. Depois de muitos drinques acabei me perdendo do grupo, então entrei num táxi e mostrei meu punho, que não tinha mais a pulseirinha. Tentei me explicar para o motorista, mas ele me mandou sair.

Depois de mais 20 minutos tentando vários táxis, abordei o motorista de um carro próximo que estava sendo carregado com malas. Implorei que ele me deixasse entrar, esperando passar pelo hotel que eu não conseguia lembrar o nome nem o endereço — mas ele disse não. Então dei a volta no carro e quando o motorista não estava olhando, pulei no porta-malas e me escondi atrás de uma bagagem até a porta fechar.

Quando a porta finalmente abriu, cinco horas depois, desci do porta-malas e comecei a correr tentando me localizar. Notei uma placa de "Zurique", que eu achava que era uma cidade da Alemanha, até notar as bandeiras da Suíça. Depois de andar por mais ou menos uma hora, achei melhor ir até a polícia. Contei a história para um policial, ele virou para seus colegas suíços, repetiu a história em francês, e a delegacia inteira começou a rir da minha cara. Chegando em Munique, eu estava sem celular, sem dinheiro e sem ideia de onde estava, então andei por horas até achar a estação de trem por onde a gente tinha chegado, o clube onde a gente tinha começado a noite, e finalmente a porra do hotel.

– Jordan, Inglaterra

@hamsoward

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