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O turista sexual mais famoso do Mundo luta para sair da prisão

Preso preventivamente na Costa Rica em 2015, depois de supostamente infringir a lei de turismo sexual do país, o norte-americano David "Cuba Dave" Strecker garante que está a ser injustamente perseguido.

Por Michael Krumholtz
23 Setembro 2016, 11:00am

Foto cortesia de David Strecker

David "Cuba Dave" Strecker com duas trabalhadoras sexuais. Todas as fotos cortesia de David Strecker.

Este artigo foi originalmente publicado na VICE USA.

Quando a polícia algemou David Strecker, a 4 de Setembro de 2015, num aeroporto da Costa Rica, o norte-americano de 66 anos lembra-se de ter pensado que só teria que responder a algumas perguntas antes de poder embarcar no voo de volta para casa.

Mas Strecker nunca chegou a apanhar aquele avião. Ele está preso desde então, acusado de violar a lei costa-riquenha ao promover a prostituição. Agora, Strecker, um habitante da Flórida que escrevia um blog bastante popular sobre as suas (des)aventuras sexuais noutros países, principalmente em sítios como a República Dominicana, Cuba e Costa Rica, vai ser a primeira pessoa a ser julgada no país, por questões ligadas a esta lei, apesar de, ali, a prostituição estar legalizada.

O estatuto que Strecker terá infringido faz parte de uma lei de 2013 contra o tráfico humano que, entre outras coisas, proíbe o uso de qualquer meio de comunicação para promover o país como um "destino turístico acessível para exploração do comércio sexual, ou para prostituição de pessoas de qualquer idade ou sexo".

Fernando Ferraro, o ex-ministro da Justiça da Costa Rica que propôs a lei, diz à VICE que esta foi pensada para evitar negócios obscuros, como escravidão sexual e trabalho infantil. Um relatório de 2016 do Departamento de Estado dos EUA descobriu que o turismo sexual infantil é um "problema sério" no país e que a Costa Rica continua a ser um destino comum para vítimas de tráfico sexual.

"O país precisa de proteger a sua imagem como destino turístico", salienta Ferraro. E acrescenta: "Mas não é apenas uma questão de imagem. Muitas vezes organizações criminosas, ou traficantes de seres humanos, estão ligados à indústria da prostituição".

E Strecker é um fã assumido dessa indústria. No entanto, garante que apenas escrevia um blog de dicas para turistas sexuais como ele e que não incentivava as pessoas a tornarem-se turistas sexuais. Conhecido como (provavelmente) o cliente de bordel mais famoso da Internet, Strecker tem cabelo branco e uma pele bronzeada que está a começar a ficar flácida debaixo dos braços. É um ex-jogador de softbol e adepto fanático dos Yankees, que gosta de citar George Streinbrenner e tem uma tatuagem com o símbolo da sua equipa de basebol no ombro direito. Na prisão La Reforma, na Costa Rica, onde está detido, é o único norte-americano e anda sempre de camisola de alças e sandálias - mais "gringo" é impossível.

Strecker construiu a sua reputação em fóruns de turismo sexual na Internet, onde detalhava as suas experiências por bordéis e bares em Cuba e na República Dominicana. Mais tarde ficaria conhecido como "Cuba Dave" e seria o co-autor do livro Cuba Dave's Guide to Sosua, Dominican Republic , que acabou por ser retirado da Amazon.

Quando se tornou aparente que havia um interesse pela marca "Cuba Dave", Strecker começou a documentar as suas viagens pela Costa Rica alimentadas a sexo com posts sugestivos, vídeos e fotos com raparigas (ele diz que as mulheres estavam sempre vestidas e tinham aceite serem fotografadas). Rapidamente reuniu uma base de seguidores, partilhando as suas histórias sobre a cena da prostituição local - legal, note-se - e conselhos sobre "como não se apaixonar", em mais de 40 viagens que fez só pela Costa Rica.

"Com os anos, comecei a perceber que isto não era real", diz à VICE numa recente entrevista por telefone. "Essa fantasia. Esse entretenimento. Um homem de 60 anos a dormir com mulheres de 20 e a acreditar que elas realmente gostam dele, é uma loucura. Portanto, a maioria das histórias e vídeos são sobre isso". Na Costa Rica, Dave concentrou os seus esforços numa área de bares e hotéis, frequentada por prostitutas, no centro de San José, conhecida como "Gringo Gulch".

Numa entrada de 2010 no seu blog - que foi tirado do ar aquando da sua detenção - ele diz: "Miriam gosta de se divertir e ela é minha namorada todos os dias, durante uma hora, quando estou em San José. Ela entende o que eu gosto e eu entendo o que ela faz. O meu conselho é lembrares-te do que estás a fazer aqui na Costa Rica e não questionares muito as tuas namoradas costa-riquenhas".

Strecker mantém a tese de que o seu site funcionava apenas como um blog de viagens, criado para dar dicas a turistas solteiros, homens, mas a justiça diz que ele estava a promover o país junto dos seus colegas americanos, para que eles tirassem partido da indústria do sexo local.

"O caso criminal começou depois de várias publicações que encontrámos na Internet feitas pelo suspeito, onde ele aparentemente convidava outros norte-americanos a visitarem a Costa Rica, indicando que os serviços de prostituição no país eram fáceis de encontrar", revela à VICE um porta-voz da promotoria, por e-mail.

A Costa Rica - onde a prostituição é legal, embora o proxenetismo, ou a solicitação de clientes para uma prostituta, não - é considerada há bastante tempo um dos destinos mais populares da América Latina para turistas sexuais. No livro Love and Lust: American Men in Costa Rica,o autor e investigador Jacobo Schifter, estima que mais de 10 por cento do turismo costa-riquenho é voltado para o sexo pago, o que resulta em mais de 80 mil turistas sexuais por ano.

Conscientes da reputação do país, as autoridades estão a trabalhar para limpar a imagem da Costa Rica e ajudar a economia dependente do turismo a parecer-se mais com a Disneylândia e menos com a Tailândia.

Nos últimos anos, a polícia costa-riquenha tem trabalhado duramente para desmantelar organizações criminosas de tráfico humano e proxenetismo que tiram partido de migrantes sexuais e crianças. Um relatório anual do Departamento de Estado Norte-Americano salienta que, em anos anteriores, oficiais conduziram 25 rusgas a locais suspeitos de realizarem tráfico sexual. O Departamento de Estado aponta que o governo costa-riquenho está a fazer esforços consideráveis para melhorar o seu registo historicamente mau, no que respeita a combater o tráfico humano.

Não é claro se Strecker estava envolvido em alguma actividade deste tipo, mas os promotores públicos pedem que ele cumpra 12 anos de prisão por três acusações de violação do estatuto contra a promoção da prostituição - uma acusação para o site CubaDave.com, uma para a página de Strecker no Facebook e uma por um vídeo no YouTube.

A acusação supostamente baseia-se em fotos específicas publicadas nas páginas, além de certas passagens do blog. Uma delas, que, segundo Strecker, os promotores repetiram zelosamente nas audiências preliminares, inclui a frase: "O teu prazer é ditado apenas pelo tamanho da tua conta bancária".

O advogado de Strecker, Luis Diego Chacón, diz que está confiante que o caso será desmontado no julgamento marcado para Novembro deste ano, já que a lei de turismo sexual foi pensada para combater grupos organizados de tráfico humano, não bloggers. "Essa lei não visa pessoas que escrevem blogs de viagem", sublinha Chacón à VICE. E adianta: "Se virmos o site, não encontramos nenhuma linguagem considerada inapropriada no seu país natal".

Se o julgamento se arrastar, Chacón pode tentar convencer os juízes (os julgamentos na Costa Rica são decididos por três juízes) que, como o domínio estava registado nos EUA, a lei americana é a que deve ser aplicada.

Como a lei costa-riquenha, no entanto, é baseada em promoção, a defesa da Strecker também vai tentar argumentar que ele estava apenas a informar os leitores sobre a cena de prostituição do país e não a fazer propaganda dela. Strecker afirma que, antes de começar o blog, recebia centenas de e-mails de viajantes que lhe pediam conselhos sobre os melhores hotéis prostituta-friendly e os bairros mais seguros para estrangeiros. Portanto, em vez de responder a cada um, achou uma boa ideia colocar os seus conselhos numa página na Internet. "Todas as coisas de que eles me acusaram são legais. Eles deveriam dar-me os parabéns por avisar as pessoas sobre coisas destas", diz

Ainda assim, Strecker está agora prestes a ser julgado, num caso que pode acabar com uma sentença de mais de uma década de prisão. É uma queda dramática para uma espécie de mini celebridade da Internet, que diz que a sua prisão preventiva de mais de um ano o obrigou a pensar sobre o porquê de ter acabado por ser um alvo em primeiro lugar.

Tudo o que descobriu até agora, segundo Strecker, é que só pode ser um peão no centro de uma "trama" do governo para mandar uma mensagem aos turistas sexuais: "Este é um país onde se dizes uma coisa errada, acabas por pagar por isso. Acredito que eles querem fazer de mim um exemplo".

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