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Notas de um Líbio 3 - Os Prisioneiros

Um dos meus amigos, que esteve em Benghazi por algumas semanas, me contou que não era um mar de rosas. Os rebeldes continuavam a impressionar todos com seu entusiasmo e vontade de se jogar contra as forças de Gaddafi.

Um dos meus amigos, que esteve em Benghazi por algumas semanas, me contou que não era um mar de rosas. Os rebeldes continuavam a impressionar todos com seu entusiasmo e vontade de se jogar contra as forças de Gaddafi, mas havia a ameaça perpétua que a linha de frente fosse ultrapassada. Era perigoso após anoitecer, o dinheiro era escasso e a ONU temia ataques aéreos. Até que finalmente, contrariando todas as expectativas, seguiram em frente. Antes de ir embora, meu amigo me enviou um e-mail: "Meta um desses recipientes de Metamucil na sua maleta. À essa altura, prefiro ter isso a $$$". As refeições na Líbia consistem praticamente em pão.

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Caras magros em jeans apertados, boinas e keffiyehs caminhavam pelo lobby do hotel. Muitas barbas. São jornalistas desgrenhados sem tempo para tomar banho ou lavar o cabelo, mesmo estando em um hotel com água quente. Atrás do restaurante, nos conectamos à internet numa sala que cheirava à Marlboro. Era a versão Christopher Hitchen do paraíso.

De uma maneira geral, Benghazi parece segura o suficiente, mas existem rumores de colunas do Gaddafi, e a maioria das pessoas está preferindo ignorar ou esquecer as estatísticas de que por volta de 40% dos homens-bomba do Iraque eram daquela região. Os rebeldes têm prisioneiros, e os desfilaram hoje para os jornalistas. A Human Rights Watch quase cancelou o show, porque a Convenção de Gênova proíbe que prisioneiros sejam expostos. A jornalista com a qual tenho viajado perdeu a linha no telefone com eles. Assim mesmo, o show seguiu em frente, mas o ônibus e a caravana de jornalistas -- eu incluso -- tiveram sua cópia.

Foi quase um circo. Um cara pequeno que disse ser de Chad afirmou ter recebido a cidadania líbia e recebido US$ 10.000 por mês para estar no exército. Também disse que foram-lhe dados drogas e Viagra, e que foi instruído a matar os homens e estuprar mulheres. Tudo isso de um tampinha.

Todo o resto também foi deprimente. Os prisioneiros estavam desamparados, mas também felizes por falarem com a gente -- tinham desertado. Pareciam estar em boa forma, mas era impossível confirmar qualquer coisa. Jornalistas no ônibus para a próxima coletiva de imprensa (a maioria pulou essa) disseram que o mesmo prisioneiro deu um testemunho completamente diferente da última vez que o viram.

As arma são infinitas, e se tivesse que fazer uma estimativa, chutaria que só uns 10% das pessoas vestindo roupas camufladas são rebeldes, se muito. Vi um cara com uma AK-47 quase tomar uma porrada na cabeça enquanto eu andava para o tribunal em que os prisioneiros foram exibidos. Depois um cara sentado com sua metralhadora (era maior, mas não faço ideia que de qual tipo era) a apontou para nós distraidamente. Foi enervante. Me peguei pensando que seria uma boa ideia usar um coleta à prova de balas na próxima conferência.

Nada disso conseguiu atenuar o que estava acontecendo aqui, e o que talvez venha a acontecer. Sert -- uma fortaleza de Gaddafi -- pode cair em breve. Se isso acontecer, os rebeldes irão controlar cerca de 80% do petróleo, o que vai acabar por limitar, e muito, as opções de Gaddafi -- pra dizer o mínimo. O que acontece quando você é um déspota com acesso à apenas uma fração da sua riqueza e o mundo está patrulhando seus céus? Nada de bom.

TEXTO E FOTOS POR JEREMY RELPH VICE LY
TRADUÇÃO POR EQUIPE VICE BR