reportagem

Por que o mito do “manifestante pago” se recusa a morrer

A teoria da conspiração espalhada por Trump e outros republicanos agora está influenciando propostas de leis nos EUA capazes de criminalizar manifestantes.
4.5.17

Esta matéria foi originalmente publicada na VICE UK .

Em sua jornada de 13 anos do que chama de o lado mais "cor-de-rosa" das políticas radicais até a "bandeira negra da anarquia", Taino Borrell nunca tinha ouvido o termo "manifestante pago" até janeiro. Mas horas depois da posse de Donald Trump, enquanto o ativista de 38 anos marchava ao lado de 10 mil outros manifestantes até a câmara do Arizona, nos EUA, uma mulher, aparentemente encorajada pela vitória do seu candidato, cuspiu o termo na cara do antifa.

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"Estranho", ele lembra de pensar na hora. "Se for esse o caso, eu quero mesmo ser pago."

A eleição de Trump não fez nada para melhorar a amargura e a raiva que dividem os EUA. Isso significa que milhões de pessoas estão saindo às ruas para mostrar resistência, e isso significa que milhões de outras pessoas acham que esses protestos são fabricados em vez de orgânicos, bolados por grupos escusos que representam uma minoria dos norte-americanos.

A narrativa dos "manifestantes pagos" é mais que uma teoria da conspiração marginal — o próprio presidente tem alimentado um enredo que vem desde sua campanha, na qual "anarquistas profissionais" e "vândalos" estão trabalhando para impedir sua agenda.

E com os republicanos enfrentando reações negativas e vaias em reuniões das prefeituras em todo os EUA, Trump sem surpresa descartou a frustração dos eleitores preferindo entender a reação como um trabalho de agitadores plantados. Alguns outros políticos do Partido Republicano ecoaram essas acusações, incluindo o representante do Utah Jason Chaffetz, que acusou muitos dos manifestantes em sua prefeitura de serem pagos para gritar com ele. Quando uma multidão se reuniu em Miami, na frente ao escritório do senador da Flórida Marco Rubio, logo depois da sua posse, seu secretário de imprensa divulgou uma declaração sobre "extremistas de esquerda" que parecia tirada diretamente da cartilha de Trump. Dias depois, numa ação similar, o senador do Colorado Cory Gardner disse que as ligações telefônicas inundando seu gabinete eram trabalho de "manifestantes pagos de outras partes do país". (Os gabinetes de Chaffetz, Rubio e Gardner não responderam meus pedidos de comentário sobre o assunto por que achavam que os manifestantes tinham sido pagos.)

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*** Deveria ser fácil descartar essas declarações como simples manobras, um esforço de rotina para deslegitimar seus oponentes políticos. Mas a ideia já está influenciando a política real: em março, o senado do Arizona votou uma lei para prender organizadores de manifestações que se tornassem violentas, usando as mesmas leis que combatem o crime organizado. Alguns oficiais republicanos eleitos até imitam a linguagem de teoria da conspiração espalhada por Trump, citando "provocadores quase profissionais" que são "encorajados" por benfeitores misteriosos como razão para votar a favor da lei SB 1142. (A lei ainda tem que passar pela câmara do Arizona e ser assinada pelo governador; e presumivelmente também enfrentará desafios legais.)

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Mas nenhum protesto em grande escala aconteceu atualmente no Arizona – ou qualquer coisa que explique do que os senadores estaduais republicanos têm tanto medo para pensar na SB 1142. O maior evento local provavelmente foi quando cerca de mil pessoas se reuniram para celebrar numa mesquita. Katie Hobbs, líder da minoria democrata no senado do Arizona, sugeriu que o catalisador para a lei foi um protesto que se tornou violento em Berkeley – a mais de 1.100 quilômetros de Phoenix – mês passado, quando o troll da direita Milo Yiannopoulos tentou dar uma palestra. Ela suspeita que essa retórica dos republicanos tenha sido alimentada nas semanas desde o incidente, e que a lei pode ser resultado de um medo que o sentimento extremista possa surgir no leste. Agora um mito perpetuado por sites de teoria da conspiração está informando sobre uma lei, que quer colocar ativistas na mesma categoria que membros da Máfia.

"Acho que os republicanos estão tentando usar [revoltas] como veículo para pintar todos os manifestantes como bandidos e congelar os direitos da Primeira Emenda." — Katie Hobbs, senadora no Arizona

"Acho que os republicanos estão tentando usar [revoltas] como veículo para pintar todos os manifestantes como bandidos e congelar os direitos da Primeira Emenda", me disse Hobbs. "Não há uma razão para o Arizona sequer considerar isso."

Borrell, o antifascista do Arizona, diz que é quase inútil protestar contra a proposta de lei – como a maioria das medidas controversas, os votos ficaram divididos nas linhas dos partidos, com republicanos, que controlam as duas casas de legislatura, a apoiando. E claro, o Partido Republicano não deve ser influenciado por manifestações. Mas ele me diz que em todos seus anos de agitação, nunca viu um presidente ou uma população tão ansiosos para desacreditar o que ele e seus colegas descontentes fazem.

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*** Para deixar claro, manifestações em grande escala sempre são organizadas por grupos, que muitas vezes são bancados por indivíduos. Isso é verdade independente do lado envolvido. Por exemplo, em 2010, uma organização fundada por David Koch treinou membros do então nascente movimento Tea Party em detalhes políticos relacionados ao debate da saúde pública; dois anos depois, o grupo armou uma manifestação anti-Occupy. (O Occupy Wall Street em si foi organizado inicialmente pelos editores da revista anticonsumismo Adbusters.)

Ben Winckler é o diretor de Washington do MoveOn.org. O site é frequentemente mencionado em teorias da conspiração sobre manifestantes pagos, e é acusado de ser comandado pelo investidor bilionário liberal George Soros, um bicho-papão da direita. Winckler explica que sua organização é basicamente uma gigantesca lista de e-mails e 45 pessoas que mandam petições, sugerem maneiras como as pessoas podem ajudar sua agenda, e pedem doações – sendo a média US$26.

Ele diz que mesmo a marcha mais recente em Washington, que começou com uma postagem no Facebook, só pôde acontecer quando pessoas que sabiam o que estavam fazendo embarcaram na ideia. Mas o fato de que o MoveOn doou dezenas de milhares de dólares para a infraestrutura da marcha não significa que as pessoas ali eram menos reais ou frustradas que os membros do Tea Party ou do Occupy.

"Tem uma diferença entre pagar por carros de som e telões e pagar pessoas para aparecer no seu evento", diz Wickler.

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Ainda assim, a direita insiste que algo nefasto está acontecendo, com muitos sites dizendo que Soros pagou pela presença de pessoas nas revoltas violentas em Ferguson, Missouri. (Na verdade, um programa fundado por Soros deu US$33 milhões para grupos de protesto locais depois da morte de Michael Brown.) Um relatório de 2015 obtido pelo Breitbart também mostra que o Open Society Institute de Soros deu US$650 mil para "investir em técnicas de assistência e apoio para grupos no centro do movimento recém-nascido #BlackLivesMatter", depois que Freddie Gray foi morto pela polícia em Baltimore.

*** Quando as pessoas dizem "manifestante pago", elas geralmente querem dizer que alguém literalmente deu dinheiro aos manifestantes para fingir entusiasmo por uma causa, e é difícil encontrar exemplos desse tipo de esquema. Em 1º de janeiro de 2016, alguém postou no Craigslist que estava procurando profissionais criativos e de mídia – que eles chamaram de "encrenqueiros" – para humilhar "um dos PRINCIPAIS CANDIDATOS a PRESIDENTE DOS EUA". Outro anúncio, postado no dia 6 de março em Chicago, buscava candidatos para uma organização sem fins lucrativos chamada Grassroots Campaign, que um site de notícias falsas chamado All News Pipeline considerou prova de uma conspiração em massa. Mais tarde naquele mês, Trump teve que cancelar um comício planejado na cidade por causa de grandes protestos.

Logo depois, o MoveOn.org mandou um e-mail para seus seguidores explicando o que aconteceu em Chicago e pedindo doações de US$3. Sites conservadores disseram que isso era um sinal de que Soros estava organizando um protesto ainda maior, possivelmente na Convenção Nacional Republicana. Isso nunca se materializou, principalmente porque as autoridades de Cleveland designaram uma rota para o protesto que passava longe do centro de convenções, uma ação que mobilizou a ACLU.

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O mito dos manifestantes pagos surgiu novamente na época da posse, quando o site obcecado por teorias da conspiração Infowars surtou sobre a existência do DemandProtest.com, que aparentemente estava oferecendo seguro para "operativos" dispostos a usar máscaras do Anônimos e semear discórdia em DC. Apesar de o Infowars ter retratado isso como prova de uma conspiração nível Illuminati, o mais provável é que o site fosse falso.

Agora, diz Wickler, surgiu a ideia de que organizações como o MoveOn estão recrutando pessoas no Craigslist e pagando US$1.500 por cabeça para gritar contra os congressistas republicanos – algo que Wickler diz não apenas ser ridículo, mas impossível, considerando que cerca de 100 mil pessoas apareceram nos protestos.

"Seria impossível esconder uma história assim", ele diz. "Haveria muito mais provas. Além disso, esse é o jeito mais idiota possível de gastar US$150 milhões em política."

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Tradução: Marina Schnoor

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