resenha

'Cara Gente Branca' é hilário, real e necessário

A série, uma sequência do filme de Justin Simien, não é apenas um seriado, é um ato revolucionário.
8.5.17

Esta resenha foi originalmente publicada na VICE US .

A TV tem o hábito – quase a tendência – de incluir aleatoriamente um personagem de minoria para compensar um elenco monocromático. É o jeito mais fácil de declarar diversidade, quase o equivalente àquela coisa de dizer que você tem um amigo negro. Apesar disso ser preguiçoso, isolador e ofensivo, essa ação também promove a ideia de que só há um jeito de ser negro – porque sinceramente, a maioria desses personagens são todos iguais. Mas Cara Gente Branca da Netflix sabe que somos diferentes.

Publicidade

Essa é uma das razões para essa comédia satírica – a sequência do filme homônimo de 2014 de Justin Simien – ser tão original, necessária e ótima. Ela nos entende de um jeito que a maioria da televisão, cinema e livros não fazem – e usa essa compreensão não para educar os brancos, mas para fornecer um espelho de nós mesmos e nos dar o espaço para rir do nosso próprio ridículo. Simpatizamos com esses personagens, que estão tentando navegar nas águas infestadas de tubarões que é ser uma pessoa negra em espaços de maioria branca.

A série também compreende as diversas camadas de racismo e microagressão: não é só questão de ser chamado de "crioulo" ou um policial sacar a arma para você – apesar desses eventos estarem na série, porque estão na nossa vida. Também é sobre as pequenas merdas que vão se acumulando: quando um professor pergunta se alguém com uma "ligação especial" com a escravidão quer liderar a discussão, quando estudantes brancos não conseguem parar de olhar para o único estudante negro na sala, ou quando um treinador confunde um estudante negro com um atleta negro de seu time. Ou quando uma mulher branca toca o afro de um homem negro dizendo que parece o do Wiz Khalifa. Esses momentos na série geralmente provocam, simultaneamente, risos e devastação: é engraçado, porque todos já passamos por isso e sabemos quão ridículas são essas microagressões, e é devastador porque já passamos por isso e sabemos como dói.

Publicidade

Leia também: "O criador de 'Cara Gente Branca' fala sobre raça, identidade e cinema negro"

Então faz sentido que o catalisador de Cara Gente Branca seja uma festa de blackface dada por uma revista de humor do campus. Quando você vive apontando esses incidentes e comentários racistas "menores", mas sempre te dizem que é só coisa da sua cabeça, é quase uma satisfação ver uma prova de que você estava certo – é um negócio foda mesmo. Racismo não é, como um personagem diz "uma coisa que só acontece nos anos 50 ou nas matérias do BuzzFeed", está bem ali agora: incontáveis garotos brancos (nossos colegas!) com a cara pintada de preto para zombar da nossa cultura, e sem se preocupar um minuto sequer porque sabem que estão salvos neste mundo.

Claro, essa satisfação não é satisfação mas um realismo cruel. A festa desencadeia vários eventos – a raiva compreensível de um lado, o condescendente "quem liga?" do outro – que vão crescendo como uma bola de neve enquanto os episódios progridem, cada vez mais espinhosos e perigosos.

O filme já era bom, mas o que torna a série ainda melhor é que Cara Gente Branca permite que Simien e seus roteiristas tenham muito mais tempo para explorar vários ângulos e pontos de vista, para jogar com o comprimento e foder com as expectativas gerais de episódios de sitcom. (A direção também é fundamental aqui, e um dos episódios mais memoráveis foi dirigido por Barry Jenkins de Moonlight.)

Publicidade

Marque Richardson (Adam Rose/Netflix).

Cada episódio foca em um personagem (alguns mais de um), mas às vezes eles olham para as mesmas coisas: uma cena de um episódio pode se sobrepor a cena de outro, o que permite ver um evento através de vários olhos. Ocasionalmente narrado por Giancarlo Esposito, a temporada conta uma história nova – não é coincidência que os episódios são chamados de "capítulos" – uma história tão envolvente que é quase impossível de parar de assistir depois você começa. (Assisti os dez episódios em duas partes, mas só porque um episódio brutal exigiu uma pausa para processar as emoções e tomar umas cervejas.)

A série e lindamente voltada para os personagens, passando por relacionamentos românticos, platônicos e não requisitados, enquanto também destaca as multitudes acima mencionadas da negritude. Temos Sam (Logan Browning), a protagonista miscigenada que possui uma combinação de raiva, tristeza, inteligência e otimismo cauteloso. Ela também tem o fardo extra de compensar pela sua parte que não é negra, e compensar pela parte dela que está namorando um homem branco (John Patrick Amedori), cujo ponto de vista também é explorado. Lionel (DeRon Horton) não só tem que descobrir seu lugar como nerd negro introvertido, mas também como homem negro gay e como jornalista. Ele está simultaneamente no meio de tudo e separado.

A ambiciosa Coco (Antoinette Robertson) geralmente é a escada de piadas sobre se ela é conscientizada ou não, e embora tenha seu futuro planejado, ela não consegue encontrar seu lugar atual no mundo e na comunidade negra. Troy (Brandon P. Bell, reprisando seu papel no filme) é o filho do reitor que sente a pressão para não ser apenas negros, mas "negro Obama": suavizado, palatável para os brancos, aceitável como político e "prova" de que há "negros bons". Reggie (Marque Richardson) é um dos garotos mais inteligentes do campus, mas está sempre com raiva – por boas razões – e tem dificuldade para saber quando é hora de dar uma pausa na marcha, para não se desgastar. Um amigo precisa lembrá-lo que "às vezes, ser despreocupado e negro é um ato de revolução", e conforme a série progride, fica claro que às vezes uma série de TV também pode ser um ato revolucionário.

Publicidade

Todos os personagens são honestos e multidimensionais, e recebem a tarefa de navegar pelo vão entre como eles se veem e como os outros os veem, enquanto trocam constantemente de códigos durante o dia. Eles também têm plena consciência de suas contradições de uma maneira central da nossa cultura: admitir assistir The Cosby Show em segredo, criticar o trabalho escravo usado pela Apple pelo seu iPhone. Cara Gente Branca é sobre a nossa cultura – não é uma série feita pensando no conforto dos brancos, nem deveria – o que a torna ainda mais marcante e envolvente. E ela não foca apenas nos assuntos pesados, como uma discussão sobre a linha tênue entre assimilação e autopreservação, mas também sobre pontos mais leves: diferenciar "birracial Rashida Jones" de "birracial Tracee Ellis Ross" ou casualmente mencionar um momento esquecido da história da Brandy.

Cara Gente Branca é cheia de especificidades, referências e uma sinceridade que você não sabia que precisava, tanto que pode te pegar desprevenido, como tropeçar em um jarro de água e de repente perceber que você estava com muita sede.

Siga a Pilot Viruet no Twitter .

Tradução: Marina Schnoor

Siga a VICE Brasil no Facebook, Twitter e Instagram.